The New York Times Por vastas extensões do deserto de Sonora, no Arizona, ressequido pelo sol, milhares de aeronaves aposentadas ficam estacionadas uma atrás da outra em cemitérios de metal. Muitos dos motores não são ligados há anos. Mas a crescente demanda dos Estados Unidos por eletricidade para abastecer data centers está trazendo-os de volta à vida. Várias empresas estão correndo para retirar os motores de aeronaves antigas e convertê-los em geradores elétricos. E os data centers, desesperados por energia, estão comprando tudo o que aparece. Aeronaves aposentadas estacionadas no Museu do Ar e do Espaço de Pima, em Tucson - Gabriela Bhaskar/NYT "Eles estão usando a criatividade", disse Bill Kleyman, diretor-executivo da Apolo, empresa de infraestrutura de inteligência artificial. "Há apenas alguns anos, um data center tradicional teria dito: ‘Você está brincando? Isso é um absurdo’." Agora, segundo Kleyman, os desenvolvedores estão obcecados com a "rapidez para obter energia". "É algo como: ‘Em quanto tempo você consegue me fornecer energia?’" O presidente Donald Trump, ciente de que a rápida construção de data centers despertou preocupações com o aumento dos preços da eletricidade, pressionou seus desenvolvedores a gerar a própria energia. "Foi ideia minha", disse ele a jornalistas em agosto. "Agora, por determinação minha, os data centers são obrigados a gerar a própria eletricidade, para não retirá-la da rede." Os motores a jato são uma fonte abundante e inexplorada. Em janeiro, a Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos afirmou que os motores dos 4.000 antigos jatos militares estacionados em uma única base no deserto de Tucson poderiam gerar 40 mil megawatts de potência. Isso supera a capacidade de geração de todo o estado. Mas as turbinas reaproveitadas de aviões tendem a ser menos eficientes e mais poluentes do que os motores projetados para usinas convencionais movidas a gás. Além disso, os data centers precisam de mais geradores movidos por motores a jato para produzir a mesma quantidade de eletricidade. A xAI, empresa de IA de Elon Musk, instalou oito turbinas convertidas no Mississippi para abastecer um de seus gigantescos data centers, segundo licenças estaduais e imagens de satélite, ambas analisadas pelo New York Times. Os geradores têm autorização do estado para emitir monóxido de carbono a uma taxa duas vezes maior que a de outras turbinas no local. As licenças também permitem um limite 25% maior para poluentes conhecidos como compostos orgânicos voláteis. Tanto o monóxido de carbono quanto os compostos orgânicos voláteis representam riscos significativos à saúde. Ambientalistas afirmam que reutilizar motores a jato mais antigos e menos eficientes é um retrocesso. Patrick Anderson, advogado do Southern Environmental Law Center, disse que a geração de eletricidade —sobretudo para algo tão futurista quanto a IA— "deveria estar ficando mais limpa com o tempo, e não mais suja". A fabricante dos geradores da xAI movidos por motores a jato, a ProEnergy, entrou cedo nesse mercado, reaproveitando uma turbina da General Electric comumente encontrada em aeronaves da Boeing. Landon Tessmer, executivo da ProEnergy, disse aos participantes de uma conferência em Denver, em setembro, que a demanda dos data centers estava superando a das concessionárias tradicionais. Cada turbina pode produzir 50 megawatts de eletricidade, afirmou, o suficiente para abastecer 15 mil residências. "Se alguém aqui já voou em um Boeing 747, é exatamente o mesmo motor de avião." A ProEnergy não divulga os nomes de seus clientes. Mas licenças estaduais de todo o país analisadas pelo Times mostram que algumas das maiores empresas de IA planejam usar suas turbinas. Segundo documentos regulatórios, empresas que fornecem energia para data centers, incluindo algumas que trabalham com o Google, afirmam que usarão turbinas convertidas da ProEnergy. Nem a xAI nem a ProEnergy comentaram as preocupações ambientais. O Google afirmou que optou por esperar pela energia conectada à rede elétrica. CHIPS 'SE ACUMULANDO' Para empresas presas em longas filas de espera para se conectar às redes elétricas ou adquirir turbinas convencionais, essas unidades oferecem uma solução rápida. Em fevereiro, Musk expressou frustração com a dificuldade de conseguir energia suficiente para concretizar suas ambições de IA. A eletricidade, e não os chips de computador, havia se tornado o principal gargalo para o desenvolvimento da IA, disse ele em um podcast apresentado por Dwarkesh Patel, escritor especializado em tecnologia. "Os chips vão se acumular sem que possam ser ligados", afirmou. Em um aparente esforço para aliviar a escassez de oferta, a SpaceX, de Musk, adquiriu uma fabricante de turbinas móveis a gás. No ano passado, a FTAI Aviation, empresa de Nova York que aluga e repara motores a jato, criou uma divisão que converte motores aposentados de aeronaves Boeing 737 e Airbus A320 para abastecer data centers. C-Level Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisõesEm julho, uma joint venture da FTAI assinou um acordo de US$ 1,5 bilhão para fornecer turbinas convertidas a uma desenvolvedora de data centers. O presidente da FTAI, David Moreno, disse que a empresa estava adaptando suas instalações em Montreal com uma linha de produção para a conversão de motores a jato. "Os clientes querem as unidades agora", afirmou ele em uma teleconferência com investidores em abril. A Boom Supersonic, startup inicialmente voltada a retomar as viagens supersônicas de passageiros, também está mudando de rumo para usar seus motores a jato em data centers. "Tudo gira em torno de conseguir energia o mais rápido possível", independentemente do custo ou da eficiência, disse Audun Martinsen, analista da empresa de pesquisa energética Rystad Energy. Com unidades movidas por motores a jato, "é possível colocar um data center em funcionamento em 24 meses", afirmou, em vez de esperar anos pelo acesso à rede elétrica. 'MOTORES SÃO OS PRIMEIROS A SER RETIRADOS' O Pinal Airpark, a cerca de uma hora de carro da Base Aérea de Davis-Monthan, é uma das maiores instalações comerciais do mundo para recuperação de aeronaves, armazenando quase 300 aviões em uma área de aproximadamente 8.000 hectares. Quando aviões aposentados chegam ao local, "os motores são os primeiros a ser retirados", disse Lynell Merriman, gerente de atendimento ao cliente do Pinal, enquanto circulava entre as aeronaves em sua minivan. Grande parte de seu trabalho consiste em levar clientes para inspecionar e comprar peças reutilizáveis, como motores e componentes eletrônicos. Em muitos casos, segundo ela, os motores valem mais do que toda a estrutura da aeronave. A conversão de um motor a jato envolve várias etapas. Em um avião, a função do motor é expelir uma grande quantidade de ar pela parte traseira, impulsionando a aeronave. Para isso, o ar é sugado por uma enorme ventoinha na parte frontal e comprimido por uma série de rotores. Em seguida, é misturado ao combustível de aviação na câmara de combustão para fazer girar um eixo central que movimenta a ventoinha frontal, puxando mais ar e reiniciando o ciclo. A maior parte do ar sugado pela ventoinha contorna o núcleo do motor e é expelida pela parte traseira, gerando empuxo. Para converter o motor, o revestimento externo e a ventoinha são removidos. A câmara de combustão é modificada para queimar gás natural. Em vez de movimentar uma enorme ventoinha, o eixo central é conectado a uma caixa de engrenagens e a um gerador elétrico. "Eles pegam esse fluxo de alta velocidade e o convertem em energia mecânica", disse Guillermo Paniagua-Perez, professor de engenharia mecânica da Universidade Purdue. Scott Marchand, especialista em aviação que dirige o Museu do Ar e do Espaço de Pima, disse que reaproveitar motores de aeronaves não é novidade. Motores a pistão, por exemplo, já foram usados como bombas de irrigação. Mas, segundo ele, não havia precedentes para o uso de motores a jato convertidos como principal fonte de energia de uma instalação tão gigantesca quanto um data center de IA. Ele também questionou até que ponto isso será realmente viável. "Será preciso ter uma quantidade monstruosa de motores, cuja manutenção é muito cara, que consomem combustível caro e que, por si só, geram uma enorme quantidade de calor", afirmou. Apesar de preocupações como essas, o governo Trump incentiva a rápida instalação de geradores de todos os tipos em data centers. Há alguns meses, em uma intervenção judicial extraordinária, o governo Trump ficou ao lado da xAI em uma ação movida por ambientalistas contra os geradores da empresa, dizendo a um juiz que grupos de cidadãos não deveriam ter permissão para ajuizar processos ambientais. Em sua manifestação, o governo afirmou que a ação ameaçava a segurança nacional por prejudicar a meta de Trump de alcançar o "domínio global da IA".
Motores de avi�es aposentados viram alternativa para abastecer data centers em meio � corrida da IA
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