São Paulo Um xamã sopra um pó nas narinas do outro. Pouco depois, aquele que recebeu a substância começa a dançar, faz movimentos com os braços como se fossem asas e vai ao centro de uma maloca. Ali, inicia contato com os xapiris, os espíritos sagrados da tradição yanomami. Essa é a primeira etapa do ritual que reuniu 30 xamãs na comunidade de Xihopi, na região do rio Demini, no Amazonas, em 2022, para celebrar 30 anos da homologação da Terra Indígena Yanomami. Mas o encontro também foi marcado por alertas sobre a presença de garimpeiros ilegais, doenças e ameaças ao território. Foto de Leão Serva da mostra 'Caleidoscópio Xapiri Yanomami', que mescla longas exposições com sobreposições - Leão Serva/Divulgação O jornalista e fotógrafo Leão Serva registrou o ritual do celular com o recurso de longa exposição, que permite capturar nuances de um movimento em um só clique. As 34 imagens estão reunidas na exposição "Caleidoscópio Xapiri Yanomami", aberta ao público na quinta-feira (29) no MIS (Museu da Imagem e do Som), no Jardim Europa, região oeste de São Paulo. Para entender o contexto das fotos, é preciso conhecer o papel dos xamãs na cultura yanomami. "Eles são pessoas que têm contato com os outros planos da vida, com o mundo invisível e com os espíritos, os xapiris [que habitam essa dimensão]", afirma Serva. Os xamãs se conectam com os xapiris depois do uso da yãkoana, pó preparado a partir de cascas de árvores que contém dimetiltriptamina (DMT), substância psicoativa. Soprada nas narinas dos xamãs por meio da oroma, um tubo longo de madeira oca similar a uma pequena zarabatana, essa substância provoca um estado de transe. O efeito é rápido e potente e, ao absorvê-la, a consciência do xamã vai ao encontro dos seres sagrados. No ritual fotografado por Serva, cada um dos participantes recebeu a yãkoana de forma individual. Enquanto um deles se manifestava, os demais ouviam e esperavam a própria vez. Quando cada um vai ao centro da maloca para se comunicar com os xapiris, o que se vê é uma série de gestos que evocam o voo de pássaros. Ao voltar para o lugar onde aguardam os outros, o xamã transmite aquilo que recebeu dos espíritos por meio de cânticos e danças. Embora exista semelhança nos trejeitos dos participantes, cada um deles varia a maneira de dançar e de se posicionar no espaço. Alguns permanecem em pé, outros se agacham ou se sentam enquanto narram. O ritual, porém, dispensa instrumentos musicais. A expressão dos xamãs está concentrada na voz, na dança e nos gestos. Quando um participante termina, outro assume seu lugar e continua a cerimônia. Cada manifestação dura de 20 a 30 minutos, mas os efeitos da yãkoana podem se alongar por muitas horas. Os sonhos dos xamãs na noite seguinte ao ritual ainda contêm vestígios dessas experiências, de acordo com o relato presente no livro "A Queda do Céu" (ed. Companhia das Letras; 768 págs.) de Davi Kopenawa, xamã e líder político do povo yanomami. No trabalho, Serva encontrou um resultado inusitado: os corpos se fragmentam no deslocamento. Em uma das fotos, as várias posições das pernas e do tronco durante a dança coexistem de maneira a se duplicar. Isso porque a longa exposição do smartphone utilizado por Serva não congela um único instante. O recurso registra sucessivas frações do movimento durante a captura da imagem e as combina por meio de processamento digital. Em uma câmera convencional, a longa exposição produz efeito de rastros nas luzes e nos movimentos. Um braço vai aparecer sombreado, como um vulto. Na técnica usada por Serva, os deslocamentos laterais ficam mais alongados e fragmentados. Quando alguém avança em direção à câmera, a deformação tende a ser menos intensa. Se a oscilação for sutil ou estiver concentrada em um único local, o corpo se sobrepõe a si mesmo. Em outros casos, o deslocamento imprevisível cria contornos livres à medida que os xamãs mudam de posição. "O curioso é que esses efeitos de esticar, encolher e duplicar as pessoas nas fotos montam uma nova imagem que só pode ser vista aqui, nessas fotos", afirma o fotógrafo e curador da exposição, Ricardo Corrêa. "Serva faz tudo isso com o uso da técnica." Caleidoscópio Xapiri Yanomami MIS - av. Europa, 15, Jardim Europa, região oeste. Ter. a sex., das 10h às 19h. Sáb., das 10h às 20h. Dom. e feriados, das 10h às 18h. Até 6/12. Grátis
Mostra fotogr�fica de Le�o Serva descortina ritual em que xam�s se conectam a esp�ritos sagrados
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