Mostra de S�o Paulo fez descobertas fant�sticas e reuniu fan�ticos em 50 anos

Mostra de S�o Paulo fez descobertas fant�sticas e reuniu fan�ticos em 50 anos

Há tanta coisa para falar sobre esses 50 anos da Mostra de Cinema de São Paulo, que começa nesta sexta suas sessões de repescagem, que é difícil saber por onde começar. Vamos então começar pelo melhor —as filas. Nunca tinha visto filas tão alegres, animadas, tão grandes e cheias de expectativa quanto aquelas. Nos filmes mais esperados, chegavam a dar volta no quarteirão. Pois ainda se fazia fila com frequência para ir ao cinema; eram longas, e essas da Mostra eram, em definitivo, diferentes. Era como se a gente fizesse fila não para ver um filme, mas para entrar na vida, conhecer o mundo, conhecer pessoas, estar junto delas, reencontrá-las. A emoção crescia sempre que a gente começava a descer a escadaria do Masp, o Museu de Arte de São Paulo, a caminho do auditório: quem chegava na escada fatalmente conseguiria ter lugar na sala. O filme? Tanto faz. Podia ser uma decepção ou não. O importante era estar lá. Quem não encontrava lugar nas poltronas se ajeitava nas laterais. Estávamos na ditadura, e ir ao cinema era também um manifesto político. A exibição de "O Império dos Sentidos", em 1979, não foi só uma revelação cinematográfica, nem um evento apenas social. Ver um filme podia conter toda a esperança do mundo, do futuro, do que nos esperava. Nem tudo, porém, eram flores. Por exemplo, a cidade cinéfila parou para ir à fila do "Calígula" e se arrependeu. Mas ruim mesmo foi a ruptura de Leon Cakoff, seu criador, com o Masp. O evento deixou de ser "a Mostra do Masp", passou a outros cinemas, virou só "a Mostra". Houve também o tempo difícil da concorrência com o Festival do Rio, que tinha uma pilha de patrocinadores fortes. Restava ao Leon buscar os filmes "de país sem água encanada", como dizia o humorista José Simão. Curiosamente, de lá podiam às vezes vir algumas das obras mais surpreendentes. Depois da separação do Masp, quase todo ano o Cakoff ia aos jornais, por volta de março, talvez, para anunciar que este ano não tem mais, a Mostra vai acabar. Se não aparecessem os patrocinadores. A reclamação acho que destravava a burocracia e logo pintava, magicamente, um patrocínio. A Mostra continuava. Meus encontros com Leon durante o evento eram fortuitos, quase não o via. E quando via, ele estava cercado de problemas. Quando não eram com a censura, eram com a alfândega —esses, até piores. Eles pediam, por exemplo, certificado de importação, mas como, se os filmes deviam apenas entrar, passar no cinema e voltar ao país de origem? Como explicar essas coisas? Mas o Leon era mestre em driblar esses problemas, pois, só para lembrar, a Mostra aconteceu dez vezes em plena ditadura. Então era preciso tirar partido disso, até porque a Mostra era um escape. Leon sabia tratar com os críticos, pois, sendo ele mesmo um crítico, e como via os filmes antes de todo mundo, destacava um grupo restrito de filmes que julgava os melhores. Nem sempre eram, claro, mas a estratégia funcionava: com poucos filmes na cabeça, numa lista de centenas, a divulgação tornava-se mais fácil e eficiente. Ele tinha intuição do público. Como sempre acontece, lembro de um dos filmes que ele recomendou vivamente e que eu detestei —"Koyaanisqatsi". Era original, sem dúvida, e com a publicidade lotou cinemas e mentes com sua sucessão insuportável de dunas e ventos e similares. Não importa. A obra foi objeto de admiração por algum tempo, mas não sei se alguém explicou por quê. Por falar nisso, havia uma turma do Rio de Janeiro, do Ruy Gardnier, do Eduardo Valente, da revista Contracampo, que não engolia os prêmios dados pela imprensa. Resolveram criar um prêmio alternativo e me chamaram para escolher junto com eles. Não sou capaz de dizer qual foi o resultado dessa pequena conspiração, mas jamais esquecerei que a reunião foi num boteco na descida da rua Augusta onde tomei uma das piores caipirinhas de minha vida. Os críticos, por vezes, criam suas turmas. Mas na Mostra havia a turma dos adoráveis fanáticos de todos os anos. Eram pessoas que largavam seus negócios, médicos que esqueciam os clientes, advogados que largavam as causas. Compravam a credencial permanente de 40 sessões e emendavam um filme no outro. Quase todos eu só encontrava durante a Mostra. Era como se fossem personagens de um filme que a gente revê todo ano. E todo ano a gente se cruzava em algum intervalo de sessão, trocava algumas palavras sobre o filme, sobre as coisas. Certos nomes de cineastas aprendíamos a custo —Makavejev, Makhmalbaf, Eizo Sugawa. Decorávamos o nome enquanto admirávamos seus filmes. Sugawa esteve no Brasil. É um desses casos raros de diretor japonês muito mais lembrado no Brasil do que no Japão ou qualquer outro lugar do mundo. Quando Carlão Reichenbach esteve por lá, fez a Fundação Japão ir atrás dele, achar o cara, que era um recluso. A Mostra fez descobertas fantásticas. O cinema iraniano foi, claro, uma revelação. Hollywood nos ensinara que no Irã vivia um povo bárbaro, bruto, primitivo. Só que as imagens exibiam outra coisa: pessoas muito parecidas conosco. Gostavam até de futebol. O maior foi, de longe, Abbas Kiarostami: com ele tratava-se de ver o que nunca se havia visto. É, junto com David Lynch e Manoel de Oliveira, um desses nomes centrais da passagem ao século 21. E Manoel de Oliveira? Quando ele apareceu, ninguém aqui achava que Portugal fosse capaz de fazer um filme bom. O tamanho do equívoco era imensurável, claro. De todos os filmes de Oliveira que passaram aqui, a sessão mais engraçada foi, para mim, a de "Os Canibais". Era uma ópera contemporânea. Começou com sala cheia, mas a ópera e seu canto espantaram quase toda a plateia. Eu fiquei, mas não entendia porque ele havia feito esse filme. Até que chega o desfecho delirante, uma espécie de Buñuel ao quadrado, magistral. Pena que quase ninguém chegou a ver. A Mostra teve esses casos de cineastas que era preciso esperar algum tempo, ver outros filmes, para serem entendidos. E teve também retrospectivas deslumbrantes, como a do indiano Satyajit Ray, no antigo Cine Majestic. É a retrospectiva de que melhor me lembro —e não faltaram ótimas e, para falar a verdade, andam um pouco em falta. O momento mais triste dessa história foi a morte tão prematura, quase diria absurda e inaceitável, de Leon Cakoff, pela recidiva de um câncer de pele. Passo pelo que foi pessoal nesse processo. Fico com a dúvida que acometeu a todos há 15 anos. Era o momento da 35ª Mostra e a pergunta era: será que haverá a 36ª? Será que a Renata segura o tranco? Sim, a Renata de Almeida, que era o braço direito da mostra e mulher do Cakoff. O mínimo a dizer é que aguentou, virou o braço direito e o esquerdo. Trouxe a Mostra até aqui com energia e talento. Vamos para os próximos 50.

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