Omar Ribeiro Thomaz foi um acontecimento nesta vida. Teatral e expansivo, tinha uma memória surreal. O tipo de memória própria dos antropólogos, capazes de conectar os maiores acontecimentos dos últimos 50 anos no Ocidente com pessoas de carne e osso com quem conviveu. Foi um homem de muitas vidas e apaixonado pelas muitas vidas possíveis no mundo. Sua vida foi uma sucessão de deslocamentos. Nasceu carioca, cresceu entre São Paulo e Lisboa, tornou-se adulto em Barcelona, descobriu a antropologia na Guiné-Bissau, fez dela uma profissão no Brasil, pesquisou em Moçambique e encontrou no Haiti uma segunda pátria intelectual. Tornou-se professor de antropologia da Unicamp em 2001. Pesquisou colonialismo, guerras e desigualdades em Moçambique, Haiti e outros países. Formou gerações de antropólogos. Durante o terremoto de 2010, estava no Haiti com um grupo de alunos. Depois, ajudou estudantes haitianos a prosseguir seus estudos e suas vidas no Brasil. A violência foi uma preocupação constante. Não apenas aquela que explode nas guerras, mas a que se prolonga muito depois delas, nas hierarquias raciais, nas fronteiras e nas vidas interrompidas pela dominação colonial. Interessava-lhe compreender como as pessoas atravessavam essas experiências, reconstruíam seus mundos e encontravam maneiras de resistir. Essa sensibilidade tinha raízes na própria biografia. Filho de militantes comunistas perseguidos pela ditadura, viveu a Revolução dos Cravos ainda criança. De volta ao Brasil, viu a mãe ser presa pelos órgãos da repressão. Mais tarde, em Barcelona, encontrou no teatro, nas artes e na vida cultural da cidade formas de ser livre e se expressar. Na universidade, sua erudição era acompanhada de uma generosidade pouco protocolar. Interessava-se pelas pesquisas dos alunos, abria a porta de sua casa, inventava conexões e fazia circular pessoas entre países e instituições. Não separava a produção de conhecimento das responsabilidades diante daqueles que encontrava pelo caminho. Tinha também uma gargalhada inconfundível e um gosto especial pela controvérsia. Nos últimos dias, amigos e alunos fizeram uma romaria ao hospital da Unicamp para se despedir. Conta-se que as enfermeiras, impressionadas com tantas visitas, procuraram seu nome na internet para descobrir quem era aquele homem. Era Omar. Um sujeito que passou a vida conhecendo pessoas e fazendo com que elas se conhecessem. Não surpreende que tantas tenham aparecido para se despedir. O velório acontece nesta terça-feira (13), das 11h às 15h30, no Cemitério Flamboyant, em Campinas. Na quarta-feira (14), haverá uma segunda cerimônia, das 9h às 12h30, no Cemitério São Paulo, em Pinheiros, na capital paulista, onde será sepultado às 13h. coluna.obituario@grupofolha.com.br Veja os anúncios de mortes Veja os anúncios de missas
Mortes: Viveu muitas vidas em uma s� e fez do Haiti sua segunda p�tria
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