Marcelly não foi a primeira a ter esse nome, mas foi a primeira a conquistá-lo. Em 2011, obteve na Justiça o direito de alterar o título no registro civil sem passar por cirurgia de redesignação sexual, decisão inédita no país. Muito antes da sentença, porém, já tinha seu lugar na história do movimento LGBTQIA+. Participara de momentos decisivos da luta por direitos da comunidade, ajudara a formular políticas públicas e se tornara referência para quem buscava acolhimento. Marcelly Malta Lisboa nasceu em 1951, em Mato Leitão, no Vale do Rio Pardo (RS). Ainda adolescente, mudou-se para Porto Alegre. Sonhava trabalhar na área da saúde, inspirada por uma tia. Conseguiu realizar o desejo com o apoio de freiras franciscanas, que a ajudaram a concluir um curso de auxiliar de enfermagem. Exerceu a profissão. Paralelamente, trabalhou como prostituta nas ruas e boates da capital gaúcha. Durante a ditadura militar, foi presa sob acusações de vadiagem, dispositivo frequentemente usado para perseguir travestis. Ao relembrar aqueles anos, voltava quase sempre à violência que sofreu nas celas. Antes mesmo de se tornar uma das principais vozes do movimento trans, participou da Coligay, primeira torcida organizada LGBT+ do Brasil, criada para apoiar o Grêmio. Na década de 1980, dedicou-se ao Gapa-RS (Grupo de Apoio à Prevenção da Aids), em meio à epidemia que matou milhares de pessoas, dentre elas muitos de seus amigos mais próximos. O enfrentamento ao HIV deixaria de ser apenas uma causa para se tornar o trabalho de sua vida. Nos anos 1990, trabalhou como profissional do sexo na Europa. Dizia que a experiência lhe deu independência financeira. De volta ao Brasil, fundou, em 1999, a Associação de Travestis e Transexuais do Rio Grande do Sul, organização pioneira na defesa dos direitos dessa população no estado. Foi dirigente da Rede Trans Brasil, participou da construção de políticas públicas voltadas ao enfrentamento da Aids e passou décadas formando profissionais da saúde e da segurança pública para o atendimento da população LGBTQIA+. Nos últimos anos, incorporou outra bandeira à militância: o direito de pessoas trans envelhecerem. Em um país onde essa população historicamente convive com violência e morte precoce, defendia que viver também deveria ser uma conquista. Marcelly viveu 75 anos e manteve o ritmo de trabalho até os últimos dias. Para ela, uma vitória individual nunca bastava. Os direitos só faziam sentido quando alcançavam a coletividade. Morreu no último dia 4, em Porto Alegre, e teve seu nome, aquele conquistado, exaltado em todo o país. coluna.obituario@grupofolha.com.br Veja os anúncios de mortes Veja os anúncios de missas
Mortes: Transformou o pr�prio nome em uma causa coletiva
Full Article
📰 Original Source
Read full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.