Ao declamar "O Navio Negreiro", Dona Edite colocava o ambiente em suspenso. Era como se a voz, o jeito e a figura daquela senhora negra, periférica e engajada adicionassem camadas ao poema de Castro Alves. Quando chamada ao microfone, era recebida com aplausos e gritos. E, não raro, levava parte do público às lágrimas. Não à toa, portanto, ficou conhecida como Rainha da Cooperifa, sarau que foi referência cultural na zona sul de São Paulo por duas décadas. Para os presentes, ela evocava lembranças da força, da sensibilidade e da sabedoria de uma avó, de uma mãe e de outras figuras afetivas. Foi chamada até mesmo de Carolina Maria de Jesus da oralidade. O poeta Sergio Vaz descreve Dona Edite como alguém de "presença elevada", "uma ancestral viva". "Quando recitava, entoava uma voz de outras vidas. Não tinha como não se emocionar", diz ele, idealizador da Cooperifa. De Pirapora, no interior de Minas Gerais, Dona Edite migrou adolescente para São Paulo. Estudou, envolveu-se em movimentos sindicais, culturais e católicos até que, por volta da década de 1980, começou a perder a visão, em parte por causa do diabetes. O agravamento do problema a levou à reclusão nos anos 1990. Com apoio psicológico e social, contudo, voltou a se conectar com a literatura por meio de audiolivros. Na Cooperifa, aos poucos, ela foi de espectadora a atração. Como não lia em braile, decorava autores clássicos e contemporâneos com um walkman, no qual ouvia repetidamente fitas gravadas pela sobrinha Azucena. Apresentou-se ao longo de anos em recitais pela cidade de São Paulo, pelo interior e por outros estados. Neles, a artista, conhecida pelo carisma e humor, andava acompanhada da irmã mais quietinha, Zazá. Em seus últimos anos, foi celebrada nos nomes de biblioteca comunitária, cursinho popular e sala de leitura de escola pública. Ainda virou documentário e, em 2024, ganhou o título de cidadã paulistana em homenagem na Câmara Municipal. Além disso, integrou o grupo de dança popular Flor de Lis por mais de 20 anos, ligado à Casa de Cultura Municipal M'Boi Mirim. Alguns de seus principais registros são imagens em que está com a coroa de flores, a saia de chita e as fitas utilizadas nas apresentações. Edite Marques da Silva morreu em 6 de junho, aos 83 anos. Deixou irmãos, sobrinhos e amigos, além de uma legião de admiradores. A causa da morte não foi divulgada. Para Sergio Vaz, ela foi exemplo de resiliência e amor à poesia, assim como alguém que trazia luz aonde ia. "Não sabia bater palmas, batia fora de ritmo. Lembro de brincar sobre isso, e ela se fartava de tanto rir. Nos ensinou a sorrir também", afirma. coluna.obituario@grupofolha.com.br Veja os anúncios de mortes Veja os anúncios de missas
Mortes: Recitava poemas como quem narrava a pr�pria hist�ria
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