Mortes: Pioneira no ensino, foi refer�ncia feminina na arquitetura

Mortes: Pioneira no ensino, foi refer�ncia feminina na arquitetura

Marlene Picarelli não só formou gerações de arquitetos e urbanistas como ajudou a forjar o que daria origem, décadas depois, à graduação em design da USP (Universidade de São Paulo). Uma das pioneiras no ensino do então chamado desenho industrial no Brasil, por vezes foi uma das poucas mulheres em meio à maioria masculina. A trajetória de 35 anos como professora da FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) começou em 1962, cerca de cinco anos após a formatura. Esteve entre as primeiras turmas de alunos da instituição, quando ainda era sediada em antigo casarão de Higienópolis. Colegas e antigos alunos descrevem a arquiteta como uma pesquisadora rigorosa e exigente, assim como uma orientadora "mãezona" e dedicada. Alguns alunos viraram seus amigos. As filhas Giuliana e Fabiana Grinover afirmam que Marlene deixou um legado de mulher forte, inteligente, batalhadora e sempre disponível para compartilhar conhecimento. "Tinha um colo bastante importante, como mãe e como nossa amiga", contam. Gostava de gente e de comemorações. Quando se aposentou, no fim dos anos 1990, percebeu que tinha mais tempo para si e para a família, assim como para ler, viajar e fazer artes manuais, como a pintura de quadros e o bordado. Foi casada por décadas com Lucio Grinover (1934-2025), igualmente professor aposentado da FAU-USP e referência no desenho aplicado à arquitetura. Juntos formaram escritório com Hélio Duarte e Roberto Tibau. O quarteto foi responsável por projetos elogiados e publicados em revistas de arquitetura nos anos 1960. Os trabalhos incluem a escola estadual Alexandre de Gusmão, no Ipiranga, zona sul de São Paulo, e unidades do Senai de Sorocaba, no interior paulista, e de Santo Amaro e do Bom Retiro, na capital. Espaços de ensino também foram parte da tese de doutorado de Marlene, na década de 1970. No estudo, destacou: "Um fato conhecido, mas nem sempre admitido: muito pouco ou quase nada do ambiente criado pelo adulto é usufruído pela criança". Foi a única mulher entre os 12 integrantes do conselho diretor do IAB-SP (Instituto de Arquitetos do Brasil) na gestão de 1962 a 1963. O grupo incluía figuras influentes no meio, como Jorge Wilheim, Carlos Millan e Paulo Mendes da Rocha. Morreu aos 93 anos em 7 de julho, após acidente vascular cerebral. Deixou as filhas e três netos. A FAU-USP emitiu nota de pesar assinada pela professora Cibele Haddad Taralli, ex-aluna de Marlene. "Lembramos seu enfrentamento dos desafios de gênero desde a década de 1960, num mundo ainda priorizado pela atuação masculina nos campos da engenharia e da arquitetura no país, acumulando as funções de mãe, esposa, docente, pesquisadora com maestria, liderança e desenvoltura", destacou. coluna.obituario@grupofolha.com.br Veja os anúncios de mortes Veja os anúncios de missas

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