Mortes: Jornalista na Bahia, amava o r�dio, o rock e colecionava amigos

Mortes: Jornalista na Bahia, amava o r�dio, o rock e colecionava amigos

Foi há muito tempo, na velha Bahia, que veio ao mundo mais um daqueles meninos que imitavam Little Richard e se contorciam. Era José Pacheco Maia Filho, ou Zé Filho, primogênito de José Pacheco e Aleluia Maia. Ele nasceu em novembro de 1965 e se criou no bairro do Canela, em Salvador. Cresceu entre as braçadas na praia de Buraquinho, as partidas do Bahia nas arquibancadas da velha Fonte Nova, os olhos vidrados nos gibis e o estrilar das caixas de som. Na juventude, foi estudar comunicação na Universidade Federal da Bahia. O rádio foi sua primeira paixão profissional. Ainda jovem, encarnava o locutor Jota Junior, embalando com rock as noites da rádio Transamérica. Na programação, não faltava Raul Seixas, cuja morte soou como um terremoto em agosto de 1989. O jovem repórter foi ao cemitério com gravador em punho, onde viu fãs cantarem com vigor e lágrimas nos olhos. Carregaria para sempre certa simbiose com a trajetória de Raulzito, desde novo já lhe dando os toques. Foi nessa época que se uniu a Judy, a primeira mulher, parceira na aventura que resultou nas filhas Annalu e Clarissa. Quando a primogênita anunciou sua chegada, tocava Pink Floyd no rádio, onipresente. Anos mais tarde, já separado, seu caminho cruzaria com o de Thea, segunda esposa até o fim da vida, com quem teve Isis. As três filhas eram seu xodó. Encontrá-las era como achar uma sinfonia após varrer o dial em busca de uma estação. Espírito galhofeiro, perfil acolhedor, Pacheco Maia foi um homem de muitos amigos. Estava sempre pendurado ao telefone com eles, contando pilhérias e gargalhando a hora que fosse. Na profissão, escreveu sobre esportes no Bahia Hoje e sobre economia na Gazeta Mercantil. Foi diretor do sindicato dos jornalistas e liderou uma greve histórica de 33 dias, com piquetes embalados por canções de João Gilberto. Trabalhou com comunicação corporativa, atuou em campanhas eleitorais e ocupou o cargo de secretário de Comunicação em Salvador. O rádio voltou ao seu caminho como professor, quando ganhou ares de lenda ao instalar o transmissor FM da Rádio Facom, da UFBA. Estava sempre às voltas com aparelhos, cabos e antenas. Volta e meia colocava no ar rádios piratas, com a anarquia que preservou da juventude. Também era vidrado nos livros, sempre caçando raridades nos sebos. Tinha uma cultura vasta e não tolerava mediocridade. Deixou sua marca na imprensa com um texto de estilo próprio, reconhecível nos primeiros parágrafos. Diagnosticado com uma leucemia no final de 2025, tratou a doença com firmeza e otimismo. Entre idas e vindas ao hospital, tinha a mesma resposta quando perguntavam como estava: "Maravilhosamente bem, cada dia melhor." Quando o coração bateu pela última vez, no fim da tarde de 18 de setembro, uma chuva desabou sobre Salvador. Foi inevitável lembrar da sua canção favorita, que cantarolava quando chegavam as tempestades: "I wanna know, have you ever seen the rain? Comin' down on a sunny day?" ("Quero saber: você já viu a chuva cair em um dia ensolarado?") Ele já não tinha medo da chuva, como aprendera desde cedo com Raul. Entrou no seu Simca Chambord intergaláctico, acelerou sem olhar para trás e foi ser mais um carpinteiro neste vasto universo. coluna.obituario@grupofolha.com.br Veja os anúncios de mortes Veja os anúncios de missas

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