O arco de uma vida é vasto e pode até passar de uma forma morna e diminuta, mas se a dona desta vida quiser, acontece muita coisa. Uma vida intensa, assim foi a de Virginia Murano, nascida em São Paulo em 25 de abril de 1950. Desde criança, exercia a força e a curiosidade que foram suas marcas. Mexia com as ferramentas do seu pai ajudando-o a consertar carros, sua paixão num momento em que mulheres não dirigiam. Com ele, aprendeu a manusear a furadeira, que tanto utilizou para pendurar quadros e toda sorte de objetos que decorariam suas casas ao longo dos anos —sempre gostou de carregar sua memória perto. Ainda na faculdade de jornalismo da ECA/USP, montou em casa um laboratório para revelar suas fotos. Registrou em detalhes e particulares ângulos de sua história, mas, principalmente, a de sua família. Em 1972, conheceu nesta Folha seu marido Pedro Del Picchia, então diagramador do jornal, depois redator, repórter e editor. Virginia fora trabalhar também na diagramação, onde ficou de julho daquele ano até outubro do seguinte. Consta que, quando ele a viu pela primeira vez, disse que era "a mulher de sua vida". Virginia voltou ao jornal como editora assistente entre dezembro de 1991 e abril de 1992. O espaço é curto para a Virginia. Morou em Lisboa, Paris e, já casada, em Roma, antes de retornar a São Paulo e se estabelecer como mãe de cinco filhos —incluindo dois pares de gêmeos— e jornalista excepcional, como foi recentemente descrita por uma amiga. Trabalhou no Jornal da Tarde como chefe de reportagem, entre outras funções, onde fez muitos amigos e amigas. Como disse um antigo colega de redação, era impossível não gostar dela já à primeira vista. Inspirou jovens a seguirem na profissão de jornalista. Passou pelas redações da Radio Vaticana em Roma; Página Um em Portugal; Rádio Capital; TV Globo, Jornal do Brasil, Veja, Manchete e SBT. Foi assessora de imprensa da Fiat do Brasil, da Companhia de Energia do Estado de São Paulo (Cesp), da Secretaria de Estado da Energia e da Subprefeitura da Sé. Assessorou José Serra e Andrea Matarazzo. Participou da campanha de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República em 1998. Teve empresa de comunicação, que cedeu estágio para vários colegas de sua filha, então na faculdade de jornalismo — sim, esta que escreve também se inspirou na mãe para escolher sua profissão. Criava espaços para plantar morango, maracujá, arruda. Produziu perfumes. Costurou de próprio punho cortinas de mais de dois metros de altura. Teve cães, gatos, coelhos, porcos-da-índia, tartarugas e peixes. Testemunhou um padre casando a própria filha. Escreveu o livro "O Leão de Veneza", em coautoria com o marido, quando moravam na Itália, sobre a passagem de Glauber Rocha pelo festival italiano em 1980. Traduziu para o português o livro "Diálogo com os Anjos", projeto ao qual dedicou muito tempo e todo seu coração. De todas as realizações, sempre disse que eram os filhos seu maior tesouro. Virgina os deixa: Claudio, Bia, Celso e Pedro, além de sete netos e muitos amigos. No último dia 15 de agosto, aos 76 anos, partiu ao encontro de seu filho Alexandre, que a deixara em 2001. A missa de sétimo dia será neste sábado (22), às 15h, na Igreja da Cruz Torta, na av. Profº Frederico Hermann Júnior, 105, Alto de Pinheiros. coluna.obituario@grupofolha.com.br Veja os anúncios de mortes Veja os anúncios de missas
Mortes: Jornalista criativa teve muitos amigos e uma vida intensa
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