Datilografar reportagens policiais todos os dias na violentíssima São Paulo dos anos 1990 era uma tarefa difícil. Mas Renato Savarese o fazia com um sorriso no rosto no extinto Diário Popular graças a dois ingredientes: seu amor por um jornalismo que suja as solas dos sapatos e as bebericadas numa caipirosca que preparava com uma garrafa escondida debaixo da máquina de escrever. Seu plano A era tornar-se jogador do Corinthians, uma de suas grandes paixões. Foi lateral-esquerdo do time juvenil em 1966, quando chegou a trombar um veterano Mané Garrincha em treinamentos no Parque São Jorge. Savá, como era conhecido, dizia ter entrado no meio do craque duas vezes. Uma lesão no menisco, basicamente incurável naqueles tempos, o empurrou para o jornalismo. Recém-formado, cometeu uma das suas maiores ousadias como repórter. Depois de ouvir que um traficante do Rio de Janeiro gostava muito de doces, disfarçou-se de vendedor de maçã do amor. Entregou ao meliante muitas amostras grátis ao longo de semanas, ganhou a confiança dele até se tornar companheiro de copo e assim o entrevistou. Voltou correndo para São Paulo logo depois da publicação. Depois de uma breve carreira em revistas e na TV Bandeirantes, retornou ao clube de coração como setorista nos anos 1980. Também cobriu o São Paulo e a Portuguesa de Desportos, clubes pelos quais criou carinho ao ser acolhido durante a desilusão pelo fim do casamento sem filhos com uma cantora —ele não teria outros relacionamentos sérios. Encontrou um lugar no mundo entre policiais e criminosos na década de 1990, conquistado em anos acordando às 4h para seguir rumo à chacina mais recente. Conhecia tantas favelas e delegacias em São Paulo que elaborou com a ajuda de fotógrafos um roteiro de bares perto de cada uma delas onde podia escrever, encontrar mais fontes e bebericar. Colegas desses tempos creditam a Savarese a criação do termo cracolândia, o afastamento do seu jornal na problemática cobertura do caso da Escola Base e a invenção de dezenas de apelidos para criminosos, que muitas vezes acabavam por adotá-los. Era também especialista no significado de tatuagens usadas por criminosos, um tema de reportagens que também lhe rendeu inúmeros pedidos de auxílio de policiais tentando desvendar casos. Sua última grande cobertura no Diário Popular foi a saga do Maníaco do Parque, apelido de Francisco de Assis Pereira, assassino confesso de pelo menos 11 pessoas. Em 2000, dois anos depois da prisão do criminoso, Savarese deixou o jornal para escrever um livro sobre o caso. A falta da adrenalina diária e a decisão de cortar seu uisquinho pesaram para que a obra se perdesse. Trabalhou seus últimos anos em jornais de bairro, saía pouco. Morreu em sua casa no Jardim da Saúde no dia 19 de julho, aos 77 anos, após um ataque cardíaco. Deixa os sobrinhos Maurício, jornalista por sua inspiração, Aline e Marianne. Sua lápide no Cemitério Vila Formosa faz jus ao melhor momento de sua vida: "Renato Savarese, repórter". coluna.obituario@grupofolha.com.br Veja os anúncios de mortes Veja os anúncios de missas
Mortes: Foi rep�rter especialista em cobertura de casos policiais
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