Se tinha uma coisa que Daisy tinha certeza de que seu caçula jamais faria "era engenharia, ciências econômicas, medicina". Não o seu menino. João Paulo Naves sempre foi das artes. Voltava da escola anunciando "querida, cheguei!", bordão do pai da "Família Dinossauro", e desatava a compartilhar seus causos. Desde pequeno, contar histórias era mais do que uma paixão. Era sua razão de ser. Tinha lábia, o João. Daisy lembra a vez em que a família organizou uma variação do tradicional amigo oculto, em que os presentes podiam ser trocados entre os participantes. Acontece que a avó de João, católica fervorosa, daquelas de rezar terço todo dia, ganhou o que todo mundo cobiçou, um vinho. O neto foi ligeiro: ofereceu em troca, de maneira bem teatral, uma água que jurava ser benta, direto do rio Jordão, onde Jesus se batizou. João fez muitas coisas na vida. Foi vocalista da Bingo, banda de "hardcore do cerrado", com uns chapas da adolescência. Estudou para ser locutor de rádio e amava narrar as coisas empostando a voz. "Mandar mensagem de aniversário, fingia anunciar produto em loja, tudo usando as técnicas aprendidas no curso", rememora a amiga Rafaela Soares. Também tirou carteirinha de comissário de bordo, logo ele que morria de medo de voar —era do tipo que até desistia de embarcar, isso já no aeroporto. João virou um pesquisador de música. Colecionava vinis e, nos últimos anos, dedicava-se ao Quinteto Sururu, coletivo de DJs, todos amigos, que garimpa raridades do cancioneiro nacional. Foi Daisy quem, conhecendo o filho que tinha, sugeriu que cursasse cinema. Um dia, o mineiro de Uberlândia passou por Paulínia (SP), que tinha criado fazia pouco um polo cinematográfico com a pretensão de virar a Hollywood brasileira. O jovem com zero currículo no audiovisual profissional teve a pachorra de dizer que era assistente de vídeo para entrar numa produção que tinha o Walter Carvalho na direção de fotografia. João não entendia patavinas do ofício, nem o Google foi capaz de ajudá-lo. Mas foi lá e fez. No fim da produção, Carvalho chamou o novato de canto e disse que desde o dia um sacou que ele não tinha experiência alguma no set. É o amigo Murilo Pires quem recorda: "Walter disse pra ele: ‘Tem gente que chega falando que fez isso e aquilo, que estudou em Los Angeles, estudou com o Martin Scorsese. Não quero esses caras, não. Eu quero o João'. E os dois ficaram melhores amigos, trabalharam muitas vezes juntos depois". João acumulou mais de 50 filmes e séries trabalhando com câmera e fotografia, de "Bingo" a "O Filme da Minha Vida". Foi após "Entre Vales", o primeiro longa que fez com Carvalho, que João sofreu um primeiro AVC (acidente vascular cerebral). Descobriu 13 anos atrás uma malformação nos vasos sanguíneos do cérebro. Preferiu não operar. Não queria paralisar sua carreira no cinema quando ela começava a engatar. Também tinha medo de descobrir o que quer que fosse, e um episódio lhe soou como sinal de que fez bem. Um causo que contava sempre: se tivesse investigado o problema na época, precisaria passar por uma ressonância. Três pacientes que fizeram esse procedimento no mesmo hospital naquela semana morreram. A medicação utilizada estava contaminada. Desde então, ele dizia que tinha um nozinho na cabeça que podia dar defeito a qualquer momento, e assim vivia cada dia como se fosse a saideira. "Faça um brinde com a pessoa do seu lado e aproveite hoje como se fosse o último dia." Foi essa a frase projetada abaixo de uma foto de João, na fachada que Oscar Niemeyer desenhou para o Teatro Municipal de Uberlândia. A homenagem foi feita durante um festival de música na cidade, no dia seguinte à sua morte. Ele teve um novo AVC em maio e morreu no dia 8 de agosto, aos 42 anos. Deixa a mãe, 3 irmãos, 4 sobrinhos e Tunico, o vira-lata que batizou inspirado na dupla sertaneja Tonico e Tinoco. A família anunciou que "João foi contar os causos no céu". coluna.obituario@grupofolha.com.br Veja os anúncios de mortes Veja os anúncios de missas
Mortes: Encantou Walter Carvalho e vivia cada dia como se fosse a saideira
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