De terno, gravata borboleta e cabelo alinhado, Nando Manini portava um instrumento peculiar enquanto se posicionava no palco do Teatro Record em 1966. Era uma queixada de burro, tipo de percussão afroperuana feita com a mandíbula de um equino e com a qual pouco contato havia tido até aquele momento, visto que participou apenas da apresentação da final. O som rústico —como o de um chicote— por ele produzido com a percussão complementava a interpretação de Jair Rodrigues, que dava voz ao despertar de um boiadeiro para as injustiças sociais, composto por Geraldo Vandré e Théo de Barros. Manini não sabia (e até mesmo dizia torcer para a concorrente, de seu amigo Chico Buarque), mas vivenciava um momento histórico: o empate de "Disparada" e "A Banda" no 2º Festival de Música Popular Brasileira. Ele dizia que esse foi o seu período de "músico acidental". Enquanto se formava arquiteto na USP (Universidade de São Paulo), apresentou-se na icônica montagem de "Arena Conta Zumbi", com texto de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, música de Edu Lobo e cenografia de Flávio Império. E no show "Esse Mundo é Meu", com Sérgio Ricardo e Toquinho, entre outras experiências. Anos antes disso, na juventude, já era conhecido pela animação nos blocos de Carnaval que ajudava a organizar em Mococa, no interior de São Paulo. Memórias daqueles tempos estavam entre as suas histórias mais frequentes. Amigos o descreveram, afinal, como "gente finíssima". Na arquitetura e no urbanismo, Manini produziu até os seus últimos anos. A principal parceria foi com Joaquim Guedes, referência no planejamento de cidades, com quem trabalhou até 1996, por 33 anos e de quem virou sócio ao longo da carreira. Desse período, orgulhava-se especialmente de ter participado de projetos de planejamento urbanístico de distritos de Barcarena (PA) e Jaguarari (BA). "Para ele, a arquitetura tinha também essa dimensão humana, de pensar a cidade a partir das pessoas", conta a filha, Mariana. Entre os amigos e a família, gostava de cozinhar (e de comer), especialmente das gastronomias italiana, espanhola e brasileira. Bons restaurantes eram certeza no roteiro que montava para as suas viagens, bem como obras arquitetônicas e museus. "Encontrava prazer tanto em conhecer novos lugares quanto em descobrir um bom prato ou revisitar uma música favorita", descreve a filha. Distante dos palcos nas últimas décadas, manteve a forte ligação com a música. Era grande conhecedor de jazz, principalmente orquestras, big bands e pianistas, prezando sempre por experiências com boa qualidade de som, a fim de garantir absoluta nitidez sonora. "Era alguém que gostava de compartilhar o que sabia, de apresentar uma música, contar a história de um arquiteto ou despertar nos outros o interesse por algo que o encantava. Deixou, sobretudo, a vontade de conhecer, apreciar e compartilhar", completa Mariana. Luiz Fernando Manini morreu em 6 de outubro, aos 84 anos. A causa não foi divulgada. Deixou a mulher de mais de cinco décadas, Marli, uma filha, Mariana, e os dois netos, Felipe e Rodrigo. coluna.obituario@grupofolha.com.br Veja os anúncios de mortes Veja os anúncios de missas
Mortes: Dizia-se 'm�sico acidental' e viveu momentos hist�ricos da MPB
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