Durante um dos maiores encontros mundiais dedicados a questões ambientais, Carolina Joana da Silva Nogueira perdeu o filho de vista. Pedro tinha 6 anos e a acompanhava na Eco-92, a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro, em 1992. O menino havia se afastado durante a Cúpula dos Povos, evento paralelo que reunia movimentos sociais, organizações e defensores da natureza. Depois de cerca de duas horas, ele foi encontrado bem. Carolina incluía a família na sua rotina de defesa do meio ambiente. Ela levava os filhos a aulas de campo no pantanal e na serra das Araras. Em casa, recebia estudantes e preparava atividades acadêmicas. Essa convivência despertou no filho o amor pela natureza. "Escolhi fazer biologia por influência dela", afirma Pedro da Silva Nogueira, 40, hoje biólogo e consultor em restauração, projetos de carbono e instrumentos econômicos para a conservação. Carolina nasceu em Santo Antônio do Leverger (MT), cidade ligada ao pantanal. Cursou ciências naturais, fez mestrado no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e doutorado em São Carlos (SP). "Toda a trajetória de vida dela está ligada a essa raiz que ela tem no pantanal", afirma a professora Solange Ikeda Castrillon, 59, amiga e ex-orientanda. No início da carreira, Carolina pesquisou limnologia (ciência que estuda rios, lagos e outras águas continentais). Orientou trabalhos sobre comunidades tradicionais e a relação com o ciclo de cheias e vazantes do bioma. Para ela, o pantanal era um território de pessoas, histórias e conhecimentos transmitidos entre gerações. Orientava estudantes de comunidades tradicionais e ajudava a formar pesquisadores que chegaram ao doutorado. Carolina presidiu o conselho da Reserva da Biosfera do Pantanal (vinculada à Unesco), foi pró-reitora de pesquisa e pós-graduação da Universidade do Estado de Mato Grosso e publicou, como coautora, o livro "No Ritmo das Águas do Pantanal" (1995). Também atuou no debate sobre políticas públicas, defendendo que leis voltadas ao bioma considerassem suas características ambientais e sociais. Mesmo após a aposentadoria compulsória, neste ano, continuava ativa. Já internada e debilitada, segundo Solange, Carolina participou de banca online ligada a projeto ecológico de longa duração e pagou do bolso a passagem de estudante mexicana para garantir sua participação. Fã da novela "Pantanal", reconhecia a importância de a produção colocar o bioma no centro das conversas. Carolina morreu em 16 de agosto, aos 75, em decorrência de câncer no fígado, com metástase no intestino. Deixa o marido, Pedro Paulo, os filhos, Yara e Pedro, e quatro netos. Após sua morte, colegas plantaram uma piúva, conhecida como ipê-roxo, no pantanal, e outra na Chapada dos Guimarães, em frente à cachoeira Véu de Noiva, para preservar sua memória. coluna.obituario@grupofolha.com.br Veja os anúncios de mortes Veja os anúncios de missas
Mortes: Defensora do pantanal, levou a ci�ncia para dentro de casa
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