No início dos anos 1970, o advogado Valdecírio Teles Veras, formado na Universidade de São Bernardo do Campo, fez uma opção que marcaria sua carreira nos tribunais e na política: defender os trabalhadores das fábricas das cidades do ABC paulista em um momento de efervescência sindical. Mais especificamente, Veras representava na Justiça Trabalhista metalúrgicos que sofriam acidentes de trabalho nas empresas da região e ficavam com sequelas permanentes. Seu escritório chegou a ter 3.000 clientes, segundo a escritora Dalila Teles Veras, 80, mulher do advogado por 54 anos. "Gente que perdia a mão, braço, dedos... Eu costumava dizer que o escritório dele era uma espécie de clínica psicológica para operários acidentados. Eles falavam sobre tudo: problemas no casamento, para conseguir emprego, para seguir a vida", conta a escritora, que tem mais de 30 livros publicados. Nascido em Luzilândia, no Piauí, em 1942, Valdecírio chegou a São Paulo aos 16 anos. Sob a ditadura militar, fez parte do corpo jurídico do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, na época presidido por Luiz Inácio Lula da Silva, um operário que, como vários dos clientes do advogado, sofreu um acidente de trabalho que lhe custou um dedo. Lula virou presidente do sindicato em 1975 e, nos anos seguintes, comandou uma massa de trabalhadores em grandes greves que marcaram época no ABC e alçariam o então líder sindical à carreira política. Naquele tempo, Valdecírio e seu sócio, o advogado e escritor Antônio Possidonio Sampaio, eram bastante próximos de Lula e atuavam diariamente na rotina do sindicato, lembra Dalila. "Eles participavam de longas conversas nas casas dos companheiros e prestavam assessoria jurídica nas negociações com as empresas e com o Ministério do Trabalho, que enviava emissários ao ABC", conta. Valdecírio trabalhou por 30 anos no setor jurídico do sindicato. A ligação histórica com o petista permaneceu até o fim da vida do advogado, que morreu aos 84 anos em 2 de novembro, uma semana depois da virada do presidente Lula nas eleições presidenciais. Pouco antes de morrer, lembra Dalila, já bastante debilitado e com a televisão ligada, o advogado acompanhou o anúncio da vitória do companheiro de sindicato. "Levantei os braços e falei que tínhamos vencido. Ele falou: 'Que bom, que bom'", conta. Em nota, o sindicato afirmou que a história de Valdecírio permanece viva nas conquistas e nas pessoas que ajudou. No início dos anos 1990, Dalila convenceu o marido, um leitor compulsivo e também escritor, a abrir uma livraria em Santo André, município onde o casal criou três filhas e cinco netos. A livraria Alpharrabio, no Jardim Bela Vista, existe até hoje e se tornou uma referência na cena cultural da cidade. Depois, se transformou também em uma editora. "Publicamos mais de 200 livros de autores da região do ABC", conta Dalila. Para a escritora, a vida com Valdecírio, em meio a mobilizações e dramas de metalúrgicos, foi uma "alfabetização política". "Eram verdadeiras aulas de cidadania e consciência de classe. Meu marido sempre advogou para o trabalhador, jamais para o patrão", diz. coluna.obituario@grupofolha.com.br Veja os anúncios de mortes Veja os anúncios de missas
Mortes: Defendeu centenas de metal�rgicos mutilados em f�bricas do ABC
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