Muitos porto-alegrenses talvez não percebam pelo nome, mas conheceram Peter Dullius. Conheceram-no ao folhear algumas das milhares de obras à venda nos sebos da Beco dos Livros, no centro histórico, ou ao se misturar à multidão que cerca a banca do espaço na tradicional Feira do Livro de Porto Alegre. Economista de formação, ele largou carreira no setor público para se dedicar a livros usados em 1992, junto da então mulher, Neiva, ajudando a popularizar sebos na capital gaúcha. Assim permaneceu até seus últimos momentos, quando teve um mal súbito enquanto atravessava a rua Riachuelo, carregado de exemplares, a caminho de uma de suas lojas. O centro era um habitat do qual Peter raramente se afastava. Tinha apreço especialmente pelos dias entre outubro e novembro, em que quase uma centena de livreiros atraem milhares de pessoas para debaixo dos jacarandás da praça da Alfândega e seu entorno. Registrava cada um dos dias da Feira do Livro em tabelas, não só com os dados básicos das vendas, mas com as condições climáticas —a fim de avaliar se a chuva ou o calor impactavam o resultado. Ao longo de todo o ano, separava obras específicas para os tradicionais "balaios" do evento, com as melhores promoções. "Era o seu momento preferido do ano, a apoteose", descrevem seus filhos, Melissa, Gustavo e Guilherme. "Trabalhava o ano todinho pensando na feira", contam. Eles manterão a tradição na edição deste ano, mas acreditam que será melancólica, diante da partida súbita: "O balcão da loja sem ele parece um palco vazio". Peter defendia que um livro precisa circular, sem apegos. Entre seus autores de coração, estavam o alemão Karl May —cujos romances de aventura conheceu ainda menino, no internato—, o britânico Somerset Maugham e os brasileiros Machado de Assis e João do Rio. Além disso, voltava-se a reunir obras de autores gaúchos. Em 2025, reportagem da Folha o descreveu como uma pessoa que sempre estava se despedindo de seus livros e que dizia enxergar a alma de alguém ao ver a biblioteca particular. Hoje, a Beco dos Livros se divide em três lojas, todas no centro de Porto Alegre. O acervo total é estimado em cerca de 300 mil itens. A loja da rua dos Andradas era o "projeto do coração" do livreiro. Era a única que abria todos os dias. Ali encontrava desde clientes que viraram velhos amigos até turistas advindos da vizinha Casa de Cultura Mario Quintana. Para além dos livros, da família e do centro, Peter amava o Grêmio, o cinema e a música, principalmente, a country, a caipira e a gauchesca. Não abria mão de um bom churrasco, assim como de Coca-Cola, Yakult e suco de laranja. Oficialmente chamado João Pedro Dullius, Peter morreu de tromboembolismo em 22 de setembro, aos 76 anos. Deixou os três filhos, os netos Lucas e Leonardo e os netinhos de coração, Beatriz e Bernardo, filhos da ex-companheira e sócia, Leo. Suas cinzas irão para Cruzeiro do Sul (RS), onde nasceu. coluna.obituario@grupofolha.com.br Veja os anúncios de mortes Veja os anúncios de missas
Mortes: Dedicou-se a popularizar sebos de livros at� seu �ltimo dia
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