"Olha aqui como esses olhinhos são lindos. E essas asas, essas manchinhas? Não é a coisa mais linda do mundo?" Era assim que Orminda se referia aos bichinhos de que cuidava. Não eram de estimação. Eram moscas, Drosophilas melanogaster, aqueles insetos minúsculos que aparecem nas bananas maduras. Orminda nasceu no interior do Ceará, filha de uma costureira que, aos 35 anos, ficou viúva com cinco filhos. Foi seu irmão, seminarista e depois jornalista, Irineu Guimarães, que abriu o caminho para a família se mudar para São Paulo. Com a ajuda dos frades dominicanos, mudou-se com as irmãs para a cidade. Conheceu Luiz, oficial do Exército. Teve dois filhos, dois netos e três netas. No período pré-ditadura militar, a relação com os dominicanos aproximava a casa de um ambiente católico progressista. Enquanto o porão guardava o estoque do jornal Brasil Urgente, os armários mantinham as fardas do milico. E o casal convivia com esse contraste em concordância. E as drosófilas? Orminda trabalhou por mais de 30 anos no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. Passou boa parte da vida diante de um microscópio, separando e classificando centenas de mosquinhas. Por se reproduzirem rapidamente, elas são preciosas para as pesquisas de genética. Era preciso distinguir machos de fêmeas, observar asas, olhos, manchas, tamanhos e alterações quase imperceptíveis. Orminda tinha um olho extraordinário para isso. Por sua dedicação, seu nome foi publicado num trabalho do cientista Crodowaldo Pavan e recebeu apoio da Fundação Rockefeller. Os estudos brasileiros sobre genética se destacaram internacionalmente nas décadas de 1970 e 1980. Orminda percebia sutilezas que passariam despercebidas pela maioria das pessoas e fazia aquele trabalho minucioso com uma característica que a acompanharia por toda a vida: o capricho de fazer tudo bem-feito. Aquelas mesmas mãos capazes de manipular criaturas de poucos milímetros eram também as famosas "mãos de ouro" que produziam chocolates artesanais. A alegria da família se tornou fonte de renda na aposentadoria. Com o passar dos anos, uma demência progressiva começou lentamente a lhe retirar aquilo que durante toda a vida foi um talento. Pouco a pouco, foi perdendo mobilidade e se desligando do mundo à sua volta. Mas nunca esteve sozinha. Cercada pelo amor dos filhos, dos netos e da família, foi fazendo sua despedida lentamente, até descansar desta vida no último dia 25 de setembro. Partiu deixando lições de perseverança, coragem, fé e, sobretudo, daquele capricho que colocou em tudo o que fez. Na casa dos filhos e dos netos, as bananas ficam maduras de propósito. As mosquinhas voltam. Onde a vida termina ela também se renova. coluna.obituario@grupofolha.com.br Veja os anúncios de mortes Veja os anúncios de missas
Mortes: Dedicou mais de 30 anos �s pesquisas de gen�tica na USP
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