Mortes: A int�rprete que cantava com o cora��o

Mortes: A int�rprete que cantava com o cora��o

O teatro estava praticamente vazio naquela noite fria em Curitiba (PR). Havia apenas um casal na plateia e os dois ainda ensaiaram ir embora. Claudia Savaget poderia ter cancelado o show. Em vez disso, disse que cantaria para eles. Subiu ao palco e fez a apresentação inteira. Ao longo de uma carreira de três décadas, entre 1974 e 2004, construiu uma discografia pequena, de cinco álbuns, marcada por escolhas rigorosas e por um repertório que passava por compositores como Chico Buarque, Edu Lobo, Torquato Neto, Dorival Caymmi, Paulinho da Viola e Cartola. Dona de uma voz grave, de timbre raro e afinação precisa, foi uma intérprete admirada por músicos e compositores. Nascida em Petrópolis, na região serrana fluminense, em 1º de julho de 1948, Claudia começou a cantar na boate Clube 85. Foi no Rio, porém, cidade que escolheu para viver, que construiu sua carreira e sua família. A discografia enxuta era resultado de escolhas cuidadosas. "Tudo era escolhido conforme a vontade dela, conforme a índole artística e a inteligência musical que ela tinha", afirma o marido, o violonista, arranjador e professor Luiz Otávio Braga, com quem se casou em 1977. A amizade com Cartola (1908-1980) foi uma das relações mais importantes de sua trajetória. O compositor frequentava a casa do casal e, segundo Braga, dizia que Claudia era a melhor intérprete de suas músicas. O filho Danilo Fiani, também músico, lembra que a mãe falava da relação com orgulho. Danilo começou a cantar e tocar profissionalmente em 2012, após aprender violão com o pai. Levou consigo uma das principais lições da mãe: "a gente tem que sentir aquilo que a gente canta". A história do show no Teatro Paiol, em Curitiba, ficou como uma espécie de síntese dessa relação com o público. Segundo o marido, acabou sendo "talvez um dos shows mais bonitos" que os dois fizeram. A carreira foi perdendo espaço na vida de Claudia a partir do nascimento dos filhos. Iracema nasceu em 1979; Danilo, em 1982. A cantora continuou fazendo apresentações esporádicas. Em 2023, voltou a se apresentar ao lado da família. Cantou sentada, porque já enfrentava o Parkinson e tinha dificuldade para segurar o microfone. A voz, porém, permanecia afinada. Nos últimos anos, a perda gradual da autonomia foi difícil. Claudia havia fumado durante décadas. Parou no início dos anos 1990, mas ficou com enfisema e problemas pulmonares que se agravaram ao longo do tempo. Nos últimos meses, enfrentou dificuldades respiratórias, derrames pleurais e internações. Na última, a família descobriu que ela tinha câncer. Claudia Savaget morreu às 17h do último dia 13, aos 78 anos. O velório foi realizado no Cemitério de São João Batista, em Botafogo, na zona sul do Rio, e a cantora foi cremada. A discografia de Claudia Savaget foi recentemente disponibilizada nas plataformas digitais. Para Danilo, o legado da mãe está na forma como ela transformava uma canção. "Se algum dia quem não conheceu tiver a felicidade de conhecer, é uma experiência de quem cantava com o coração." coluna.obituario@grupofolha.com.br Veja os anúncios de mortes Veja os anúncios de missas

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