"Pusilânime", disse o médico Marcelo Messender, 48, sobre Flávio Bolsonaro (PL-RJ) após a notícia de que o ex-candidato à Presidência havia deixado o Brasil rumo aos Estados Unidos, na noite desta terça-feira (27) — o que só se confirmaria, de fato, horas depois. Messender, morador de uma cobertura na Barra da Tijuca, zona sudoeste do Rio de Janeiro, usou um microfone e uma caixa de som para se comunicar com a vizinhança. Em discurso ouvido pelos outros blocos do condomínio Americas Park, ele chamou Flávio de covarde pela fuga aos Estados Unidos e atribuiu ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), as mais de 700 mil mortes durante a pandemia de Covid-19. Foi aplaudido por alguns vizinhos e hostilizados por outros. Um grupo tentou entrar no condomínio, outro morador o ameaçou por mensagem no celular, e a administração desligou a energia do andar para tentar impedir a continuidade do discurso. Mas, munido com uma bateria de lítio, Messender continuou até 21h59, quando deu boa noite, dizendo que respeitaria a lei do silêncio. A Polícia Militar chegou a ser acionada por vizinhos, mas os agentes não entraram no prédio. "Sou discreto. Posso ter incomodado, passado um pouco. Mas todo mundo estava muito mais incomodado com a ideia de vivenciar uma ditadura. Flávio nunca foi uma pessoa democrática", disse Messender à Folha. O senador pousou em Miami, nos Estados Unidos, nesta quarta-feira (28), às 10h23 no horário de Brasília. A aeronave utilizada por ele saiu da Argentina e fez escala no Equador. O senador, a mulher, Fernanda, e as duas filhas entraram na Argentina às 22h50 de terça pela Ponte Internacional Tancredo Neves, na província de Misiones. Ele usou um passaporte italiano, e as três, documentos brasileiros. Os quatro não passaram por posto de controle da Polícia Federal ao deixar o Brasil, já que não há essa exigência para a saída de brasileiros por fronteira seca. "Eu precisava passar uma mensagem, mostrar que Flávio, por ter fugido, não tinha compromisso com o que ele próprio falou. Ele disse que não sairia do país e foi embora. É atitude de uma pessoa que não poderia concorrer ao cargo de presidente", diz o médico. A cena foi registrada em vídeos pela nutricionista e jornalista Karine Barbosa, 45, que mora num edifício em frente, do mesmo condomínio. As imagens viralizaram nas redes sociais. Os dois vídeos gravados somam mais de cinco milhões de visualizações no Instagram e milhares de comentários, a maioria em tom de elogio pela coragem. O bairro, onde a família do ex-presidente já morou, é um reduto bolsonarista e foi o principal local de concentração de apoiadores durante a apuração no domingo (25). Parte dos eleitores se reuniu em frente ao condomínio Vivendas da Barra e outra, na avenida Olegário Maciel, região com bares e restaurantes. Flávio chegou a ter 60,24% dos votos contra 39,76% de Lula em uma das zonas eleitorais da Barra, no segundo turno. Em outra, o candidato do PL venceu por 55,17% a 44,83%. Lula venceu em uma, 56,21% ante 43,79% de Flávio. "O que ele falava fazia todo sentido: não é porque eu tenho dinheiro que não devo me importar com o próximo. A Barra é um bairro de emergentes, como pode dar maioria ao Flávio?", questionou Karine, repetindo os argumentos ditos por Messender no discurso à vizinhança. "Me senti representada. Em 2022 tive medo, fui xingada e fui votar com um adesivo pequenininho. Havia uma atmosfera de repressão. Desta vez, nos debates e nos dias da eleição houve panelaço na Barra." O condomínio foi procurado pela reportagem pelo telefone da administração, mas ninguém atendeu. A Folha não conseguiu encontrar vizinhos que se opuseram às falas do médico. Messender é oftalmologista e afirma ter aprofundado a oposição à família Bolsonaro durante a Covid-19, quando esteve na linha de frente em hospitais no Rio e em São Paulo. Eleições Hoje Receba no seu email destaques das campanhas, pesquisas e disputas nos estados O médico se manifestou pela primeira vez à vizinhança no sábado (24), véspera da eleição. Ele usou caixa de som para tocar jingles de Lula (PT), de quem é eleitor, músicas de provocação a Flávio Bolsonaro e canções de Caetano Veloso e Baiana System. Pelas duas manifestações, antes e depois da eleição, recebeu duas multas de R$ 400 cada. "Vou pagar sem problemas, estou tratando como uma taxa pelo direito de exercer a individualidade", diz o médico. "Não sou uma exceção. Tem outras pessoas que moram aqui e que talvez não tenham a coragem de falar porque se sentem oprimidas pela agressividade dos bolsonaristas. E a gente tem que perder essa vergonha, porque se ficássemos calados, perderíamos a eleição."
Morador do Rio faz sucesso nas redes com discurso para vizinhos ap�s fuga de Fl�vio Bolsonaro
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.