Morador de periferia se une a executivo e cria CEP digital em �rea de risco

Morador de periferia se une a executivo e cria CEP digital em �rea de risco

Sanderson Pajeú, 33, é de origem indígena e periférica. Fez faculdade de tecnologia (Universidade São Judas) e nutrição (Cruzeiro do Sul). Conseguiu estágio na Microsoft e trabalhou em empresas de logística. Já Leonardo Medeiros, 37, é bacharel em relações internacionais (ESPM) e pós-graduado em comércio internacional (Centennial College) no Canadá. Passou por gigantes como Ambev, Mercado Livre e Amazon. Em 2021, os dois se uniram na criação de uma solução tecnológica que muda a vida de moradores de regiões periféricas, favelas e comunidades de difícil acesso. Viraram sócios da naPorta, que usa CEP Digital (baseado em coordenadas de latitude e longitude) em áreas fora do mapa oficial. E assim se tornou possível fazer entrega na casa amarela, na viela 7, de um beco de uma das inúmeras favelas de São Paulo ou do Rio. Além de poder assegurar aos moradores um endereço válido para fazer o cadastro no SUS (Sistema Único de Saúde) e a inscrição de filho na creche. Impacto que move Sanderson, Leonardo e os outros sócios Katrine Scomparin, 32, e Rodrigo Yanez, 41. Sanderson conhece desde criança os desafios inerentes a lugares de difícil acesso. Separava os sábados para ir aos Correios buscar os seus pacotes. Quando colegas de trabalho perguntavam onde morava, ele respondia apenas ‘Itaim’, referência a um dos bairros mais caros de São Paulo. Na verdade, é o Itaim Paulista, extremo leste, a 30 km do centro. "Você mora na divisa com o fim do mundo", ouvia ele, um tipo de chacota que o negócio, anos depois, também veio confrontar. Já Leonardo cresceu em Jacarepaguá, subúrbio carioca. Criança, até frequentava a Cidade de Deus, comunidade mais próxima, para jogar futebol. O carioca estudou relações internacionais, mas é bom negociador bem antes da graduação. Após a faculdade, assumiu a função de gerente de vendas na Ambev, crucial tanto para aprofundar seus dotes conciliatórios quanto para o modelo de operação da naPorta. À época, conta, caminhões eram barrados em algumas áreas. A empresa, então, montou depósitos de bebidas na entrada das comunidades e distribuidores de dentro das favelas concluíam o serviço. Cabia a Leonardo organizar todas as pontas da operação. De modo similar, as oito bases de entregadores da naPorta distribuem produtos de varejistas, guiadas pelo CEP digital. Elas ficam em lugares como a Pavuna, no Rio, ou Osasco, em SP. A startup conecta com o asfalto o consumidor de "áreas complexas", qualificação de favelas no jargão dos negócios. Com suas minibases gera renda localmente. O endereço digital criado pela logtech já ganhou prêmios da Universidade Harvard. A Favela dos Sonhos, em Ferraz de Vasconcelos (SP), foi a primeira comunidade mapeada. Santo André, por sua vez, foi a cidade a pensar no CEP digital como um motor de políticas públicas. Diego Cabral, hoje secretário de Saúde, teve a ideia de fazer das comunidades um laboratório. A primeira fase do projeto implantou cerca de 15 mil endereços, ou 50% das moradias de comunidades da cidade do ABC paulista. Morador de uma delas, o Morro da Kibon, Leandro dos Reis, 34, diz que, a princípio, muita gente achou que fosse um rastreamento para remoção. Aos poucos, o esforço do líder comunitário contornou a situação e, hoje, é possível ver as plaquinhas de identificação em frente às casas. O entendimento aprofundado do território é fundamental para a criação de soluções transformadoras como a naPorta, que prioriza o impacto social "Não ter o CEP é não ter dignidade, né? Você não existe porque não é encontrado. Às vezes, pegava fogo numa casa, a gente ligava pro Corpo de Bombeiros e, quando chegavam, já não tinha mais como atender." Também de origem periférica, Sanderson decidiu que queria empreender aos 21 anos, mas, aos dez, já vendia bolo com a mãe na vizinhança. Depois, passou a vender doces diet e acabou recebendo proposta de sociedade. Recusou. "Pô, eu faço faculdade, trabalho de dia, monto as coisas à noite e fico com 49% do negócio?". Entre outros corres, vendeu cabo e capinha para celular, em plataformas digitais. Com clientes das classes C, D e E, Sanderson iniciou uma busca frenética por transportadoras que atendessem aos pedidos em comunidades. Sem encontrar saída, chegou à conclusão de que poderia estar diante de um novo negócio. Foi aí que deixou o varejo e convidou o então gerente da sua conta na Amazon para montar uma startup na área de logística. "Aprendi lá com os doces que não faz sentido ter uma torta inteira que não vale nada", diz Sanderson. Com o projeto estruturado, conseguiu o primeiro investimento (R$ 250 mil de uma aceleradora de Porto Alegre) e convenceu Leonardo a deixar o conforto da gigante digital. Nasci e cresci em comunidade, então a falta de endereço foi uma dor com a qual convivi. A primeira casa da entrada era onde todas as cartas e as encomendas eram deixadas. Sem saber que era quase uma operação de hub logístico, a comunidade, de forma empreendedora, já fazia isso desde sempre Em uma segunda rodada, o negócio captou recursos do ‘Black Founders Fund’, fundo do Google para pessoas pretas, pardas e indígenas —o pai de Sanderson nasceu em uma reserva indígena em Pernambuco. Leonardo lembra de uma das primeiras conversas com o futuro sócio, quando ele lhe perguntou se achava tranquilo entregar mercadoria em comunidade. "Eu falei: ‘cara, tranquilo não é, mas vambora que a gente é doido e vai pra cima’". E foram. Hoje, 80% do negócio é a logística, 20% CEP Digital. Já mapearam quase cem favelas em seis estados e a operação logística atualmente expande-se para o Espírito Santo e Minas Gerais. Entre os clientes, Amazon, Shopee e redes de farmácia, entre outros. "No final, a gente descobriu que a periferia também cria inovação, né? Nunca imaginei que um moleque de favela, que não fez uma faculdade ‘triple A’ poderia ser referência em casos internacionais", diz Sanderson. Números da naPorta 10 milhões de entregas em favelas e regiões periféricas de difícil acesso 50 mil endereços digitais criados a partir de coordenadas de latitude e longitude (o CEP Digital) para mapear moradias 9 milhões de moradores alcançados por serviços logísticos em territórios antes invisíveis às entregas R$ 10 mil é a renda média dos 700 entregadores, trabalhadores locais ativos mensalmente, que trabalham com a naPorta 90% das entregas são feitas no mesmo dia da chegada aos mini-hubs comunitários, sendo 40% do volume entregue dentro de favelas

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