A paixão é a matéria-prima de todas as óperas, mas em nenhuma outra ela molda a linguagem musical tão cabalmente quanto em "Tristão e Isolda", de Richard Wagner. Antes mesmo da entrada em cena dos cantores, o famoso "Prelúdio" orquestral traduz o movimento incessante do desejo em melodias sinuosas e harmonias que deslizam de dissonância em dissonância sem encontrar repouso. Quase cinco décadas se passaram desde a última apresentação da obra no Theatro Municipal de São Paulo. Embora sua montagem tenha sido programada ainda na gestão anterior, a estreia marca a chegada do Instituto Baccarelli à direção dos corpos artísticos da casa. Tudo indica que a nova fase do Municipal trará leituras mais tradicionais das óperas, rompendo com a tendência —forte sobretudo em teatros europeus— a alterar substancialmente a concepção original em nome de um diálogo mais direto com temas contemporâneos. Um dos primeiros sinais da virada foi a troca da produção de "Tristão e Isolda" assinada por Daniela Thomas pela de Allex Aguilera, apresentada originalmente pelo Teatro de la Maestranza, em Sevilha. Aguilera foi econômico na direção cênica e na cenografia, deixando os cantores imóveis num palco praticamente vazio durante longos trechos. A escolha pode parecer infeliz para uma ópera de quatro horas de duração —quase cinco, contando os intervalos. O resultado, porém, é o contrário do tédio. A sobriedade visual permite que o texto e a música de Wagner fluam com total liberdade. Isso é crucial numa obra como essa, em que o mais importante é a interioridade das personagens e seus ecos numa textura orquestral complexa e rica em alusões. O primeiro ato se passa a bordo do navio que leva Isolda à Cornualha para se casar com o rei Marke, tio de Tristão. No segundo, Tristão e Isolda vivem uma noite de amor clandestino num jardim, apenas para serem descobertos ao nascer do dia. O terceiro transcorre no castelo de Kareol, na Bretanha, onde Tristão aguarda a chegada de Isolda para que ambos possam finalmente se unir no êxtase da morte. Esses ambientes são postos em cena por meio de vídeos projetados no fundo do palco e nas paredes laterais. O recurso é simples e, de modo geral, funciona bem —muito bem nos momentos em que as imagens mudam discretamente conforme o estado psicológico das personagens. Nas seções instrumentais no início de cada ato, porém, o recurso não funciona, e elas acabam se transformando em videoclipes. Na récita desta quarta-feira (2), Tristão foi interpretado por Simon O’Neill, um dos grandes tenores wagnerianos da atualidade, e Isolda, pela soprano Annemarie Kremer, conhecida do público do Municipal por sua atuação nos papéis-título de "Salomé", de 2014, e "Turandot", de 2018. O sólido elenco principal contou ainda com os brasileiros Leonardo Neiva e Luisa Francesconi e com o argentino Hernán Iturralde. O’Neill fez um ótimo trabalho de construção de personagem, acompanhando com o colorido vocal os delírios de Tristão. Já Kremer chegou sem sinais de cansaço à ária final, conhecida como "Liebestod" ou "Morte por Amor". Sua interpretação delicada, no entanto, foi comprometida pela aparição repentina de um letreiro luminoso. Justamente no ponto em que todas as tensões acumuladas ao longo da peça se resolvem em um clímax místico —e extremamente ambíguo, por ser a um só tempo erótico e ascético—, a encenação se entrega de vez ao kitsch. Os músicos da Sinfônica Municipal estavam tão afiados quanto os solistas. Conduzida por Roberto Minczuk, a orquestra controlou as dinâmicas com precisão e conseguiu atuar em pé de igualdade com as vozes durante a maior parte do tempo. Essa fusão entre as vozes e os instrumentos é um dos aspectos mais desafiadores da música de Wagner, que deixa de tratar a orquestra como um mero acompanhamento das melodias vocais. Como bem demonstrou Minczuk, a imensidão sonora de "Tristão e Isolda" depende mais da variedade de cores do que do volume em si —ainda que a partitura preveja um número de instrumentistas significativamente maior do que o padrão da ópera de seu tempo. A depender de como caminharem as coisas, parte dos frequentadores do Municipal talvez sinta falta de abordagens conceitualmente ambiciosas, que atualizam as obras da tradição à luz de demandas sociais candentes. Mas a montagem em cartaz até o fim do mês mostra que uma linha menos intervencionista também pode chegar a bons resultados, mesmo com algumas escolhas estéticas discutíveis. Basta confiar na música.
Montagem de 'Trist�o e Isolda' se destaca pelo alto n�vel musical
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.