Sabe quando você acorda, olha no espelho e ele parece te julgar? Pois é. "Na Sala dos Espelhos" pega essa sensação e joga no palco sem piedade. Carolina Manica está lá, sozinha, com um texto que nasce dos quadrinhos de Liv Strömquist, e a gente entende rapidinho que a coisa não é sobre vaidade fútil. É sobre sobrevivência. A peça não quer dar sermão. Ela quer brincar de pensar. E a brincadeira é séria. Michelle Ferreira e Maíra De Grandi pegaram o ensaio visual da sueca e transformaram numa história de mãe e filha. A mãe está na menopausa, sentindo o corpo mudar de marcha. Nina, a filha, tem 11 anos e já aprendeu a se olhar como se fosse um produto com validade curta. Uma no declínio do valor de mercado, a outra entrando na vitrine. As duas presas na mesma armadilha. O cenário é uma moldura estreita, tipo quadrinho vivo. Fábio Namatame fez figurinos que não competem com o corpo, e Caetano Vilela desenha luzes que ora parecem a tela fria do celular, ora um abraço no escuro. Ava Rocha e Grisa criam um som que pulsa como notificação. Você sente o celular vibrando no bolso mesmo com ele desligado. Carolina Manica grita, ri e se desmonta. No auge, vira a madrasta da Branca de Neve. Aquela mesma, do espelho mágico. Só que agora a gente entende que ela não é vilã. É uma mulher que descobriu que só valia enquanto fosse jovem e bonita. Uma precursora das influenciadoras. A peça não pede desculpas por ela. Só mostra o quanto é cruel depender de aprovação alheia para existir. A diferença entre a imagem que você posta e a presença que você é. Esse é o nó. A sociedade dos algoritmos quer que a gente performe o tempo todo. A peça propõe desligar os refletores. Aceitar a finitude. Trocar a perfeição virtual pela imperfeição real. E faz isso sem discurso de autoajuda. Com humor corrosivo, corpo suado e uma atriz que não tem medo de parecer ridícula. No fim, "Na Sala dos Espelhos" não te dá um espelho novo. Te dá um martelo. Para quebrar o reflexo e ver o que sobra quando a imagem se desfaz. Três perguntas para… … Carolina Manica Como nasceu o desejo de levar o pensamento de Liv Strömquist para o palco? O que na obra dela te fisgou primeiro? O que me fisgou primeiro na Liv foi sua capacidade de falar de coisas complexas de um jeito pop, engraçado e acessível, sem diminuir a complexidade do assunto. Ela faz você rir e, ao mesmo tempo, perceber que está rindo de algo que talvez nunca tivesse questionado sob aquela ótica. Ao ler o livro, tive um desejo instantâneo de levar aquele pensamento ao palco. Tinha uma certeza: queria fazer um monólogo — decisão muito questionada, já que a HQ tem milhares de personagens. Mas como? Na adaptação de Michelle e Maira, havia a preocupação de que o texto não virasse uma aula ou uma palestra. Então criaram a personagem da mãe, que costura a história — e aí temos drama, como diria Caetano Vilela, e teatro. A ideia era que essas questões aparecessem no corpo, no humor e na relação com o público, e não em projeções de imagens. A sincronicidade da vida na arte é surpreendente. Tenho uma filha adolescente e, aos 45 anos, entro na menopausa. Somos obra e vida em reflexo — o que atribuo também a uma grande sacada das dramaturgas e diretoras. "Na Sala dos Espelhos" nasceu desse desejo: transformar uma reflexão sobre corpo, beleza, envelhecimento e nossa relação com a própria imagem em experiência teatral. O espetáculo trata de espelhos, celulares e algoritmos. Você já se pegou refém desse ciclo de validação digital? Como foi encarar esse reflexo nos ensaios? Com certeza. Seria hipocrisia fazer a peça como se eu estivesse imune ao problema. Também olho uma foto e me pergunto se estou bonita, se estou envelhecendo, ou se deveria ter escolhido outro ângulo. Conheço bem a ansiedade de esperar por uma curtida. Como artista, a vontade de agradar é ainda mais latente. O processo ficou rico justamente porque não existe um "nós contra eles". Não são apenas os algoritmos ou a indústria da beleza agindo sobre nós; nós também alimentamos essa engrenagem e cobramos de nós mesmas aquilo que aprendemos a desejar. O palco é um espelho desconfortável porque expõe essa contradição humana: você pode entender racionalmente que um padrão é absurdo e, mesmo assim, continuar querendo se encaixar nele. Tem algum espelho que você ainda não conseguiu quebrar? Vários. Eu não saio de cena imune a tudo isso. A cobrança para parecer jovem, disposta e bonita continua aqui dentro, e seria ingênuo dizer que o espetáculo me curou. O que mudou foi a rapidez com que percebo a armadilha. Eu ainda caio nela, mas agora reconheço o mecanismo na hora. No fim, talvez o objetivo nem seja quebrar todos os espelhos, mas aprender a olhar para eles de outro jeito. O perigo nunca foi a existência do reflexo, e sim a ilusão de que ele define quem nós somos. Biblioteca Mário de Andrade – Rua da Consolação, 94, República, região central. Segunda, 19h. Até 5/10. Duração: 60 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Grátis, com retirada de ingresso 1 hora antes do início do espetáculo. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Mon�logo de Carolina Manica usa humor �cido para discutir press�o est�tica
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