Mobile, nos EUA, combina passado, gastronomia local e praias no Golfo

Mobile, nos EUA, combina passado, gastronomia local e praias no Golfo

Quando o trem deixa a Louisiana e entra no Mississippi, os pântanos conhecidos como Bayou ficam para trás e dão lugar a bosques de coníferas de um verde que, no fim do verão, já está meio desbotado. Surgem quintais com as indefectíveis bandeiras americanas fincadas, antigas pontes de ferro e altíssimas caixas-d'água no meio de pastos. É a confirmação daquela imagem cristalizada do sul profundo dos Estados Unidos que passa pela janela do Mardi Gras Service, linha de trem que sai de Nova Orleans. A Amtrak, ferroviária estatal americana, opera a viagem, com passagens a partir de US$ 19 (R$ 104), que dura cerca de quatro horas. Ao fim dela, chegamos a Mobile, já no estado do Alabama. Esse simpático porto na costa do Golfo nasceu no século 18 como um entreposto onde os colonos franceses compravam peles dos nativos. Um dos principais legados deixados por aqueles europeus na região foi o Mardi Gras, o Carnaval local que ganharia proporções muito maiores em Nova Orleans, daí o nome da linha férrea que liga ambas as cidades. Nas praças e ruas de Mobile, as copas das árvores fazem verdadeiros arcos de folhas que são um refúgio do calor. Ali ficam centenárias mansões retangulares com suas colunas, varandas e pórticos típicos do estilo "antebellum" (do latim, "antes do conflito"), período escravocrata que antecedeu a Guerra Civil. Pense nos cenários de "...E o Vento Levou", "Django Livre" e "12 Anos de Escravidão". Antes da secessão, a cidade era um dos mais importantes locais de escoamento da produção de algodão, colhido por africanos nas lavouras. Hoje, há iniciativas que buscam jogar outras luzes sobre esse passado. Um dos marcos dessa transformação ocorreu em 2019, quando foram encontrados destroços do Clotilda, tido como o último navio negreiro a aportar nos Estados Unidos. À época, em 1859, o comércio atlântico de escravos já havia sido proibido no país, mas fazendeiros do sul haviam se juntado para trazer ilegalmente um punhado de pessoas do Reino de Daomé. Para esconder as provas, botaram fogo na escuna assim que ela chegou à baía de Mobile. Alguns de seus transportados se reuniram e fundaram Africatown, comunidade de homens livres que preservaram seus costumes no norte da cidade. A Africatown Heritage House, aberta há três anos, é um museu que rememora a trajetória dessas pessoas e traz artefatos que foram resgatados do naufrágio do Clotilda. Entradas custam US$ 15 (R$ 82). Outra boa forma de conhecer a história de Mobile é por meio de tours gastronômicos. O Bienville Bites é um deles. A partir de US$ 75 (R$ 412) dá para passar uma tarde zanzando pelo centrinho e parando em bares, restaurantes e lanchonetes no caminho para provar iguarias locais, como o famoso tomate verde frito e os biscoitos de leite. Uma dessas paradas é o Wintzell's Oyster, que serve ostras fritas, ensopadas ou cruas. É daqueles lugares em que os locais se sentam sozinhos no balcão com a companhia de grandes copos de cerveja gelada. A cerca de cem quilômetros de Mobile fica Gulf Shores, balneário sossegado às margens do golfo do México. As praias têm areia branquinha e mar cor de esmeralda. Quem se hospeda no The Lodge, operado pela rede hoteleira Hilton, fica bem no meio do Gulf State Park, área de preservação que tem se recuperado do derramamento de óleo de uma plataforma da BP de 2010, o maior desastre ambiental marinho dos EUA. Hóspedes ficam bebericando drinques à beira das duas grandes piscinas e podem caminhar pelos fotogênicos deques de madeira que avançam sobre a praia. O menu local é farto em frutos do mar: vieiras gordinhas, camarões turbinados e lagostas. Diárias podem custar a partir de US$ 112 (R$ 615). A reserva ao redor do hotel abriga trilhas que podem ser percorridas de bicicleta por entre arbustos de junco. Os sortudos podem ver algum jacaré tomando sol à beira dos charcos. Aconteceu no Alabama As marchas pelos direitos civis O Alabama esteve no centro do turbilhão do movimento pelos direitos civis nos anos 1950 e 1960. Em Montgomery, Rosa Parks se recusou a deixar um assento destinado a pessoas brancas, o que levou a segregação racial a ser debatida no país. Em Selma, o ativista Martin Luther King conduziu uma marcha histórica "Sweet Home Alabama" A canção nasceu como resposta a uma provocação. Nos anos 1970, Neil Young havia criticado a região por seu conservadorismo e histórico ligado à escravidão. A banda Lynyrd Skynyrd, da vizinha Flórida, resolveu escrever um desagravo, exaltando o sul americano, que virou hino informal do Alabama "Corra, Forrest, corra!" No cinema, um dos personagens mais famosos vindos do estado é Forrest Gump, do filme homônimo. Na trama ele vive numa cidadezinha fictícia inspirada em Mobile, com seus casarões de colunas brancas, ruas pacatas e campos bucólicos De olho na Lua Embora os lançamentos de foguetes ocorram na Flórida, e o centro de controle da Nasa fique em Houston, no Texas, era em Huntsville, no Alabama, que muitos deles eram projetados. A cidade, no norte do estado, mantém um museu sobre a sua participação na corrida espacial Parada musical A cidade de Muscle Shoals abrigou estúdios que foram fundamentais para a música americana. Aretha Franklin, Bob Dylan, Rolling Stones, Otis Redding e Paul Simon foram alguns dos muitos que gravaram discos ali atrás de um som que misturava influências variadas, como o soul, o country e o R&B

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