Minha ansiedade atrapalha o romance. Como deixo de ser assim?

Minha ansiedade atrapalha o romance. Como deixo de ser assim?

Ficar ansioso por estar ansioso, culpar esta ansiedade pelo fracasso das relações amorosas e, mais do que isso, buscar ansiosamente formas de eliminar a própria ansiedade é um dos maiores e mais comuns nós que damos em nós mesmos. Nó que estrangula traços de nossa humanidade ao tentar suprimir algo que tem função psíquica. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), o Brasil é o país mais ansioso do mundo, com 18,6 milhões de brasileiros em sofrimento psíquico. Na pesquisa Covitel 2023, feita com 9.000 brasileiros, 1 em cada 4 já recebeu diagnóstico médico de ansiedade. Entre as mulheres, 1 em cada 3. Se a ansiedade fosse efetivamente um inviabilizador de relações, teríamos uma população bem mais solteira, separada e angustiada do que a que encontramos. Não que ela não traga problemas. Assim como a leitora, você provavelmente também já se viu atrapalhado e atropelado pela própria ansiedade num relacionamento. A questão não é deixar de ser ansioso. É entender qual é a função dessa ansiedade para poder lidar com ela de outro modo, em vez de tentar erradicá-la. Em "Inibição, sintoma e angústia", Freud diz que "a angústia é, de um lado, expectativa do trauma, e de outro, uma repetição atenuada dele." A cada demora de resposta, não é só a mensagem que não chegou: é o eco de todos os abandonos anteriores. E, como se não bastassem os nossos traumas amorosos fazendo coro no silêncio do outro, vivemos hoje numa espécie de câmara de eco de fatalismo. Na pesquisa Narrativas Afetivas, que conduzi com Camila Holpert a partir de mais de 1 milhão de falas nas redes sobre amor, uma em cada nove aparece atravessada pela ansiedade. Ou seja: lemos os nossos fantasmas e os fantasmas alheios como pistas de que o pior está por vir. A ansiedade é a nossa forma de nos prepararmos para esse pior, na esperança de que a dor não nos pegue desprevenidos e doa menos que as decepções pregressas. Mas sempre dói. E cada vez que vivemos uma dor de amor sem nos darmos tempo e cuidado para elaborá-la, maiores são as chances de entrarmos na relação seguinte cheios de mapas de campos minados, que transpõem para o presente todos os símbolos dos fins, das crises e das decepções passadas. Antecipar o sofrimento é uma tentativa de retomar o controle sobre aquilo que um dia foi vivido como desamparo. É aqui que a ansiedade deixa de ser defeito e vira defesa. Só que tem outro nó. A repetição atenuada do trauma não acontece apenas nas nossas projeções, acontece dentro do vínculo. É o que faz alguém ligar 28 vezes para o celular do marido, que não atende porque o deixou no silencioso durante a convenção de vendas da empresa. Marido que chega em casa e encontra travesseiro e coberta no sofá. Quando a crise conjugal se instala, a certeza dela é de que tudo começou num adultério na tal convenção —sem se dar conta de que as 28 ligações e a hostilidade foram o jeito inconsciente de encenar e controlar a crise que temia não ver chegar. A ansiedade funciona como um revés do amor: atrapalhada por estar emocionada, hiperfoca no outro. Como a criança estabanada, cheia de energia depois de boas doses de brigadeiro e refrigerante, que sai correndo pela sala e derruba o que queria alcançar. Sem saber o que fazer com tanta intensidade, após meses ou anos sem ninguém que dê frio na barriga, ficamos muito presentes ou excessivamente desconfiados. Com medo de a chama apagar, afogamos o outro numa sequência frenética de mensagens, links e convites. Ou, do outro lado, preenchemos cada silêncio com uma hipótese fatalista que alimenta a próxima. O excesso de propostas retira do outro a chance de querer: se você já ocupou todos os espaços, ele não tem onde chegar. E o excesso de teorias retira a chance de conhecer, sentindo mais e entendendo menos. O hiperfoco não aproxima; ocupa e preocupa. Intimidade se constrói aos poucos, com oscilações e frustrações que, de novo, não são presságios do fim. Penso na sombra: a gente se assusta com aquela imagem gigante projetada no chão, uma espécie de fantasma. Até entender que é só a nossa própria sombra, reflexo do nosso corpo e, nas questões do coração, eco do nosso passado. Não dá para colocar a cara no sol e não se deparar com a própria sombra. O mesmo vale para o coração. Lembre-se de que a sombra é só uma sombra e duvide das próprias certezas, rebaixando-as a hipóteses: de que histórias elas vêm, com quem se parecem, que calos apertam. E quando a garganta apertar, pergunte ao outro em vez de encenar. Dizer que ficou angustiada quando ele não atendeu é diferente de produzir uma crise para descobrir se ele fica. O senso comum vai dizer para não se emocionar, para não demonstrar tanto, para se segurar. Considero um desserviço. Parte do que a leitora chama de ansiedade é só envolvimento: o frio na barriga vem porque gostamos daquela pessoa, porque queremos que dê certo, porque há algo em jogo. O que adoece não é sentir, é o hiperfoco que transforma esse frio em vigilância. Minha recomendação seria: aproveite essa sensação de que a vida presta, à la Fernanda Torres, e direcione essa energia para outras atividades e outros vínculos que te nutrem. Entenda a ansiedade como um sinal de que alguém mexeu com você, e isso pode ser maravilhoso. E se você também tem um dilema ou uma dúvida sobre suas relações afetivas, me escreva no colunaamorcronico@amorespossiveis.love. Toda quarta-feira respondo a uma pergunta aqui. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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