O Ministério da Defesa foi criado 14 anos depois do fim da ditadura e 11 anos depois da Constituição, desde logo sob a chefia de um civil. Sob Fernando Henrique Cardoso (PSDB), em 1999, as pastas da Marinha, do Exército e da Aeronáutica tornaram-se Comandos. Tudo se passou como se fosse necessário um longo período de distensão, apaziguamento e estabilização democrática para que o papel das Forças Armadas e dos militares fosse circunscrito, sem crises, ao de um serviço e de uma carreira de Estado. A partir de 2018, no entanto, militares chegaram à chefia da Defesa. Em 2022, estavam outra vez envolvidos em tentativa de golpe. A possibilidade de que Flávio Bolsonaro (PL) venha a ser eleito presidente reaviva a questão militar, que se tornou crítica sob seu pai, Jair Bolsonaro. Foi Michel Temer (MDB) quem nomeou o primeiro general para a Defesa. Presidente de popularidade ínfima, com mandato ameaçado, lidava com crises na segurança pública e com a greve dos caminhoneiros. Recorreu às Forças Armadas para operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), na tentativa de conter tumultos e violências. Fardados voltaram à vida pública. Jair Bolsonaro, um capitão insidioso e na prática posto para fora do Exército, fez carreira política saudando a ditadura militar. Presidente, não apenas nomeou generais para a Defesa e outros ministérios como lotou cargos de confiança civis de seu governo com 6.157 integrantes da caserna. Expurgou os Comandos de seus desafetos e continuou a campanha de politização da tropa. Arquitetou um golpe com o último general ocupante da Defesa de seu governo, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, e com o antecessor dele, Walter Braga Netto, condenados pela trama golpista com outros 17 militares. O crime só não foi levado adiante por causa da oposição dos Comandos do Exército e da Aeronáutica. É inaceitável o mero risco de repolitização das Forças. A fim de que se contenha a ameaça de contágio da tropa e o incentivo à indisciplina, à quebra da hierarquia, à confraternização com paisanos criminosos, à subversão e, enfim, a intentonas, militares não podem chefiar a Defesa. Além do mais, aqueles que venham a ser nomeados para postos civis nos três Poderes devem renunciar à carreira, assim como os fardados que queiram se candidatar em eleições —isso deveria estar fixado na legislação. Jair Bolsonaro reativou em setores das tropas o vírus do intervencionismo e fez propaganda do autoritarismo armado. Seu mandato foi prova do efeito funesto imediato da militarização do governo e da partidarização das Forças Armadas. O país democrático está de prontidão diante de ameaças de virar do avesso a Constituição. Será essencial que Flávio, como se noticia, tenha esse entendimento e, em um eventual mandato no Planalto, mantenha os fardados fiéis à sua missão constitucional. editoriais@grupofolha.com.br
Militares devem estar sob poder civil e longe da pol�tica
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