A visita do deputado federal André Janones (Rede-MG) à Argentina não passou batida para o governo de Javier Milei. Desde esta segunda-feira (3), quando o político brasileiro chegou ao país, figuras próximas ao presidente, além dele mesmo, comentaram a visita em suas redes sociais. O ultraliberal usou o X para compartilhar mensagens de apoiadores sobre o assunto —um hábito que costuma render dezenas de publicações por dia em seu perfil. "O peronismo está tão perdido que precisa pedir aos brasileiros que o ensinem a fazer uma campanha eleitoral. Depois, vêm falar de soberania nacional", afirmava um dos posts republicados por Milei. Janones desembarcou em Buenos Aires a um ano das eleições argentinas para, em suas palavras, "tentar levar um pouco das técnicas" que garantiram a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) no final de outubro. A mais notória delas é o canal de WhatsApp Exército do Lula, onde o deputado passava missões, especialmente no ambiente digital, para milhões de apoiadores do petista. Uma das diretrizes passadas no grupo era a de não interagir com conteúdos bolsonaristas nas redes sociais —nem sequer ler as publicações, em uma tentativa de demonstrar para a plataforma que aquele conteúdo não é relevante. O deputado repetiu essa orientação em uma entrevista ao vivo na noite desta segunda à emissora C5N. "100% lobotomizados", afirmou o economista Felipe Núñez, diretor do Bice (Banco de Investimento e Comércio Exterior da Argentina), em outra mensagem compartilhada por Milei. Outro post, também repercutido pelo ultraliberal, veio da conta chamada Escola Austríaca de Economia: "Já imagino a campanha suja que vem por aí com os 'estrategistas' (mercenários) do Brasil que estão de visita e realizando reuniões com figuras deploráveis da política". Daniel Parisini, conhecido nas redes sociais como Gordo Dan, foi outro influenciador que criticou a presença de Janones. "Já faz 20 anos que os esquerdistas denunciam o entreguismo e a interferência estrangeira, e agora trazem dirigentes brasileiros para ensinar como ganhar eleições na Argentina", escreveu. Ele também foi republicado por Milei. Antes de ir falar à TV argentina, Janones se encontrou com Sergio Massa e Cristina Kirchner, ex-ministro da Economia e ex-presidente, respectivamente. Massa também foi o candidato derrotado por Milei no segundo turno das eleições de 2023 e tenta ser o nome da oposição no pleito do ano que vem; Cristina presidiu o país de 2007 a 2015 e atualmente cumpre prisão domiciliar enquanto tenta reconquistar seus direitos políticos. A visita também requentou a antiga acusação de que Lula teria financiado a campanha de Massa em 2023 —algo que Milei replica sem apresentar provas. A insinuação se baseia na presença de um grupo de publicitários ligados ao PT na equipe de campanha do peronista, embora houvesse estrategistas de várias outras partes do mundo atuando. "Mas quem poderia imaginar que o Lula vai bancar a campanha do kirchnerismo no ano que vem?! De jeito nenhum um estadista desse porte vai interferir em uma eleição no exterior! Milei está totalmente maluco ao acusá-lo de ter financiado o Massa em 2023", afirmou, em tom irônico, o economista Pablo Wende, em outra mensagem compartilhada pelo presidente argentino. Na mesma linha, o chanceler Pablo Quirno afirmou que a visita era "mais cantada que Despacito", em referência ao hit do cantor porto-riquenho Luis Fonsi e à proximidade entre os setores de esquerda brasileiro e argentino. Já Santiago Caputo, estrategista político e braço direito do ultraliberal, publicou indireta, sem citar Janones. "Não importa quantas ferramentas tecnológicas você tenha à disposição —se a sua mensagem for uma merda, não há nada que te salve". "Desejo muita sorte a vocês tentando convencer a sociedade argentina de que não são um bando de criminosos, repetindo as mesmas ideias que fracassaram ao longo de 100 anos, cercados pelas mesmas figuras que nos arruinaram", completou, em um texto publicado na sua conta no X. Caputo ganhou atenção nas últimas semanas por ter sido apontado por diversos veículos como um dos atores centrais da fuga de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos a partir de Porto Iguaçu. De acordo com a imprensa argentina, ele monitorou a operação desde o início, na terça-feira (27), e foi parado em uma blitz no dia seguinte em uma rodovia que conecta a cidade à região de Buenos Aires. O possível envolvimento de Milei na fuga causou um terremoto político no país vizinho, com opositores exigindo esclarecimento e apresentando denúncias contra membros do governo. Consultado sobre o conhecimento do ultraliberal a respeito da operação, o porta-voz da Casa Rosada, Adrián Ravier, afirmou em uma entrevista coletiva nesta terça: "Não sei". "Não temos muito mais a dizer a esse respeito e, para nós, o assunto está encerrado. Não houve um pedido de captura internacional, nem qualquer irregularidade por parte do governo argentino em relação a [Flávio] Bolsonaro, à sua entrada na Argentina e à sua viagem aos EUA com escala no Equador", disse ele. O Brasil, que rebaixou as relações com a Argentina após ataques de Milei a autoridades brasileiras, disse ter convocado a encarregada de negócios da Argentina em Brasília, María Emilia Cortés, para prestar esclarecimentos na última quinta (29). A Casa Rosada nega que a convocação tenha ocorrido.
Milei compartilha publica��es sobre 'interfer�ncia estrangeira' ap�s visita de Janones � Argentina
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