Sob baixa aprovação popular, Javier Milei apelou à soberania da Argentina sobre as ilhas Malvinas em pronunciamento à nação no início deste mês. Historicamente, o discurso de união da cidadania em torno dessa causa patriótica reflete o desgaste do governo de turno. Assim foi em 1982, quando a ditadura tentou recuperar o arquipélago, em posse do Reino Unido desde 1833, como meio de contornar o seu ocaso. Os resultados foram uma humilhante rendição e a responsabilidade primária do regime pelas mortes de 649 argentinos e 255 britânicos. Também houve consequências positivas: a Guerra das Malvinas precipitou a debacle da junta militar e o início da redemocratização. Por certo, há enorme distância entre a investida de Milei num tema sensível do imaginário argentino e o insensato ataque castrense contra uma potência nuclear associada à Otan. Por mais estridente e imprevisível que seja, o ultradireitista não chegou ao delírio de um aceno ao extremismo. Milei questionou a legitimidade da posse britânica —o que pode ser tratado por meio de negociações. Mais grave foi a sinalização de recusa ao direito dos habitantes do arquipélago à autodeterminação. Em consulta de 2013, 99,8% deles escolheram manter as ilhas como território ultramarino do Reino Unido, que as chama de Falklands. De concreto, nos dias que se seguiram ao pronunciamento de Milei, seu governo iniciou procedimentos sancionatórios contra cerca de 60 empresas e pessoas físicas com negócios no local; cinco companhias petroleiras foram denunciadas na Justiça. Entretanto, nas entrelinhas, sua retórica e ações sugerem um jogo combinado com a Casa Branca. Em abril, documento interno do Pentágono já aventara rever a neutralidade formal dos EUA sobre as Malvinas —que, na prática, favorece a posição britânica— como forma de pressionar Londres. No final de agosto, Trump voltou a sugerir tal revisão, em meio à cobrança para que o Reino Unido eleve seus gastos militares. Ao retomar o tema, o líder argentino ecoa o objetivo de seu aliado e tenta reverter sua notória impopularidade. Pesquisa da AtlasIntel de agosto constatou desaprovação de 58%, patamar elevado para um governante que almeja a reeleição em 2027. Não deixa de ser embaraçosa a estratégia de Milei. Seu pacote de estabilização e de liberalização da economia proporcionou resultados efetivos, mas houve custos políticos que nada tinham de imprevisíveis. O apelo tardio a uma cartada nacionalista decerto soa pouco convincente. editoriais@grupofolha.com.br
Milei apela �s Malvinas em busca de popularidade
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.