Dois sobreviventes conversando em um Rio de Janeiro chuvoso. Não foram consumidas nem duas tônicas. Esse foi o meu encontro com Ruy Castro. Estava terminando de almoçar quando mandei uma mensagem avisando que poderia me atrasar. Ruy respondeu: "Alice, você pode tomar quanto quiser do meu tempo". A frase já dizia muito sobre o homem que eu encontraria. E lá fui eu, toda envergonhada, conversar com um grande escritor, responsável por livros como "Estrela Solitária" e tantas outras biografias importantes. Diante de mim, porém, estava também um homem que tinha atravessado o alcoolismo e sobrevivera para contar a história. Trocamos nossas experiências com a dependência do álcool e de outras drogas. No meu caso, foram o álcool e, por um breve período, a maconha. Ruy já tinha experimentado outras substâncias. Não havia julgamento entre nós. Apenas aquela identificação silenciosa que acontece quando duas pessoas reconhecem uma na outra uma dor parecida. Fiquei ali, olhando aquele homem contar tudo o que havia acontecido com ele. Em determinado momento, ele disse uma frase que não saiu da minha cabeça: "Recuperei tudo muito rapidamente, menos minhas filhas". Há perdas que a sobriedade não apaga. Parar de beber não faz o tempo voltar, não elimina palavras ditas nem conserta imediatamente os relacionamentos. A recuperação nos dá a possibilidade de reconstruir a vida, mas algumas feridas exigem paciência. Algumas deixam cicatrizes para sempre. Quando foi internado, Ruy já lançava seus livros pela editora que o publica até hoje. O dono foi compreensivo e chegou a mandar flores para ele. Foi sua única internação, em uma clínica baseada nos Doze Passos. Naquela hora, pensei nas muitas vezes em que nós, alcoólicos, acreditamos poder resolver tudo sozinhos. Até não conseguirmos mais esconder a doença dos outros nem de nós mesmos. Uma grande carreira, reconhecimento e dinheiro podem parecer uma proteção contra o fundo do poço. Não são. O alcoolismo não respeita currículo, talento, inteligência ou posição social. Talvez tenha sido isso que mais me aproximou de Ruy naquela conversa. Apesar das diferenças entre nossas histórias, havia um território comum. Nós dois sabíamos o que era perder o controle e precisar admitir que a bebida tinha se tornado maior do que a nossa vontade. Também sabíamos que sobreviver não significa apenas continuar respirando. Significa reaprender a viver sem a substância que, durante tanto tempo, pareceu aliviar a dor, a ansiedade, o medo e a solidão. No começo, a vida sóbria pode parecer sem graça. Depois, começamos a perceber que sem graça era viver repetindo os mesmos erros, acordando com vergonha e tentando remendar os estragos da véspera. Ruy me contou sua história com naturalidade, sem tentar transformá-la em uma lição de moral. Talvez por isso eu tenha saído de lá pensando tanto. Ele não romantizou o sofrimento, tampouco escondeu a possibilidade de recomeçar. Quando a conversa terminou, o Rio continuava chuvoso. As duas tônicas permaneciam quase intactas. E eu fui embora com a sensação de ter encontrado não apenas um escritor que admiro, mas alguém que conhece de perto o caminho escuro da dependência e a luz, às vezes fraca, da recuperação. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Meu encontro com Ruy Castro, outro sobrevivente do alcoolismo
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