Acompanhar o noticiário do Ceará é um exercício de elasticidade cerebral. Na mesma semana, temos dois grandes temas ocupando as manchetes: o vestibular da Fuvest sendo aplicado pela primeira vez em Fortaleza e o fantástico roubo de 40 calcinhas na cidade de Crateús. Antes de a USP chegar mais perto, já temos uma sede do ITA em construção no estado. Uma boa estratégia de logística, já que quase metade das vagas têm sido preenchidas por cearenses, não é de hoje. Notas altas no Ideb, no Enem, tudo isso em um estado que tem menos de 5% da população do país. Somos exemplo na educação fundamental, em programas de formação de professores. Um trabalho longo de políticas públicas sérias e efetivas. Recomendo acompanhar os comentaristas da internet quando uma boa notícia dessas é anunciada. Muitos vão mencionar o tamanho das nossas cabeças e associar à inteligência. São crânios de fato avantajados. Nos meus tempos de escola, os melhores alunos eram chamados de crânios, como adjetivo. "Fulano é crânio." Não adianta tentar usar como ofensa, ser cabeçudo será sempre aceito como elogio. Mas é no Ceará também que o roubo de 40 calcinhas vira tema de reportagem, com desdobramentos, imagens de câmeras de segurança, entrevista com a dona das peças roubadas, uma cobertura completa que eu acompanhei, inclusive, porque é quase inacreditável. O léxico do jornalismo merece um dicionário exclusivo. Um guia de redação próprio. Somos mestres do trocadilho, das tiradas geniais, da resposta no contrapé. Muita gente me pergunta por que não vou embora para o Rio ou para São Paulo, viver em posição mais estratégica para minha carreira. E eu sou besta? Moro a cinco minutos do aeroporto. Quando preciso viajar, a mala já está no ponto e chego rápido ao avião. Aqui tenho tudo do que preciso para viver. Eu amo o mundo, todos os lugares que já conheci, mas cada vez mais tenho orgulho de ter nascido nessa ponta do Brasil. Aqui nessa Fortaleza esverdeada, cheia de injustiças, de problemas sociais, e de uma gente tão bem-humorada que perde a hora, mas não perde a piada.Que venha o ITA, a USP e que nossos talentos sejam valorizados. E que lembrem sempre onde está o nosso tesouro. O meu é o Ceará, essa terra cheia de histórias. Se eu tiver tempo de vida para escrever mais uns 20 romances sobre os casos absurdos daqui, os temas nunca vão faltar. Basta uma voltinha na serra, na praia, no sertão. Tenho um vasto cardápio de absurdos para escolher. Esta é uma crônica bairrista. Não faço a menor questão de disfarçar o meu orgulho. E eu tenho pena de quem ainda não aprendeu a amar o Ceará. Semana passada, passei boas horas em frente ao mar com minha amiga Chantal Reyes, correspondente do jornal francês Libération no Brasil. Até ela, que já viu tanta coisa linda no mundo, ficou apaixonada pelo nosso Mucuripe, meu pedaço favorito de Fortaleza. Escuto Elis Regina na cabeça sempre que passo por lá. Ainda quero ver muita coisa desse planeta, mas meu sonho é envelhecer olhando pro mar do Mucuripe, ver as jangadas saindo e chegando todos os dias, tomar café do Mulungu e agradecer pelo cabeção abençoado que Deus nos deu. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Meu Cear� � terra da educa��o e do roubo misterioso de calcinhas
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