Mesmo sem o t�tulo, Messi deixa a Copa incorporado � identidade argentina

Mesmo sem o t�tulo, Messi deixa a Copa incorporado � identidade argentina

Messi foi às lágrimas quando recebeu a medalha de prata pelo vice-campeonato na Copa do Mundo. Ele ainda tentava digerir a derrota para a Espanha, na prorrogação, por 1 a 0. Depois de atuações magistrais ao longo do Mundial, dessa vez, nem ele conseguiu fazer a Argentina reagir em campo. Mas, diferentemente de outras derrotas, essa não vai abalar a relação do craque com seus compatriotas. Assim como fez no Qatar, há quatro anos, ele provou novamente que joga por amor à Argentina. E fez tudo que estava a seu alcance para buscar mais um título. Entre no grupo FolhaStats Confira a tabela da Copa O troféu não veio e, aos 39 anos, ele dificilmente terá a chance de voltar a maior palco do futebol, embora não tenha confirmado seu adeus das Copas. Caso confirme sua despedida, além de liderar uma barca de experientes jogadores que também devem deixar a seleção, serão inevitáveis as comparações com outros gênios da bola, principalmente com Pelé e Maradona. Os dois são referências inevitáveis sempre que se tenta medir a grandeza de qualquer jogador. Mas usá-los como régua de comparação exige equiparar diferentes épocas do futebol, sem considerar toda a evolução do esporte em termos de condições de jogo e da forma como ele passou a ser percebido pela mídia. Além, é claro, do significado que ambos carregam para além das quatro linhas. Mas, se há um jogador que também pode ser considerado um sinônimo da maior expressão de um craque, esse jogador é justamente Lionel Messi. Assim como no Mundial do Qatar, o astro conduziu sua seleção a mais uma final de Copa, com atuações que ficarão marcadas não só por sua técnica, mas pela capacidade de despertar uma reação no elenco. Quatro anos após a conquistar a Copa de 2022, ele provou que a passagem do tempo pouco parece afetá-lo, mesmo aos 39 anos. Mesmo com o vice-campeonato, Messi já consolidou uma carreira que há muito deixou de ser apenas uma sequência de conquistas para se transformar em parte da história do próprio futebol. Seu talento ainda encanta como acontecia há 22 anos, quando conquistou pelo Barcelona o primeiro de seus 46 títulos como profissional. Ninguém tem mais troféus no futebol do que ele, reflexo de uma rara longevidade no esporte, com mais de duas décadas atuando em alto nível —eleito oito vezes o melhor do mundo. Ainda que exista um vasto repertório de números para exaltar sua grandeza, como o fato de ser o maior artilheiro da história das Copas, com 21 gols, sendo 8 nesta edição, os números por si só não conseguem dar conta de definir a grandeza do camisa 10. Nem traduzir seu impacto para as gerações de fãs e atletas que o acompanharam. Em uma das mais famosas biografias do craque, escrita pelo jornalista espanhol Guillem Balagué, o peso histórico de Messi não é definido pelos gols ou pelos títulos, mas pelo fato de ele ocupar o mesmo lugar simbólico reservado aos raros jogadores capazes de atravessar gerações e se tornar parte da identidade de um país. "Messi não surgiu do nada. Nem Alfredo Di Stéfano ou Diego Armando Maradona", escreveu Guillem. "Talvez não seja um gene argentino, mas certamente os três nasceram em um país onde o futebol te leva todos os dias à grande glória (fama, dinheiro) e à pequena glória (o reconhecimento de todos)", descreveu em outro trecho. Embora seu talento seja reconhecido desde a base do Barcelona, Messi demorou para conseguir ocupar o imaginário dos torcedores argentinos como um símbolo do país. Durante anos, conviveu com críticas por supostamente não se conectar com a Argentina como Maradona fazia e às vezes parecer distante da seleção. As derrotas em finais, como na decisão da Copa de 2014, e até o anúncio de sua aposentadoria da seleção, em 2016, alimentaram essa percepção. O retorno poucos meses depois, seguido pelos títulos da Copa América de 2021 e da Copa do Mundo de 2022, conseguiu mudar essa percepção. Na biografia escrita por Balagué, Maradona é descrito como impulsivo, político, confrontador, espontâneo e emocional. Messi, sua vez, é visto como reservado, disciplinado, familiar, metódico e com quase aversão ao conflito. Tanto na campanha do título no Qatar, em 2022, como agora na América do Norte, o argentino mostrou uma versão mais expansiva e emocional, sem deixar de ser fiel à própria personalidade. A modulação dessas características, revelando uma personalidade mais "maradoniana", ajudou Messi a conquistar entre os argentinos uma devoção que não se via desde que Maradona foi alçado ao altar de um "semideus" no país. Talvez o grande mérito de Messi no Mundial deste ano nem tenha sido uma ou outra jogada genial, mas a forma como ele conseguiu fazer com que todo o elenco jogasse por ele. E pensar que na final deste domingo ele poderia estar do outro lado. Apesar de sua introdução ao futebol ter sido feita na base do Newell's Old Boys, de Rosário, onde o craque nasceu, ele foi de fato lapidado na base do Barcelona. Foram os espanhóis que tiveram o privilégio de ver o talento do garoto se desenvolver muito antes de os próprios argentinos tomarem conhecimento de sua existência. Foi em Barcelona que o garoto que deixara a Argentina aos 13 anos para tratar um problema de crescimento tornou-se um dos maiores talentos que o futebol já produziu. Por anos, jogadores da Espanha, futuros companheiros de Messi no Barcelona, como Piqué e Fàbregas, tentaram convencê-lo a aceitar uma convocação da seleção espanhola. Até a federação do país tentou demover o pai do jogador, mas ambos negaram. A resposta de Messi era sempre a mesma. "Sou argentino e quero jogar pela Argentina". E ele jogou, com dedicação, até o fim.

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