Oportunidades de desenvolvimento econômico e social podem nascer a partir da interação entre trabalhadores mais e menos qualificados em uma mesma estrutura produtiva, diz à Folha o pesquisador chileno César Hidalgo. Ele é professor da Escola de Economia de Toulouse, na França, onde atua como diretor do Centro de Aprendizagem Coletiva, um laboratório de pesquisa que também conta com instalações na Universidade Corvinus, de Budapeste, na Hungria. O acadêmico é um dos autores de um artigo recente que analisou aspectos da mobilidade social no Brasil em período anterior à pandemia. Conforme o estudo, publicado em agosto na revista científica Pnas, cidades brasileiras que parecem propiciar maior ascensão a trabalhadores caracterizam-se pela mescla da mão de obra qualificada e não qualificada no setor privado. São os casos de municípios do Sul e do Sudeste, indica Hidalgo. Por outro lado, locais de porte semelhante no Norte e no Nordeste apresentam menor mobilidade social e mostram uma concentração de profissionais mais qualificados no setor público. A situação criaria uma espécie de segregação e limitaria a interação com os demais trabalhadores. "Em um lugar onde as pessoas com diferentes níveis de preparação, educação e conhecimento se mesclam, trabalham juntas e aprendem, essa desigualdade pode ser um motor de crescimento, de desenvolvimento", afirma Hidalgo em entrevista por videochamada. "Já em um lugar onde a desigualdade está estruturada de forma distinta, por meio da segregação, esse motor de desenvolvimento vai desacelerar. Isso demonstra que a estrutura da desigualdade é o que importa, e não só o seu nível", acrescenta. C-Level Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisões Com passagem pelo MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), nos Estados Unidos, Hidalgo produziu o estudo em parceria com os pesquisadores Edward Glaeser, Martina Viarengo e Radu Barza. A principal fonte de dados usada no artigo é a Rais (Relação Anual de Informações Sociais), do governo federal, que consolida registros do mercado de trabalho formal no Brasil. As estatísticas investigadas vão até 2018. Ou seja, não captam eventuais impactos da pandemia e outros movimentos mais recentes no mercado de trabalho. O artigo divide o país em norte e sul. "No Brasil, a população está muito concentrada na costa. Então, [a divisão usada no estudo] é um pouco a história de Salvador e das cidades que ficam mais ao norte comparadas com as cidades que ficam do Rio para o sul", diz Hidalgo. O artigo afirma que, em municípios nortistas, mais da metade dos trabalhadores que iniciavam a carreira ganhando menos de 1,5 salário mínimo permaneciam abaixo desse patamar após sete anos. Em cidades sulistas, a proporção era menor, estimada em cerca de um terço. "No sul, pessoas de maior preparo trabalham no setor privado e se mesclam mais. As instituições do norte do Brasil são fortes, atraem bons talentos, mas tiram o ar do restante da economia, por assim dizer", afirma Hidalgo. Embora os dados analisados sejam anteriores à pandemia, é improvável que o contexto tenha mudado de modo substancial de lá para cá, de acordo com o economista Alysson Portella, professor da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Ele avalia que as conclusões dialogam com outros indicadores econômicos e sociais que mostram diferenças entre as regiões brasileiras. "O Nordeste teve trabalho muito baseado na exploração de uma mão de obra barata e, na época da escravidão, de trabalho forçado, enquanto a região Sul teve um processo de industrialização mais consolidado. Essas coisas dialogam porque são resultados de um processo histórico", diz Portella. No segundo trimestre de 2026, as taxas de desemprego seguiam maiores no Nordeste (7,6%) e no Norte (6,1%) se comparadas aos índices do Sudeste (5,2%), do Centro-Oeste (3,8%) e do Sul (3,2%), conforme os dados mais recentes do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O cenário também mostra diferenças quando a variável analisada é a taxa de informalidade, que mede o percentual da mão de obra que trabalha em ocupações sem carteira assinada ou CNPJ. A proporção de informais fica perto de 50% no Norte (50,4%) e no Nordeste (48,7%), enquanto está próxima de 30% no Sudeste (33,4%), no Centro-Oeste (33,3%) e no Sul (28,8%). Outro indicador calculado pelo IBGE é a renda média habitual de todos os trabalhos. No segundo trimestre deste ano, Nordeste (R$ 2.645) e Norte (R$ 2.926) continuavam com valores inferiores aos do Centro-Oeste (R$ 4.362), do Sul (R$ 4.238) e do Sudeste (R$ 4.124).
Mescla de trabalhadores pode ser motor de desenvolvimento, diz pesquisador que analisou o Brasil
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