A gravidez e a lactação são períodos em que o corpo da mulher passa por grandes transformações. Uma delas é o aumento da necessidade de cálcio. Primeiro, para atender às necessidades do organismo ao mesmo tempo em que ocorre a formação do esqueleto do feto em seu ventre. E, em seguida, para a produção do leite materno, que vai nutrir o bebê nos primeiros meses (ou anos) de vida. Caso não haja disponibilidade suficiente do mineral no corpo da mãe, o organismo irá obtê-lo do próprio esqueleto. Isso pode resultar em perda de massa óssea, em percentuais que variam de 3% a 10%, durante os primeiros quatro meses de amamentação. Porém, quando o aleitamento passa a ser complementado, o que acontece a partir da introdução alimentar do bebê após seis meses de aleitamento exclusivo, e ocorre a normalização dos níveis hormonais e o retorno da menstruação, a massa óssea da mãe volta a se recompor. Diante dessa condição que pode impactar a saúde e a qualidade de vida futura das mulheres, uma vez que a fragilidade dos ossos pode levar a fraturas, a professora Tamara Beres Lederer Goldberg e duas orientandas de doutorado do Programa de Pós-graduação em Tocoginecologia, da Faculdade de Medicina da Unesp em Botucatu, decidiram investigar se o volume de leite produzido é capaz de interferir na perda de massa óssea, comparando mulheres que amamentam apenas os próprios bebês com aquelas que também fazem doações a bancos de leite humano. "Imaginávamos que produzir um volume maior de leite resultaria em uma maior perda de massa óssea", explica a docente coordenadora do estudo. "Mas a resposta é não. O acometimento é o mesmo." Os resultados foram publicados no Jornal de Pediatria. Os dados do estudo Entre julho de 2020 e março de 2023, a pesquisa acompanhou 77 nutrizes, termo que identifica as mulheres cujos corpos estão produzindo leite. Destas, 38 alimentavam apenas o próprio bebê e 39 doavam o leite materno excedente ao longo do período. O primeiro grupo foi avaliado 15 dias e seis meses após o parto. O segundo, aos seis e aos 12 meses após o parto. Para reduzir a influência de outros fatores sobre a massa óssea, foram selecionadas mulheres entre 18 e 38 anos, grávidas pela primeira vez, com gestação considerada de risco habitual e bebês nascidos a termo e com peso adequado para a idade gestacional. Mulheres com doenças que pudessem afetar o metabolismo ósseo ou com obesidade foram excluídas. Todas foram avaliadas quanto ao índice de massa corporal (IMC) e submetidas a exames de densitometria para determinar a densidade mineral óssea da coluna lombar, do fêmur proximal total e do corpo inteiro. Também foram realizados exames de sangue para dosar cálcio, fósforo, vitamina D, estradiol, hormônio da paratireoide e marcadores de formação e reabsorção óssea. O volume de leite doado por cada uma também foi medido. Decorridos seis meses de amamentação, foram comparados os resultados dos exames de massa óssea dos dois grupos. O resultado foi exatamente igual. "Não havia nada na literatura que investigasse os efeitos sobre a saúde e as condições ósseas das doadoras de leite materno", explica Tamara. "Raciocinamos que o fato de esse grupo de mães, em um período de seis meses, ter doado grandes quantidades de leite além do que já seria destinado à amamentação do bebê deveria impactar a perda de massa óssea. Mas não é isso que ocorre", afirma. "Constatar isso foi uma surpresa." Entre seis e 12 meses após o parto, quando elas já estavam praticando o aleitamento complementado, os valores de densidade mineral óssea da coluna lombar e do fêmur das doadoras de leite materno aumentaram 5% e 1,5%, respectivamente. Isso evidencia que o organismo já tinha iniciado um processo de regeneração. Já em relação ao IMC, não foram observadas alterações significativas. Quanto aos biomarcadores, a situação foi semelhante. As alterações identificadas reforçam uma tendência à recuperação óssea nesse período. O achado mais expressivo foi a redução do CTX a partir do sexto mês de amamentação. Esse biomarcador é liberado como resultado da degradação do colágeno ósseo e funciona como indicador desse processo. A queda do CTX, acompanhada da diminuição da fosfatase alcalina óssea, um biomarcador de formação óssea, sugere uma redução da atividade de remodelação óssea. Cuide-se Ciência, hábitos e prevenção numa newsletter para a sua saúde e bem-estar E, quando foram comparados os resultados das doadoras aos 12 meses com os das não doadoras aos 15 dias, após os devidos ajustes estatísticos, observou-se que, mesmo com a manutenção do aleitamento materno complementar, houve uma tendência de os valores de densidade mineral óssea retornarem às médias observadas na primeira quinzena pós-parto. "Os resultados mostram que há uma ‘agressão’, mas a perda de massa óssea é transitória. Doar leite materno não vai agravar a saúde óssea, não é um fator que afete o corpo mais do que a própria amamentação", diz Tamara. Ausência de suplementação de cálcio é motivo de atenção O percentual de perda de massa óssea durante o aleitamento materno exclusivo, embora transitório, é mais significativo do que o observado em mulheres na menopausa, que é de 1 a 3% ao ano. Ou seja, esse é um fator que pode impactar a qualidade de vida a longo prazo. Por esse motivo, a qualidade da massa óssea deve ser uma preocupação antes mesmo da gestação. Embora não fosse o objetivo do trabalho, as pesquisadoras constataram que as mulheres acompanhadas no estudo apresentavam baixa ingestão de cálcio por meio da alimentação e, durante a gravidez, não receberam qualquer tipo de suplementação de cálcio ou vitamina D, fundamentais para a manutenção e o ganho de massa óssea. "No SUS, oferece-se apenas suplementação de ácido fólico. Nada de cálcio e vitamina D. Já as mulheres que fazem acompanhamento em serviços conveniados ou privados recebem, mas não sabemos se a quantidade é suficiente porque não são feitos exames para dosar. Até o momento, há poucas pesquisas que atestem as quantidades necessárias para esse momento da vida da mulher", afirma Tamara. Novos estudos podem ajudar a elaborar políticas públicas Os resultados obtidos com a pesquisa abrem novas frentes de investigação. Atualmente, a professora Tamara coordena um estudo que avalia a perda de massa óssea durante a gestação. O público-alvo são mulheres atendidas no Sistema Único de Saúde na cidade de Botucatu. O objetivo, desta vez, é mapear a massa óssea das gestantes ao longo de toda a gravidez e identificar os períodos mais críticos de perda. Essas informações podem ajudar a direcionar futuras políticas públicas de saúde voltadas a essas gestantes. "A partir de agora, também temos interesse em investigar, por exemplo, o impacto de múltiplas gestações sobre a qualidade óssea das mulheres. Outra possível frente de investigação é a das gestantes obesas, porque o processo inflamatório crônico causado pela obesidade contribui para a perda de massa óssea. E também investigar se há diferenças entre a massa óssea de mulheres brancas e mulheres pretas. Ainda temos muitos questionamentos sobre os quais precisamos avançar", diz Tamara. A resposta a essas perguntas, no entanto, não muda a recomendação sobre o aleitamento materno. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), ele deve ser exclusivo até os seis meses de vida do bebê e complementado até os dois anos ou mais. "O nosso estudo é um alerta para ginecologistas e pediatras, que acompanham mães e bebês. Para que a amamentação ocorra, a mulher precisa de suporte, de orientação. Então, é fundamental que as crianças recebam o leite materno, rico em cálcio. Mas isso só é possível se a nutriz estiver bem amparada por profissionais bem-informados e por sua rede de apoio em casa. Afinal, a amamentação é um processo social", diz a pesquisadora.
M�es que doam leite n�o enfrentam riscos adicionais � sa�de dos ossos, mostra estudo
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