A abertura do mercado livre de energia para consumidores residenciais, prevista para 2028, pode não entregar a principal promessa da mudança: contas de luz mais baratas. Se distorções na formação dos preços da eletricidade e no modelo de negócio das comercializadoras de energia não forem corrigidas, o consumidor corre o risco de ganhar o direito de escolher de quem comprar energia apenas na letra da lei, afirma Luiz Fernando Leone Vianna, vice-presidente institucional e regulatório do grupo Delta, comercializadora de energia. "Não sabemos como vai ser esse preço lá em 2028 quando todo o mercado estiver livre porque temos hoje uma deformação na formação do preço", diz Vianna. "Na prática, podemos ter uma abertura de mercado de direito e não de fato." Prevista em lei, a abertura permitirá que consumidores residenciais deixem de comprar energia exclusivamente da distribuidora que atende sua região e passem a contratar o serviço de qualquer empresa que ofereça melhores condições. Bancos, operadoras de telefonia e outras companhias com atuação no varejo poderão disputar esse mercado. A expectativa é que consumidores negociem preços e prazos de fornecimento da mesma forma que hoje contratam planos de telefonia ou internet, inclusive por aplicativos de celular. Em jogo estão quase 90 milhões de consumidores. Hoje, pouco mais de 80 mil participam do mercado livre, que, a despeito da base reduzida, responde por cerca de 40% do consumo nacional por concentrar grandes clientes, como indústrias e shopping centers. A promessa da abertura é ampliar a concorrência e reduzir custos. Historicamente, a energia negociada no mercado livre custa entre 20% e 30% menos do que no mercado cativo, em que o consumidor compra energia exclusivamente da distribuidora. Para Vianna, essa diferença é ameaçada pela forma como os preços vêm sendo calculados. Em entrevista ao programa C-Level, ele afirma que a busca por mais segurança no sistema elétrico —com o acionamento mais frequente de usinas térmicas, por exemplo— elevou o preço da energia de modo desproporcional, o que joga incertezas para o futuro próximo. "O argumento todo [para alta de preços] é segurança. Fala-se [no fenômeno climático] El Niño", diz. Porém, afirma, os modelos estatísticos atuais (o chamado "PAR 1530" é um deles), que definem o peso dado a riscos, como cenários hidrológicos ruins, poderiam atender o sistema com baixo risco e preços menores. C-Level Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisões Na avaliação do executivo, a alta dos preços pode produzir outro efeito: uma crise de liquidez do mercado. Comercializadoras tenderiam a concentrar negociações no mercado de curto prazo, onde conseguem capturar preços mais elevados, em vez de assumir mais riscos em contratos de longo prazo ligados ao atendimento de milhões de pequenos consumidores. O cenário se soma à crise enfrentada pelas comercializadoras de energia. Após um período de expansão impulsionado pela migração de grandes consumidores em busca de tarifas menores, o setor passou a enfrentar, desde 2024, forte volatilidade dos preços no mercado de curto prazo, aumento das exigências de garantias financeiras e descasamento entre os valores negociados. As dívidas e recuperações judiciais ultrapassam R$ 6 bilhões, o que compromete pelo menos 11 companhias do setor elétrico. Vianna cita a Tradener, que inaugurou o mercado livre de energia do país e entrou com pedido de recuperação judicial em maio, com dívida de R$ 1,7 bilhão. Diante do quadro desafiador, a tendência é de consolidação entre as cerca de 300 comercializadoras em operação. "As que estiverem mais bem estruturadas vão partir para um movimento de consolidação com outras comercializadoras que estejam numa situação pior, mas que tenham, por exemplo, uma carteira boa de clientes", diz. Apesar das incertezas, Vianna diz que a abertura do mercado tende a aumentar a concorrência e mudar a relação entre consumidores e fornecedores de energia. O que se pode oferecer a mais para que o cliente possa migrar de um varejista para o outro? "A imaginação é o limite", diz. Na avaliação dele, a disputa deixará de ser apenas por preço. Empresas deverão competir também por serviços, tecnologia e programas de fidelização, em um modelo semelhante ao adotado por bancos e operadoras de telefonia. "Com um aparelhinho, a qualquer instante, você poderá entrar no celular e saber quanto consumiu. Você também pode monitorar quais são os vilões da sua conta de luz, se é o ferro de passar roupa, a geladeira, o secador de cabelo. Esse é um diferencial competitivo", diz, ao incluir também a possibilidade de oferta de serviços de manutenção, seguros etc. Distribuidoras já se movimentam para criar comercializadoras e disputar esse mercado. Empresas com forte presença no varejo, como bancos, operadoras de telefonia e companhias de saneamento, também devem entrar na concorrência. "Logicamente, as margens vão ficar menores também", diz. "Estamos falando de contas de luz de R$ 200, R$ 300, R$ 400. É um valor bastante baixo [se comparado a empresas] e isso vai trazer consequências", diz Vianna. O desafio operacional também será outro. "Dos 90 milhões de [pequenos] consumidores, vamos supor que 40% migrem para o mercado livre. Daria 36 milhões. Como você vai gerenciar, digamos, 1 milhão de consumidores?", exemplifica. Para ele, a expansão do mercado exigirá maior coordenação entre as empresas, mecanismos de autorregulação e um esforço de comunicação para explicar ao consumidor como funciona o novo modelo. "Se você chegar para alguém e falar assim: olha, eu tenho aqui uma proposta, você sai da sua distribuidora e vem ser meu cliente, com uma economia de R$ 30 por mês. A desconfiança vai ser muito grande. Vamos ter que ter uma educação", diz. Ao falar sobre outro desafio para o setor elétrico, o executivo cita a rápida expansão da geração solar distribuída. Segundo ele, o crescimento da oferta pode levar, paradoxalmente, à necessidade de cortes de geração em momentos de excesso de energia disponível na rede. Uma das alternativas seria ampliar o uso de baterias acopladas aos sistemas de geração solar, permitindo armazenar parte da energia produzida durante o dia e reduzir oscilações no fornecimento. Outra solução em estudo seria criar estrutura semelhante ao Operador Nacional do Sistema voltada à coordenação dos menores. "Estamos atrasados, mas temos tempo de chegar lá. O Brasil se supera. A gente acha que, às vezes, as coisas demoram a acontecer, mas se você pegar a placa solar, por exemplo, em 2011 praticamente não existia, era um telhadinho ou outro. Isso teve um crescimento exponencial", diz. RAIO-X | Grupo Delta Energia Fundação: dezembro de 2001 Sede: São Paulo Presença: nacional no mercado livre de energia Lucro líquido: empresa de capital fechado, não divulga Clientes: áreas de alimentos e bebidas, varejo e hotelaria Funcionários: 500 Principais concorrentes: empresas dos setores de comercialização e gestão de energia; biocombustíveis, geração solar e térmica. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes.
Mercado livre pode n�o baratear energia em 2028 se distor��es n�o forem corrigidas, diz executivo
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