Mercado de voos 'low cost' encolhe ainda mais no Brasil ap�s sa�da da Flybondi

Mercado de voos 'low cost' encolhe ainda mais no Brasil ap�s sa�da da Flybondi

São Paulo Já diminuto, o mercado de companhias aéreas "low cost" (custo baixo, em inglês) sofreu um novo baque após a saída da argentina Flybondi e viu as operações se concentrarem em três empresas, todas internacionais, com rotas que ligam cidades brasileiras a outros destinos da América Latina. A Flybondi entrou em uma grave crise financeira, que se aprofundou e levou à interrupção nas operações neste ano. Em julho, a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) limitou a comercialização de passagens aéreas da empresa para Florianópolis, Maceió e Salvador. Em agosto, o órgão suspendeu também a venda de novos bilhetes para a rota da companhia que ligava Buenos Aires ao Rio. Aeronave Boeing da FlyBondi após decolagem no aeroporto El Palomar, em Buenos Aires - Mauricio Genta/11.out.18/Wikimedia Commons Segundo a autarquia, entre 1º e 27 de julho, a Flybondi cancelou 79% dos voos registrados. A última operação da companhia argentina registrada pela Anac foi em 19 de agosto. "O acompanhamento realizado pela Anac identificou uma sequência de cancelamentos de voos, redução significativa das operações da empresa no Brasil, divergências entre a programação cadastrada e os voos efetivamente realizados, além do aumento de reclamações de passageiros", disse a agência em julho. A Folha tentou contato com a Flybondi por email, mas não obteve resposta. A companhia aérea demitiu sua equipe de comunicação e seu site está fora do ar. A Flybondi foi lançada em 2018 com a proposta de oferecer viagens mais baratas e replicar o modelo de baixo custo de empresas como a europeia Ryanair e a americana Spirit. No geral, são consideradas low cost companhias que separam, na venda, o serviço principal —ou seja, o transporte aéreo de passageiros— dos serviços acessórios, como alimentação, reserva de assentos e despacho de bagagens, que são cobrados à parte. Tais restrições permitem a essas empresas reduzir o preço do bilhete. A saída da companhia argentina ocorre em um mercado aéreo que segue em expansão, mas enfrenta dificuldades para atrair novas concorrentes. Em 2025, o Brasil transportou 129,6 milhões de passageiros em voos domésticos e internacionais, alta de 9,4% em relação ao ano anterior, segundo a Anac. No segmento internacional, foram 28,4 milhões de passageiros, recorde histórico. O crescimento da demanda, porém, não se traduziu em maior presença de empresas de baixo custo no país. O setor aéreo brasileiro já havia registrado perdas no segmento na última década. Uma delas foi a interrupção das operações da alemã Condor no país. De acordo com os registros da Anac, a empresa atuou no país de março de 2018 a novembro do ano seguinte. Neste ano, a agência reguladora registrou uma única operação da Condor no Brasil, em fevereiro: um voo entre Frankfurt e o Rio de Janeiro. Anteriormente, as rotas operadas pela Condor, considerada como uma low cost pela autarquia, ligavam os terminais de Recife e de Fortaleza a aeroportos da Alemanha, em Frankfurt e em Munique. A Norwegian foi outra aérea de baixo custo que decidiu sair do Brasil. A empresa norueguesa deixou de fazer o trajeto entre o Galeão, no Rio, e o aeroporto Gatwick, em Londres, durante a pandemia. A Anac não estabelece uma classificação oficial para empresas aéreas ou rotas low cost, nem define critérios para esse enquadramento. A expressão é utilizada pelo mercado para as empresas que funcionam a baixo custo operacional e, por isso, ofertam passagem mais barata. Atualmente, o mercado low cost se concentra em rotas operadas pelas empresas chilenas Sky Airline e JetSMART e pela dominicana Arajet. Os trajetos conectam cidades brasileiras a destinos na Argentina, no Chile, no Peru, no Uruguai e na República Dominicana. A falta de low costs se combina a um cenário de alta no preço das passagens aéreas por causa do encarecimento do combustível, cujo preço disparou devido à guerra no Irã. Em setembro, a tarifa aérea real média no país, considerando todas as rotas e todas as empresas, foi de R$ 746,62 por trecho. O resultado representa uma queda de 0,5% na comparação com o mesmo mês de 2025, mas ainda é 1,9% maior em relação a setembro de 2024. Já o preço médio do QAV (combustível de aviação) no período foi de R$ 5,66 por litro, aumento de 54,4% em relação a setembro de 2025 e de 32,5% em comparação com setembro de 2024, em valores atualizados pelo IPCA. André Soutelino, advogado especialista em direito aeronáutico, afirma que o custo Brasil, com alta tributação e combustível caro, impede a atração de novas empresas aéreas para o país. Segundo ele, a desvalorização do real na última década também piorou o cenário, já que os custos das companhias são, em sua maioria, dolarizados. "Cerca de 40% do custo de uma companhia aérea é combustível. A média mundial é de 30%. É muito caro. E fora o custo Brasil, o grande impedimento da entrada de novas companhias aqui", diz. Na opinião de Adalberto Febeliano, especialista em aviação civil, as características do mercado nacional e a própria legislação brasileira são obstáculos para o funcionamento das low costs no Brasil. Ele explica que companhias low cost estrangeiras costumam oferecer passagens mais baratas justamente por causa da cobrança das chamadas receitas auxiliares —isto é, a venda separada de produtos, como marcação de assento, alimentação e check-in no aeroporto. "A empresa, para ser low cost, tem que ter filosofias low cost. Normalmente não tem lugar reservado, não tem preferência para embarcar, tem que fazer check-in remoto, se você faz check-in no aeroporto você paga", afirma. Embora o modelo de baixo custo tenha pouca presença no Brasil, a atuação das empresas estrangeiras se concentra em voos internacionais, nos quais elas disputam passageiros com companhias tradicionais. A expansão desse segmento depende, porém, da capacidade de manter tarifas competitivas em um mercado sujeito à variação cambial e às oscilações do preço do combustível, dois fatores que pesam sobre os custos das operações aéreas.

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