São Paulo O mercado de ETFs está ganhando espaço entre os investidores brasileiros, puxado pela expansão dos produtos de renda fixa. O patrimônio desses fundos passou de R$ 50,3 bilhões em janeiro de 2025 para R$ 136,7 bilhões em agosto de 2026, alta de 172%, segundo a Anbima. Nesse período, os ETFs de renda fixa saltaram de R$ 9,2 bilhões para R$ 68 bilhões e superaram os de renda variável em agosto. Em setembro, no entanto, os ETFs de renda variável voltaram a ficar à frente, com R$ 68,7 bilhões investidos. ETF é um fundo de investimento com cotas negociadas na Bolsa. Em geral, ele busca acompanhar o desempenho de um índice, permitindo ao investidor, com uma única operação, ter exposição a uma carteira de ativos. Em vez de comprar separadamente cada ação que compõe um índice, por exemplo, ele pode adquirir uma cota de um ETF que replica esse indicador. Homem aponta para painel eletrônico da B3, a Bolsa de Valores brasileira, em São Paulo - Amanda Perobelli - 28.out.21/Reuters O movimento ocorre em um cenário de juros ainda elevados, que mantém a renda fixa tradicional atrativa e aumenta a pressão sobre fundos de gestão ativa para entregar retornos que compensem seus custos. Nesse ambiente, o menor custo dos ETFs pode se tornar um diferencial para o investidor. Embora sejam negociados na Bolsa, os ETFs não investem necessariamente em ações. Há produtos que acompanham índices de renda fixa e outros que dão exposição a mercados específicos, como commodities. O QUE EXPLICA O CRESCIMENTO DOS ETFs? A expansão desse mercado está relacionada a uma combinação de fatores, segundo especialistas. Entre eles estão os custos mais baixos em relação aos fundos tradicionais, a facilidade de acesso, a diversificação e, no caso dos ETFs de renda fixa, vantagens tributárias. Para Danilo Jusan, reitor do Ibmec-RJ, o custo está entre os principais fatores para o avanço dos ETFs. Fundos tradicionais cobram taxa de administração e, em alguns casos, taxa de desempenho, que reduzem o retorno da aplicação. Já os ETFs geralmente têm taxas de administração menores. Jusan também destaca a transparência na composição das carteiras. Como os produtos buscam acompanhar índices predefinidos, o investidor consegue identificar com mais facilidade quais ativos fazem parte do fundo. Cauê Mançanares, CEO da Investo, gestora independente de ETFs, afirma que o produto deixou de ficar restrito aos investidores institucionais e passou a ganhar espaço entre pessoas físicas. Segundo ele, hoje predominam investidores de menor tíquete, que usam os ETFs para montar e diversificar a carteira. RENDA FIXA TAMBÉM IMPULSIONA OS ETFs O avanço dos ETFs de renda fixa também tem sido puxado pela maior presença de pessoas físicas e empresas. Segundo Mançanares, a eficiência tributária em relação aos fundos tradicionais ajuda a explicar esse movimento. Nos ETFs de renda fixa, a alíquota de Imposto de Renda varia conforme o prazo médio da carteira: é de 25% para fundos com prazo de até 180 dias, 20% entre 181 e 720 dias e 15% acima de 720 dias. Diferentemente dos fundos tradicionais, não há cobrança de come-cotas nem de IOF (Imposto sobre Operações Financeiras). Nos de renda variável, há cobrança de 15% sobre o ganho líquido na venda das cotas, ou de 20% nas operações de day trade. A apuração e o recolhimento do imposto devem ser feitos pelo investidor, via Darf. O avanço dos ETFs de renda fixa mostra que o crescimento desse mercado não depende apenas da alta da Bolsa. Esses produtos permitem ao investidor comprar uma única cota que reúne diferentes títulos de renda fixa. Com a Selic em 13,75% ao ano, os ETFs de renda fixa também se beneficiam da maior procura por esse tipo de investimento. QUEM ESTÁ INVESTINDO EM ETFS? O número de contas com investimentos em ETFs também nos últimos 21 meses. Segundo a Anbima, havia 1,04 milhão em janeiro de 2025 e 1,81 milhão em agosto de 2026, alta de 74%. Na Investo, a base passou de cerca de 42 mil cotistas no início de 2023 para mais de 300 mil em pouco mais de três anos. Segundo Mançanares, o avanço é estrutural, já que a base continua crescendo mesmo em meses de queda das Bolsas. Para Danilo Jusan, a expansão também reflete a possibilidade de o pequeno investidor acessar uma carteira diversificada sem grandes volumes de recursos. Os ETFs, porém, não eliminam os riscos do mercado, e a diversificação depende da composição do índice. Na Bolsa brasileira, a concentração em um número menor de empresas limita essa vantagem, segundo o especialista. Para ele, isso pode mudar com o crescimento do mercado e a entrada de novas companhias na Bolsa. ETFS ESTÃO TIRANDO ESPAÇO DOS FUNDOS TRADICIONAIS? O patrimônio dos ETFs cresceu 172% desde janeiro de 2025, enquanto a indústria de fundos avançou 21%. Apesar do ritmo mais acelerado, os ETFs ainda têm participação pequena no mercado brasileiro. Em agosto, somavam R$ 136,7 bilhões, pouco mais de 1% dos R$ 11,53 trilhões da indústria. Nos Estados Unidos, onde os ETFs têm uma trajetória mais longa, o mercado é muito maior. No fim de julho, havia 5.590 ETFs no país, com US$ 15,74 trilhões (R$ 81,1 trilhões) em patrimônio, segundo a ETFGI, empresa de pesquisa e consultoria especializada no mercado global de ETFs. No Brasil, eram 225 em setembro, contra 115 em janeiro de 2025, alta de 95%, segundo a Anbima. O número equivale a 4% dos produtos disponíveis nos EUA. Para Danilo Jusan, a diferença está relacionada à cultura de investimentos de cada país. Enquanto os americanos estão mais acostumados a investir em índices amplos, os brasileiros historicamente concentram recursos em renda fixa e fundos tradicionais. Para ele, a queda dos juros pode favorecer a busca por ETFs e outras alternativas de investimento. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes.Na Investo, Mançanares afirma que o crescimento dos ETFs vem principalmente da entrada de novos investidores, e não da migração de recursos dos fundos tradicionais. O produto também tem atraído pessoas que antes concentravam recursos em renda fixa bancária ou poupança e passaram a montar carteiras mais diversificadas. Os ETFs também diferem dos fundos tradicionais na forma de gestão. Nos fundos de gestão ativa, o gestor pode alterar a carteira de acordo com sua estratégia. Já os ETFs brasileiros são fundos de índice que acompanham passivamente um indicador. No exterior, porém, também existem ETFs de gestão ativa. A CVM incluiu a regulamentação desses produtos na Agenda Regulatória de 2026 e prevê uma consulta pública sobre o tema. Embora a regulamentação ainda esteja em discussão, o modelo já começa a aparecer no Brasil. Em agosto, a J.P. Morgan Asset Management lançou o JTEK39, seu segundo ETF ativo listado na B3, após obter uma isenção junto à CVM. Para Mançanares, porém, o principal obstáculo à expansão dos ETFs ainda é a falta de conhecimento sobre o produto. Ele também cita a preferência dos bancos por distribuir produtos próprios e a forte cultura do CDI entre os investidores brasileiros.
Mercado de ETFs ganha for�a no Brasil puxado por fundos de renda fixa
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