São Paulo Em agosto de 1961, ao alugar um teatro na rua Jaceguai, no Bexiga, o grupo Oficina encontrou um galpão sem equipamentos e mobiliário, ao contrário do que os artistas imaginavam. Foi assim, no vazio, o início da história do célebre espaço, transformado diversas vezes até chegar, em 1993, ao projeto arquitetônico de Lina Bo Bardi e Edson Elito, com o palco-passarela e as arquibancadas para o público. Atores em cena da montagem de 'Senhora dos Afogados', com direção de Monique Gardenberg, no Teatro Oficina - Giovana Pasquini/Divulgação Pelo terceiro ano consecutivo, o Oficina é o campeão na categoria experimental, segundo a escolha feita pelo júri da Folha. A premiação chega no momento em que a companhia criada por José Celso Martinez Corrêa, Renato Borghi e Amir Haddad, entre outros artistas, se prepara para comemorar os 70 anos, em 2028. Uma parte da celebração já começou por meio de visitas guiadas realizadas em dois endereços: a sede do teatro, que pode ser percorrida à luz do dia, ao lado de representantes da trupe; e a casa de acervo, na vizinhança, um local que guarda 3.000 peças, entre figurinos, cenários e objetos de montagens do grupo histórico. O ingresso vale meia-entrada para assistir a uma peça no Oficina. Neste domingo (1º), a visita ao teatro tem como tema o encontro de Lina Bo Bardi e o Teatro Oficina a partir de "As Bacantes", espetáculo que inspirou a arquiteta; e também a peça "Ham-let", montagem que reinaugurou o edifício icônico em 1993, ainda inacabado. Em entrevista à Folha sobre o sucesso do espetáculo de reinauguração, Zé Celso disse, em 1994, que havia um ceticismo sobre "Ham-let" devido às quatro horas e meia de duração, ao som e à luz inicialmente precários e a uma maldição em torno da suposta falta de conforto dos bancos criados pela arquiteta para o público. Na definição dele, os bancos são maravilhosos e cúmplices de uma posição ativa do corpo durante a apresentação dos espetáculos. Ninguém sai do Oficina do mesmo jeito que entrou, é fato. "Nós não só abrimos o teatro, como consolidamos uma companhia voltada para esse tipo de trabalho", disse o diretor na ocasião. O Oficina segue intenso depois da morte do encenador, aos 86 anos, em 2023, após um trágico incêndio em seu apartamento. Em dias alternados, duas peças estão em cartaz: o musical "Rasga Coração", dirigido por Felipe Botelho e Roderick Himeros, e a peça "O Ovo e a Galinha", em que a atriz Ana Hartmann interpreta Clarice Lispector quando a escritora leu o conto homônimo no 1º Simpósio de Bruxaria de Bogotá, na Colômbia, em 1975. Entre setembro e o início de outubro deste ano, uma parte da arquitetura do teatro foi recriada no Galpão Ação e Cidadania, na região portuária do Rio de Janeiro, para a encenação de "Senhora dos Afogados", de Nelson Rodrigues, com 24 artistas em cena. Após temporadas esgotadas em São Paulo, a peça dirigida por Monique Gardenberg foi vista no Rio por personalidades como Caetano Veloso, Fernanda Torres e Fernanda Montenegro. Aos 96 anos, a atriz definiu o espetáculo como um reencontro de sonhos. Escrita em 1947, a dramaturgia mergulha no inconsciente familiar e cria uma tragédia brasileira marcada por paixões, mortes e desejos incestuosos. A montagem, protagonizada por Leona Cavalli e Marcelo Drummond, fez uma homenagem a Zé Celso. A imagem do criador e muso do Oficina aparecia em todas as sessões em um telão, no final dos espetáculos, para ser aplaudida e emocionar a todos os presentes. Teatro Oficina O Ovo e a Galinha. Seg. e ter., às 20h. Ingr.: R$ 100 Rasga Coração. Sex. e sáb., às 20h. Dom., às 19h. Ingr.: R$ 100 R. Jaceguai, 520, Bela Vista, região central. @oficinauzynauzona. tel. (11) 3106-2818
Melhor teatro experimental, Oficina faz visitas guiadas e abre acervo
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