Os filmes de Ana Luiza Azevedo costumam ser construídos sobre a noção de ausência. Foi assim em "Três Minutos", de 1999, curta clássico que termina sobre um telefone público que toca num descampado sem que ninguém o atenda. Depois, no magnífico "Aos Olhos de Ernesto", de 2019, que fechou as duas décadas especiais do cinema brasileiro logo antes da pandemia, tudo gira em torno de um homem já cego que mora sozinho para não ter de se mudar de Porto Alegre para São Paulo, como quer o filho. Em seu novo filme, "Medley", Azevedo trata de uma jovem nadadora, Lola, papel de Mel Maia, cujo pai desapareceu ainda na sua infância. Embora campeã nas piscinas, Lola sente profundamente a ausência do pai e se desentende cotidianamente com a mãe, vivida por Mariana Lima, uma professora que vive afundada em provas, aulas e outros problemas de seus alunos. Lola sente-se, para resumir, solitária, não amada e perdida afetivamente. Claro, a piscina é um lugar de solidão, o que o filme, por sinal, não explora. Após um desentendimento com a mãe, ela vai para uma cidade do interior do Rio de Janeiro, para ficar na casa de um tio. O tio está viajando e ela fica sozinha num sítio, cercada pela natureza. É um filme sobre problemas da adolescência, feito para adolescentes. Um gênero difícil, como demonstra o belo "O Último Episódio", de Maurilio Martins, lançado em São Paulo no cinema do Instituto Moreira Salles, o que é quase um contrassenso. "Medley" é menos interessante, na medida em que, depois de um belo início, sobre o desentendimento entre mãe e filha, afunda-se em mais ou menos todas as convenções do filme juvenil –o flerte, o ciúme, a rivalidade com outra garota etc. Ao sucesso como esportista corresponde o desengano pessoal. Ela continua a sentir-se rejeitada pelo mundo. Como obrigam as leis do roteiro, tudo evolui para um suspense final, um tanto postiço, e para um final feliz contestável. Por que Azevedo, que em seus melhores momentos –inclusive dentro do filme– rejeita as convenções narrativas em favor do vivido, optou desta vez por um fim banal para uma trama idem? Eis o mistério real deste "Medley". Até haveria outros elementos a explorar, como o fato de a natureza ser suntuosa em torno do sítio em que Lola vai morar, mas permanecer apenas como um elo entre a própria Lola e a existência. O final é um problema, é certo, mas François Truffaut já havia dado a senha para os filmes sobre adolescentes problemáticos: um final infeliz é arbitrário, um final feliz não faz sentido. A adolescência é um momento de aprendizado, muitas vezes difícil, mas não insuperável. Bem, Azevedo optou por um suspense mercadológico, com um fim em que se desvenda o mistério da vida de Lola –cadê meu pai! Se a singeleza do todo é um tanto decepcionante, digamos que isso se dá entre outras coisas porque a obra anterior da cineasta colocou a barra no alto. O que se espera dela são cenas como a ruptura entre mãe e filha, que nos permitem conhecer ambas e evitam os sentimentalismos que virão posteriormente. Na trama, quase tudo é convenção, como a nadadora rival, enciumada com o sucesso da recém-chegada à cidade. Aliás, que cidade? Onde fica a praça, a matriz, a câmara, o museu? A cidade inexiste, pois tudo gira em torno da trama e do trauma. E Azevedo, que com umas poucas ruas recriou Porto Alegre em "Aos Olhos de Ernesto", desta vez parece interessada apenas naquilo que satisfaça à evolução da trama, isto é, às convenções. "Medley" acaba sendo um sobrevoo em vez de um mergulho sincero sobre as questões da adolescência. Mesmo que frouxo em relação ao trabalho anterior da cineasta, este filme é um bom indicativo de que seguir manuais de roteiro –americanos em geral– não leva a criar nada verdadeiro. E nem tem a vantagem de se comunicar com o seu público-alvo de maneira fluente. É, antes, uma talentosa demonstração de que a mágica das fórmulas não substitui a inteligência, a intuição e a experiência de quem se responsabiliza pelo resultado do filme.
'Medley' faz Ana Lu�za Azevedo se afundar em cl�ssica trama juvenil
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