Eram 11h30 de 31 de janeiro quando um Jeep branco fechou o furgão que levava R$ 971,7 mil em medicamentos oncológicos pela Linha Vermelha, próximo ao aeroporto do Galeão. Um homem armado saiu do banco traseiro, rendeu o motorista e ordenou que ele seguisse o carro. "Se não cooperar, vai morrer", ouviu, segundo seu depoimento à polícia. Levado para o Complexo da Maré, o motorista se deparou com cerca de 15 homens encapuzados. Cerca de 40 isopores de medicamentos foram retirados em aproximadamente dez minutos. Ele foi liberado, mas antes recebeu uma proposta para dar informações privilegiadas sobre cargas, o que negou. O que parecia mais um roubo de carga se transformaria na ponta de uma investigação sobre um mercado clandestino de medicamentos de alto valor. Em julho, a Polícia Civil realizou a operação Metástase contra uma organização suspeita de roubar medicamentos oncológicos e imunossupressores e revendê-los com apoio armado do Terceiro Comando Puro. O episódio também ajuda a dimensionar uma mudança no mercado de roubo de cargas. Medicamentos deixaram de ser uma carga secundária e passaram a figurar entre os alvos de maior valor. No primeiro trimestre de 2026, responderam por 22,3% dos prejuízos provocados por roubos de carga nas operações monitoradas pelas gerenciadoras de risco BRK, Buonny e Opentech, segundo levantamento da Nstech. Um ano antes, representavam apenas 1,7%. Entre as cargas de maior valor, acima de R$ 1 milhão, que já concentram 40,4% de todo o prejuízo avaliado nessas operações do trimestre, os medicamentos responderam por 44,4% desse montante. Para o delegado Luiz Eduardo Moura, da DRFC (Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas), o que diferencia os remédios de cargas como eletrônicos ou cigarros é a combinação de três fatores. O primeiro é o valor por unidade de carga, muito acima de qualquer outra mercadoria comumente roubada. "Um caminhão carregado desse tipo de medicamento pode valer, em poucos metros cúbicos, o equivalente a dezenas de caminhões de eletrônicos ou centenas de caminhões de cigarro", disse. De acordo com o delegado, um único frasco do medicamento Keytruda varia de R$ 12.800 a R$ 17.000, e uma unidade de Calquence chegou a ser avaliada, na base consolidada da investigação, em R$ 34.546,91. O segundo fator é o comprador final. Diferentemente de outros produtos, revendidos no mercado paralelo com deságio, o medicamento roubado tem como destino hospitais, cooperativas médicas e pacientes em tratamento, dispostos a pagar preço de mercado. Para o investigador, "o medicamento roubado pode ser reintroduzido no mercado formal por meio de distribuidoras de fachada e notas fiscais frias." Por fim, há a fragilidade da rastreabilidade do produto. O Sistema Nacional de Controle de Medicamentos continua em vigor, mas uma lei de 2022 extinguiu o banco de dados centralizado que a Anvisa mantinha sobre a movimentação de medicamentos no país e transferiu a obrigação de rastreamento para os próprios laboratórios: cada detentor de registro passou a manter sistema próprio, gerando mapas de distribuição por lote, com dados de fabricação, validade e destinatários das remessas, sem comunicação centralizada ao governo federal. "Com isso, o modelo de rastreabilidade que previa o acompanhamento eletrônico das movimentações de cada medicamento ao longo da cadeia não está em vigor", afirmou Camilo Carvalho, presidente do CRF/RJ (Conselho Regional de Farmácia do Estado do Rio de Janeiro). Para Carvalho, mesmo quando um lote roubado é comunicado à Anvisa, isso não garante o bloqueio físico das unidades desviadas: "Uma indústria pode produzir milhares de unidades de um mesmo lote, que posteriormente são distribuídas para diferentes transportadoras, distribuidoras e estabelecimentos. Se apenas parte daquela carga for roubada, identificar exatamente quais unidades daquele lote foram desviadas pode ser muito difícil." Segundo ele, um medicamento roubado, mesmo se recuperado, não pode voltar ao mercado: "Ele deve ser descartado e incinerado." O Instituto de Segurança Pública registrou 2.035 roubos de carga no estado entre janeiro e agosto de 2026, 3% a mais que no mesmo período de 2025. Cinco áreas concentraram 60,88% dos registros. As áreas de maior concentração formam um corredor que passa por Duque de Caxias, a Baixada Fluminense, a zona norte e a Maré, eixo em que o motorista do furgão foi interceptado. De acordo com Fetranscarga (Federação do Transporte de Cargas do Estado do Rio de Janeiro), o Rio de Janeiro registrou aumento do roubo de cargas no início do ano, ao contrário da tendência nacional. "Por conta desse aumento registramos um 'sinal de alerta' e uma tendência dos roubadores de carga pois houve aumento expressivo nos meses de março e abril de 2026". Ainda de acordo com a federação, é necessário "mais ações estruturais e operacionais". "As empresas de transportes de cargas estão investindo, cada vez mais, em tecnologia, rastreamento, monitoramento, bloqueio de veículos, análise de rotas e protocolos específicos para cargas de alto valor", disse, em nota a federação. "As gerenciadoras de risco estão mantendo as suas operações em constante atualização de suas matrizes de risco como: valor, rota, histórico e características da carga, utilizando rastreamento, telemetria e controle de rotas", acrescentou. A Polícia Militar diz que o eixo Caxias-Baixada-Maré concentra os entroncamentos das rodovias Washington Luís, Presidente Dutra e a avenida Brasil, o que ajudaria a explicar a concentração de roubos na região. Desde 1º de setembro, o Rio atua na operação Divisas, coordenada pela Senasp nas fronteiras do estado com Espírito Santo, Minas Gerais e São Paulo, com o objetivo de reprimir o roubo de carga e a circulação de material ilícito, segundo a Secretaria de Estado de Segurança Pública do Rio de Janeiro. Entre 1º e 13 de setembro, foram abordados 3.068 veículos e 4.169 pessoas, e houve a apreensão de 842 litros de bebidas alcoólicas sem procedência. Em Minas Gerais, a Polícia Civil afirmou que no caso específico de medicamentos, a atuação dos órgãos competentes inclui a investigação de cadeias de importação, distribuição e comercialização ilegal desses produtos, inclusive quando ofertados pela internet ou em estabelecimentos irregulares. Na Bahia, a Operação Papa-Léguas, iniciada contra uma quadrilha que atuava na BR-101, ilustra outra frente do combate ao roubo de cargas. Segundo o delegado Rodrigo Fernando, da Delegacia Territorial de Ibirapitanga, as investigações apontam a participação de funcionários de empresas de transporte que repassavam informações sobre a logística. Durante as prisões dos envolvidos na operação Metástase, policiais encontraram medicamentos armazenados irregularmente, incluindo quimioterápicos, insulinas e antibióticos. A polícia suspeita que os produtos roubados fossem reinseridos no mercado por empresas intermediárias. Uma delas chegou a apresentar proposta de R$ 36,25 mil ao Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba. O caso segue em investigação. O CRF/RJ informou não ter recebido, até o momento, comunicação sobre casos concretos de medicamento roubado identificado em tentativa de revenda a hospitais no Rio de Janeiro ou em outros estados.
Medicamentos de alto valor atraem quadrilhas e fac��o e muda mercado de roubo de cargas
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