Matem�tico Terence Tao diz estar em estado de guerra ap�s an�ncios da OpenAI

Matem�tico Terence Tao diz estar em estado de guerra ap�s an�ncios da OpenAI

"Estou em estado de guerra", disse Terence Tao, 51, que costuma ser descrito como um dos maiores matemáticos do mundo. Ele fez a afirmação enquanto pegava um café em meio a um workshop na UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles), nos EUA, permeado por conversas sobre a crise existencial em que a matemática mergulhou devido à inteligência artificial. Dias antes, a OpenAI havia anunciado a solução do problema de Navier-Stokes, 1 dos 7 Problemas do Milênio, que vinham desafiando as maiores mentes da matemática havia quase um século. "Não há mais regras", afirmou Tao, em uma entrevista antes do workshop, em seu escritório no campus da UCLA. Ele trabalha ali desde 1996, quando chegou após concluir o doutorado na Universidade de Princeton aos 20 anos. "Já estou insensível ao que, um ano atrás, teria me deixado de queixo caído. Em algum momento, talvez eu seja atingido por uma onda avassaladora de transtorno de estresse pós-traumático." Em vez disso, Tao foi atingido por uma bomba ainda maior no dia 6 deste mês, quando a OpenAI divulgou mais de 350 descobertas em praticamente todas as subáreas matemáticas. Matemáticos atônitos —alguns deles perto de resolver problemas nos quais trabalhavam havia anos— viram-se superados em um instante pela IA. Professor titular desde os 24 anos, Tao afirmou que acadêmicos experientes como ele não se sentem tão ameaçados pela IA quanto aqueles que estão começando. Mas o mundo da matemática espera respostas dele —ele aceitou que seu prestígio o transformou em um porta-voz não oficial da área, função que, por enquanto, consome a maior parte de seu tempo. Até recentemente, seu trabalho consistia em servir de ponte entre o lento mundo da matemática avançada e a velocidade vertiginosa da IA. Tao, que usa a IA como assistente para fazer cálculos, escrever códigos, vasculhar acervos bibliográficos e desenvolver ideias, vem fazendo experimentos com os modelos da OpenAI desde 2023. Ele era entusiasta de um futuro que reunisse "o melhor dos dois mundos". Mas os anúncios recentes de descobertas atribuídas à IA fizeram com que se sentisse usado. "Até um ano atrás, eu tinha uma relação muito boa com muitos funcionários da OpenAI", disse ele em uma conversa recente por telefone. "Muitas das pessoas com quem interagi compartilhavam uma visão bastante comum de como a IA deveria ser utilizada para dar mais recursos aos cientistas." Mas, na avaliação dele, a pressa em publicar novas descobertas revela o verdadeiro propósito da empresa. "[Eles ] usaram a matemática para o que precisavam, que era avaliar seus modelos. A esta altura, não vejo como manter um diálogo construtivo." Sua indignação ficou evidente em uma publicação no popular blog de matemática Proofs and Prompts, após o anúncio da OpenAI no início deste mês. "Estou horrorizado com tantos anos de trabalho" de pesquisa, sobretudo de jovens matemáticos, "sendo displicentemente prejudicados ou destruídos", escreveu. "Assim como não é possível deixar de saber um spoiler de filme ou uma pista de palavras cruzadas depois de ouvi-los, também não se pode explorar um problema de maneira tão proveitosa e rica quando já se conhece uma solução." Ele lamentou ainda "o caminho não trilhado e as oportunidades perdidas na corrida desenfreada para desenvolver essa tecnologia". Tanto arte quanto ciência No cerne da crise na matemática está uma questão inquietante. Se resolver problemas difíceis é uma das missões da área, o que acontece quando as máquinas conseguem fazer isso mais rápido? Grande parte da matemática avançada —contratações, promoções, formação de pós-graduandos e reconhecimento— baseia-se na dificuldade, na qualidade e no impacto dos artigos (documentos escritos que explicam demonstrações) produzidos por um matemático. O consenso é que a resolução de problemas com o auxílio da IA é o futuro inevitável. No entanto, ninguém sabe exatamente como será esse novo mundo. "Uma profunda incerteza persistirá nos próximos anos", concluiu, no mês passado, a versão preliminar de um relatório elaborado por um grupo de matemáticos reunidos na Universidade Harvard para discutir a formação no doutorado. A IA de fato oferece "novas e empolgantes possibilidades", diz o relatório. Porém, as páginas do documento deixam implícito um sentimento de perda entre aqueles que se sentem atraídos pela matemática pela aventura intelectual de resolver problemas —muitas vezes profundamente frustrante, por vezes emocionante e eufórica quando uma descoberta pessoal leva a um avanço na área. "Você já teve epifanias, não é?", perguntou em uma entrevista Ravi Vakil, renomado matemático da Universidade Stanford e presidente da Sociedade Americana de Matemática. "De repente, tudo na sala fica claro." A matemática teórica, ou "pura" —a área de Tao—, é apreciada tanto por sua arte quanto por sua ciência. Seu principal objetivo é ampliar a compreensão da própria vastidão da matemática. Ao contrário dos matemáticos aplicados, que em geral abraçaram o poder da IA para ajudá-los a resolver problemas práticos de engenharia, finanças, previsão do tempo e outras ciências, os matemáticos puros estudam formas, estruturas, números e conceitos abstratos. Ainda assim, a matemática pura acabou levando, entre muitos outros avanços, à criação da internet, dos microchips, do GPS, da segurança cibernética, da criptografia, da tomografia computadorizada e de outros procedimentos médicos. Em 2006, Tao e três colaboradores criaram a teoria matemática da amostragem compressiva, que reduziu o tempo necessário para realizar exames de ressonância magnética. Hoje, esses exames podem produzir imagens em tempo real do coração batendo, e muitas crianças podem ser examinadas sem sedação. ‘Gritando por socorro’ Ele pode até dizer que está pronto para a batalha, mas Tao está longe de passar a imagem de um guerreiro. Em seu escritório, falou em voz baixa, com um cadenciado sotaque australiano, mostrou-se autodepreciativo, por vezes engraçado, incomodado com a relação que um dia teve com a OpenAI e muito distante do estereótipo do gênio da matemática atormentado e taciturno. Vestia jeans desbotados e uma camisa polo folgada. Um quadro-negro que ocupava quase toda a extensão da sala estava coberto de cálculos feitos por Ben Goldman, 1 de seus 3 atuais alunos de doutorado. Perto dali estava a bicicleta com a qual havia ido ao trabalho, com o almoço dentro de uma sacola plástica presa ao bagageiro sobre a roda traseira. "São sobras de três dias atrás", disse Tao. Tao passa grande parte do tempo no que chama de organização comunitária —reunindo grupos de matemáticos, traçando estratégias, respondendo à imprensa, dando palestras sobre IA e oferecendo conselhos. "É alguém gritando por ajuda. Não posso ajudar porque não tenho tempo nem disponibilidade, mas posso indicar outra pessoa com quem ela possa conversar." Seu blog, criado há 20 anos, tornou-se a principal referência do mundo da matemática, cada vez mais repleto de textos de convidados, mas também de anotações das aulas de pós-graduação que ele ministra e de notícias de última hora sobre matemática. No dia em que publicou uma declaração —assinada por ele e por outros 24 ganhadores da Medalha Fields— que classificava a matemática da OpenAI como prejudicial à área, seu blog chegou a 100 mil visualizações. Seu jeito descontraído desapareceu quando falou sobre a participação em um vídeo promocional da OpenAI no início deste ano. A história teve origem na suspensão, pelo governo Donald Trump, de US$ 600 milhões em verbas de pesquisa destinadas à UCLA no ano passado, o que ameaçou a existência do Instituto de Matemática Pura e Aplicada da universidade, onde Tao é diretor de projetos especiais. Tao procurou a OpenAI como parte de uma campanha emergencial de arrecadação de fundos, e o laboratório concordou em patrocinar um workshop no instituto por um valor que, segundo o matemático, ficou entre US$ 60 mil e US$ 70 mil. O evento foi realizado em março, quando a OpenAI gravou uma entrevista de uma hora na qual Tao falou sobre os benefícios e os riscos da IA. Ele esperava que o vídeo completo fosse publicado. Em vez disso, a OpenAI o reduziu a um minuto: "Acho que ela está pronta para o horário nobre", diz Tao sobre a IA, enquanto escreve rapidamente em um quadro-negro e uma trilha sonora de música alegre parece incentivá-lo. O matemático reconheceu em seu blog que havia dado à OpenAI permissão para usar o anúncio. Mas, em retrospecto, escreveu, deveria ter "resistido com mais firmeza". Laurance Fauconnet, porta-voz da OpenAI, afirmou em um comunicado que "valorizamos nosso diálogo com Terence e com a comunidade matemática em geral". Segundo ela, o laboratório está "trabalhando com a comunidade para transformar os avanços em inteligência artificial em uma compreensão humana mais profunda e em novas descobertas, e continuaremos a levar em conta suas contribuições". Tao não ficou impressionado com a redação da demonstração da OpenAI para o problema de Navier-Stokes. "Tecnicamente, dá para ler. Mas nenhum especialista com quem conversei conseguiu compreender todo o argumento." Ele afirmou que a redação melhorou na versão mais recente, embora a tenha classificado como irregular. Segundo ele, alguns artigos citaram seu trabalho de maneira adequada e pareciam tê-lo desenvolvido de uma forma que considerou plausível. Ainda assim, "não há um autor com quem eu possa ter uma conversa de verdade sobre os resultados". No mês passado, Tao já sabia que a OpenAI preparava o lançamento de 6 de outubro e, na época, chamou os resultados que viriam de "resíduo tóxico". Agora, ele os chama de "talvez resíduo tratado". Sessões de terapia Para Tao, os próximos anos exigirão a reinvenção da matemática —ou, pelo menos, do ensino da matemática. O relatório de Harvard recomendou, em essência, que a matemática se tornasse mais centrada nas pessoas: os títulos de doutorado não deveriam ser concedidos principalmente com base no texto de uma tese, como ocorre hoje, e sim em uma defesa presencial rigorosa. Os alunos deveriam demonstrar regularmente aos professores que são capazes de falar com fluência sobre seu trabalho. Tao foi além recentemente, ao apresentar o que considera ser o futuro da matemática em uma palestra no Instituto de Tecnologia da Califórnia. Segundo ele, apesar dos lançamentos da OpenAI, a maioria dos problemas nas fronteiras da matemática continua sem solução; a matemática permanece infinita e, portanto, a dificuldade dos problemas não tem limites. Como a IA deu aos matemáticos a capacidade de coletar dados em uma escala tão vasta, eles trabalharão cada vez mais em grandes grupos, colaborando em projetos antes inimagináveis. Tao, que se reúne com cada um de seus três alunos uma vez por semana, disse que cada encontro é "cada vez mais uma sessão de terapia do que uma orientação técnica". Sua resposta a eles é que, "se você se concentrar apenas nas coisas que conseguia fazer antes, o cenário parece desolador". Por isso, ele tem oferecido esperança por meio de conselhos que equivalem mais a uma aceitação nascida da necessidade do que a travar uma guerra. Resolver problemas não é um destino, mas uma jornada, e as lições aprendidas ao longo do caminho muitas vezes são mais importantes do que a própria resposta. Em vez de resolverem um único problema por conta própria, eles podem usar a IA para resolver dez problemas, identificar novos padrões e descobrir novas perguntas a fazer. "Eles terão de usar a imaginação", disse ele. "Este é um momento para a criatividade, e espero que os alunos estejam à altura do desafio. Eles não pediram por isso. Mas acho que muitos deles vão nos surpreender."

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