O novo El Niño ainda está a milhares de quilômetros da costa brasileira, mas seus efeitos já começam a mobilizar governos, especialistas e setores econômicos. A Noaa, agência oceânica e atmosférica dos Estados Unidos, confirmou recentemente a formação do fenômeno e estima 63% de probabilidade de que ele atinja intensidade muito forte entre o fim de 2026 e o início de 2027. Para o Brasil, a pergunta decisiva é como seus efeitos encontrarão um país profundamente desigual, urbanizado e vulnerável a enchentes, deslizamentos, secas e crises hídricas. Sua economia é altamente dependente do clima e dos recursos naturais, tanto para a produção agropecuária quanto para a geração de energia. E a resposta para essa questão passa necessariamente pela mata atlântica. O bioma ocupa cerca de 15% do território nacional, está presente em 17 estados e abriga mais de 70% da população brasileira. É também onde se concentra grande parte da infraestrutura econômica do país, metade da produção agropecuária e de alimentos e 9 das 12 regiões hidrográficas brasileiras. Quando eventos climáticos extremos acontecem, causam grandes impactos justamente na região onde vivem, trabalham e circulam a maioria dos brasileiros. Costumamos tratar a floresta como patrimônio ambiental ou reserva de biodiversidade. Ela também é isso, mas exerce uma função menos visível e igualmente estratégica: atua como um sistema natural de proteção e adaptação. A mata atlântica é uma das nossas linhas de defesa climática. Florestas ajudam a regular a temperatura, protegem nascentes, favorecem a infiltração da água no solo, reduzem processos erosivos e contribuem para a estabilidade de encostas. Em períodos de chuva intensa, amortece o escoamento superficial que alimenta enchentes e deslizamentos. Em estiagens, colaboram para manter a disponibilidade hídrica. Não impedem eventos extremos, mas diminuem sua capacidade de causar danos e aumentam a velocidade para se recuperar. Mas a mata atlântica chega a este novo ciclo de extremos climáticos muito fragmentada. Restam cerca de 24% de sua cobertura florestal original, sendo que pouco mais da metade disso (12,4%), corresponde a florestas maduras, justamente as áreas de maior importância para a biodiversidade e o estoque de carbono. A boa notícia é que há sinais de resposta. Em 2025, o SAD (Sistemas de Alertas de Desmatamento) Mata Atlântica registrou queda de 28% no desmatamento, de 53.303 para 38.385 hectares. O Atlas dos Remanescentes Florestais, feito pela SOS Mata Atlântica e pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), apontou redução de 40% na supressão de florestas maduras, que ficou abaixo de 10 mil hectares anuais pela primeira vez em quatro décadas. Essa trajetória, porém, não elimina o risco. A fragmentação reduz a capacidade da floresta de exercer plenamente seus serviços ecossistêmicos e torna os territórios mais vulneráveis. O desafio, além de evitar novos desmatamentos, é reconstruir conexões ecológicas e restaurar áreas estratégicas para água, clima e proteção da população. Exemplos recentes mostram como essa discussão deixou de ser exclusivamente ambiental. As enchentes históricas do Rio Grande do Sul em 2024 afetaram 2,4 milhões de pessoas, expondo a combinação entre eventos extremos, ocupação vulnerável do território e perda de áreas naturais capazes de amortecer impactos. A adaptação climática, portanto, já faz parte das decisões que precisam ser tomadas hoje. A forma como protegemos rios, restauramos florestas e planejamos o uso do território ajudará a definir tanto a saúde dos ecossistemas quanto a capacidade das cidades brasileiras de enfrentar um clima mais instável. Se não podemos controlar o aquecimento das águas do Pacífico, podemos fortalecer nossa capacidade de resposta aos seus efeitos. E, para isso, é essencial enxergar a mata atlântica como parte essencial de uma infraestrutura que sustenta a segurança hídrica, climática e econômica do país. O próximo El Niño será medido por satélites, sensores oceânicos e modelos climáticos. Seus impactos, porém, serão medidos nas cidades, nos rios, nos reservatórios, nas áreas rurais e na vida das pessoas. E a condição da mata atlântica ajudará a determinar o tamanho dessa conta. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Mata atl�ntica � a primeira linha de defesa clim�tica contra o El Ni�o
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.