[RESUMO] O texto apresenta a recepção da obra do filósofo marxista Mark Fisher no Brasil e articula sua trajetória intelectual, de "Realismo Capitalista" a "O Estranho e o Sinistro", seu livro mais recente publicado no país. A autora argumenta, com comentadores, que Fisher une cultura pop e sofrimento psíquico em sua crítica anticapitalista. Traz ainda a ideia de assombro e futuros perdidos como chave de leitura de sua teoria. Numa quarta-feira de maio em São Paulo, algumas dezenas de pessoas lotaram a pista do Sol Y Sombra, uma casa de temática latino-americana no Bixiga, para assistir a um filme sobre o filósofo britânico Mark Fisher. Antes do início da exibição, uma das organizadoras da sessão, promovida pelo Berta Coletivo Latinoamericanista, contou que o longa foi cedido gratuitamente pelos diretores. Uma espécie de misto entre documentário e ficção, "We Are Making a Film About Mark Fisher" conta a história do autor marxista que, em 2009, lançou o renomado "Realismo Capitalista" —uma espécie de manifesto que questiona a incapacidade da esquerda britânica de imaginar futuros para além do capitalismo. Inicialmente recebido de forma discreta por público e crítica, o livro virou um clássico contemporâneo para a esquerda mundialmente —e, recentemente, Fisher vem se tornando um autor lido e discutido também no Brasil. Só neste ano, duas traduções de trabalhos seus foram lançadas por editoras brasileiras: "O Estranho e o Sinistro", pela Autonomia Literária, e "Constructos Flatline - Materialismo Gótico e Ficção Teórica cibernética", pela Ubu. Aluno da Universidade de Hull, Fisher se formou em inglês e filosofia no final dos anos 1980, vivendo sua juventude em meio à cena pós-punk que borbulhava na Inglaterra. Em 1995, foi um dos fundadores do Cybernetic Culture Research Unit, um grupo de pesquisa experimental que se dissolveu nos anos 2000. Entre aulas em universidades e seu blog de crítica musical, chamado k-punk, o legado de Fisher ficou consolidado nos três livros de sua autoria. Com uma escrita acessível e direta, sem muitas firulas acadêmicas, o filósofo hoje chama a atenção de uma juventude politizada por frequentemente partir de temas como cultura pop e saúde mental para chegar à sua tese anticapitalista. Nos últimos anos, tornou-se ponto de referência para pesquisadores como o psicanalista Christian Dunker e virou letra do grupo de rap experimental carioca Crizin da ZO. O britânico morreu há quase 10 anos, em janeiro de 2017, aos 48. Três anos depois, a editora independente Autonomia Literária lançou a primeira tradução em português de "Realismo Capitalista", com o subtítulo: "É Mais Fácil Imaginar o Fim do Mundo do que o Fim do Capitalismo?". Após a sessão no Sol Y Sombra, em maio deste ano, houve um debate sobre o livro "Imaginações Pós-Capitalistas", organizado por três acadêmicos brasileiros interessados em responder à pergunta implícita no trabalho do autor. Também neste ano, em março, a Autonomia Literária lançou a tradução do último trabalho que Fisher concluiu em vida. O livro foi batizado, em português, de "O Estranho e o Sinistro" pelo psicanalista Rodrigo Gonsalves, que entrou em contato com a obra de Fisher pela primeira vez por uma recomendação de Slavoj Zizek. Na época, Gonsalves morava na Suíça e fazia doutorado sob orientação do filósofo esloveno. "O Estranho e o Sinistro" parte de uma crítica ao "infamiliar" em Freud para formar os conceitos presentes no título. Falando sobre filmes de terror e contos de ficção científica, Fisher classifica o "estranho" e o "sinistro" como experiências estéticas. Mesmo antes da publicação deste livro, que saiu algumas semanas depois de sua morte, o autor já se interessava por elementos sobrenaturais; sua tese de doutoramento discutia o mesmo conceito de Freud. "Fui me identificando com o processo de pensamento dele. Acho important e discutir vampiros, zumbis, essas coisas mortas-vivas que assombram o nosso dia a dia", diz Gonsalves. O psicanalista, que também foi o responsável por verter "Realismo Capitalista" para o português do Brasil, começou traduzindo os textos de Fisher por conta própria e disponibilizando-os na internet. O primeiro foi "Impotência Reflexiva", capítulo de "Realismo" que foi publicado originalmente no k-punk. O filósofo não tinha um contato formal com psicologia e psicanálise, mas saúde mental era um de seus tópicos favoritos. Em "Impotência Reflexiva", ele fala sobre como os estudantes britânicos, sob a crise governamental de Tony Blair, estavam "resignados ao seu destino"; sabiam que as coisas estavam ruins, mas já não acreditavam mais que seriam capazes de mudá-las. No texto, publicado no blog em abril de 2006, ele cita o então recente sucesso da banda indie Arctic Monkeys como um exemplo da apatia da juventude britânica —ligando a nostalgia estética à falta de imaginação política. "Fisher era alguém que colocou a saúde mental de uma forma que as pessoas não pensavam antes, que é completamente ligada ao nosso sistema econômico, e discutiu como as políticas públicas estão diretamente vinculadas ao nosso sofrer subjetivo", diz Gonsalves. "Ele fez essa ideia amadurecer de um jeito que renovou argumentos marxistas para toda uma nova geração." Um dos escritos sobre saúde mental mais pungentes de Fisher é "Nenhum Prazer", texto sobre o grupo Joy Division que faz parte de seu segundo livro, "Fantasmas da Minha Vida" (publicado no Brasil pela Autonomia Literária, em 2022). Também adaptado de um artigo do k-punk, "Nenhum Prazer" discute a curta e impactante trajetória da banda e de seu atormentado vocalista, Ian Curtis, para tecer um comentário certeiro sobre a natureza da depressão. Nas entrelinhas, Fisher discute a própria doença —o britânico sofreu de depressão desde a adolescência. "Para o depressivo, os hábitos do antigo mundo da vida agora parecem ser, precisamente, um modo de encenação, uma série de gestos maquiados, que não são mais capazes de representar e que não querem mais representar —não adianta, tudo é uma farsa", escreve. "Fantasmas", originalmente publicado em 2014, surpreendeu quem conhecia o autor só por "Realismo Capitalista" ao mostrar seu lado crítico cultural. Àquela altura, Fisher, apesar de não ter estudo formal como jornalista, já escrevia resenhas e textos críticos para a revista musical britânica The Wire. "Na época, eu trabalhava como jornalista de música e tinha esse costume de olhar quem eram os autores dos textos de que eu gostava", diz Amauri Gonzo, jornalista e tradutor, responsável pelo texto de apresentação da edição brasileira de "Fantasmas". "O [jornalista] Simon Reynolds era um dos motivos pelos quais eu lia a Wire, e comecei a reparar que o trabalho do Mark Fisher conversava muito com o dele." Tudo a Ler Receba no seu email uma seleção com lançamentos, clássicos e curiosidades literárias Reynolds, um dos críticos musicais mais importantes de sua geração, e Fisher eram colegas e amigos, um contato que começou em seus respectivos blogs e rendeu uma porção de termos que definiram a música ocidental dos anos 2000 e 2010. Os principais, "retromania" e "assombrologia", partiram da mesma ideia que Fisher rodeava em todos os seus trabalhos: a de que o presente era assombrado por futuros perdidos. "Ele conseguia escrever muito bem sobre os detalhes e as particularidades de uma obra de arte ou da produção de um autor, mas seu superpoder era expandir isso para princípios abstratos mais amplos", diz Reynolds, por e-mail. "Dava para sentir que ele estava sempre levando as coisas a um nível mais alto, construindo em direção a uma compreensão total da cultura, da política e da própria existência. A escala dessa ambição era empolgante." Em seu podcast "Fisher e os Fisherianos", Gonzo se refere ao autor, por sua facilidade em nomear fenômenos, como um "arquiteto de conceitos". Ele fala, porém, que quando leu "Realismo Capitalista" pela primeira vez, em seu ano de lançamento (2009), era difícil relacionar o livro à realidade brasileira —que, no fim dos 2000, vivia um momento de progressismo e otimismo econômico, ao contrário do Norte Global. "O Fisher começa a chegar ao Brasil em 2016, 2017, anos em que vivemos uma forte crise política, crise econômica, desemprego", fala Gonzo. "Em 2009, a teoria do Fisher era muito estranha. Mas, no fim dos anos 2010, tudo era muito real. Passamos a viver em um mundo onde o Donald Trump manda nos Estados Unidos, é muito difícil olhar para isso e não pensar 'é culpa do capitalismo'." "Ele tocou no pulso do nosso sofrimento naquele momento", fala Rodrigo Gonsalves. "Eu acho que ele ganhou esse caráter incendiário porque ele é objetivo, suas ideias são de fácil transmissão. Ele vem de uma forma muito cirurgicamente precisa que passou a aparecer em conversas entre alunos, entre pares." De todos os trabalhos do filósofo, o último, "O Estranho e o Sinistro", é o que se coloca de um jeito mais abstrato e etéreo, quase como um livro "assombrado", afirma Gonsalves. Antes da publicação do livro, no começo de 2017, Fisher tirou a própria vida, o que deu ao seu trabalho, e a toda a sua obra, um teor ainda mais fantasmagórico. "Fisher era assombrado por sua teoria, e deixou-a para que fôssemos também", diz Gonzo. "Ele era mesmo o fantasma de sua própria vida —e de todas as nossas."
Mark Fisher levou cultura pop e sa�de mental para luta contra capitalismo
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