A Netflix chama de melodrama a série "Dom de Iludir", lançada nesta quarta-feira (28). O termo dá um verniz sofisticado a uma trama curta e acelerada, com ritmo de seriado, mas repleta de atores e temas típicos das telenovelas. Na trama, uma família rica, encabeçada por Marieta Severo, entra em conflito com golpistas liderados por José de Abreu. Os dois artistas construíram carreiras longevas nos folhetins da TV Globo e tiveram contratos que duraram quase 40 anos. Severo deixou a emissora em 2022, e Abreu, em 2020. A Netflix escalou ainda Nanda Costta, a protagonista da novela "Salve Jorge", de 2012, e Alice Wegmann, que fez o remake de "Vale Tudo" no ano passado. A direção é de Mauro Mendonça Filho, outro ex-funcionário da Globo. Embora frequentemente associado à telenovela, o melodrama é um modo de contar histórias que vale para qualquer formato. Nele, as emoções vêm à frente, geralmente com exagero. Conflitos morais, traições e injustiças também são bem-vindos. Todos esses ingredientes compõem "Dom de Iludir". Severo interpreta Lúcia Rossetti, uma colecionadora de obras de arte que não se dá bem com a filha, a mimada Maíra, papel de Wegmann. É uma história recorrente nas telenovelas, reapresentada aqui com mais violência e malícia. Quando a jovem aparenta desenvolver uma doença grave, com crises de convulsão, Lúcia decide ir além da medicina e procura o tratamento de uma suposta terapeuta espiritual. É Irina, personagem de Nanda Costta, que prega a paz, mas esconde fazer parte de uma quadrilha de assaltantes. Muita coisa em "Dom de Iludir" é mentira. No início da série, Maíra parece realmente adoentada, sua mãe se mostra uma mulher manipulável, e Irina surge como curandeira eficiente. Essas impressões somem após os primeiros episódios. As reviravoltas espalhadas pelos dez capítulos aproximam "Dom de Iludir" dos seriados, diz a roteirista Mirna Nogueira. Para ela, a sensação novelesca está na forma como as intrigas familiares são apresentadas, com exageros e escândalos. Antes, Nogueira escreveu a série "Cidade Invisível", também da Netflix. "Dom de Iludir" é dela e da autora Diane Maia. O roteiro também aborda a luta de classes ao pôr uma família pobre para ludibriar gente rica. Os golpistas começam retratados como vilões, mas logo apresentam um debate sobre falta de oportunidade nas periferias do Rio de Janeiro. Lúcia Rossetti, a vítima do golpe deles, enriqueceu com o mercado de arte e mora em um apartamento enorme na área nobre do Rio. O que começa como um golpe pontual logo se transforma num crime com várias pessoas envolvidas. A progressão lembra a da série de assaltos "La Casa de Papel", que também aposta no melodrama. A produção espanhola está na Netflix. Severo diz que foi fácil compreender os gostos de Lúcia porque ficou um ano casada com Carlos Vergara, influente artista plástico. O período ao lado dele ajudou a atriz a entender por que a personagem leva tão a sério os negócios do marido, morto no primeiro episódio. "Tive a sorte de conviver com o mundo artístico do Rio de Janeiro desde a adolescência. Me alimentei e fui formada por isso", afirma Severo. A atriz repete aqui uma parceria antiga com o diretor Mauro Mendonça Filho, com quem trabalhou outras quatro vezes. Juntos, fizeram a comédia "A Grande Família" e o drama erótico "Verdades Secretas". Nas novelas, ele diz, o diretor costuma ganhar a confiança dos atores por causa do longo tempo de filmagem. "É isso que eu trouxe de lá, uma exigência pela alta performance." Aos 79 anos, Severo diz que prefere trabalhar no cinema ou em tramas curtas como "Dom de Iludir" e não deve voltar às telenovelas. "Ter tempo de errar é precioso. Fazer poucas cenas por dia, receber o roteiro fechado, isso dá valor à obra", ela diz. "Dom de Iludir" se junta a outras produções de streaming que apostam no melodrama e em atores consagrados da televisão. É o caso de "Beleza Fatal", da HBO Max, com Camila Pitanga, e de "Pedaço de Mim", da própria Netflix, protagonizada por Juliana Paes. "Os seriados contemporâneos estão impregnados de melodrama. Ao mesmo tempo, as telenovelas vêm incorporando a estrutura seriada", afirma a dramaturga Rosane Svartman no livro "Autoria e Gênero na Telenovela Brasileira". Ela escreveu o folhetim "Vai na Fé", sucesso na faixa das sete, e trabalhou com Severo no filme "Câncer com Ascendente em Virgem".
Marieta Severo e Jos� de Abreu se confrontam em s�rie novelesca da Netflix
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