Marcelo Falcão diz que não se considera uma pessoa de muitas posses, com uma exceção: uma coleção de cerca de 8.000 discos de vinil. Eles estão espalhados pela casa, com exemplares debaixo da cama e outros que leva junto até quando viaja. O cantor afirma que escuta os discos como pesquisa, procurando um ruído, uma textura ou uma sensação que possa inspirar a música que está fazendo. Com mais de 30 anos de carreira e oito álbuns de estúdio –seis deles como vocalista da banda O Rappa, entre 1993 e 2018–, ele se coloca como alguém ainda em busca de novas referências e gêneros musicais. A música que a família escutava formou seu acervo musical. Entre os nomes brasileiros que figuram em sua lista de inspirações estão Jorge Ben Jor, Tim Maia, Djavan e Roberto Carlos, além de Emilio Santiago e Clara Nunes. Ele também cita artistas internacionais como Damon Albarn, vocalista das bandas Blur e Gorillaz, o rapper Kanye West –desde que de boca fechada, ressalva– e o músico Jack White, metade do duo de rock The White Stripes. Quando tenta escolher as músicas que melhor explicam quem é, Falcão não consegue se limitar a uma. Escolhe uma tríade. "Crença e Fé", gravada com L7nnon, aparece como desabafo e esperança. "Faz diferença a minha fé num mundo desigual, superficial. Ser capaz de vencer sem se envolver com o mal", diz a letra. A segunda canção citada é "O Legado", faixa que dá nome ao álbum e à sua atual turnê e tem a participação de Chorão (1970-2013) por meio de um sample de voz. Falcão encontrou um trecho inédito após ter acesso a mais de 30 mil arquivos de áudio do amigo e decidiu inserir a voz do vocalista do Charlie Brown Jr. na faixa. Ela também ganhou um clipe com a participação de Xande, filho de Chorão, e de Tom, filho de Falcão. Segundo o artista, a música reforça o compromisso dos dois com suas respectivas histórias e lutas. "A gente nunca ficou calado perante as coisas que queríamos falar. Tudo o que escrevemos e vivemos, botamos pra fora." A terceira música é "Saudade Corrói", que se aproxima de uma dimensão mais pessoal. A canção, explica, trata da ausência de alguém, de uma história que já passou e das boas recordações que permanecem. "É um sentimento muito violento", diz. Na infância, quando começou a tocar violão, Marcelo Falcão não imaginava que o instrumento se tornaria uma parte tão essencial de sua vida. A música surgiu depois de tentar outros passatempos que não deram certo, como a bola de gude, a pipa e o futebol. "O violão acabou sendo o meu melhor amigo", resume. A lembrança serve para ilustrar a ideia que ele repete quando fala da própria trajetória, de esforço e persistência. "Eu sou aquele cara que aposta naquilo que deu e que dá certo, que é o trabalho. Só consegui ver minha vida mudar porque, quando falavam que não seríamos ninguém, continuávamos trabalhando", afirma. Segundo ele, "O Legado" nasceu de uma tentativa de aproximar tempos diferentes. Falcão conta que já vinha gravando com artistas da nova geração quando decidiu que queria construir uma "ponte entre gerações". A ideia foi reunir o público que cresceu ouvindo os clássicos do reggae e do rock brasileiro aos nomes que hoje circulam pelo rap e pelo trap. As gravações passaram por diferentes locais, entre eles o MF Studio, do próprio Falcão, o Malibu Studios, a Toca do Bandido e o estúdio do produtor Dallass. O disco conta participações de veteranos da música brasileira como Toni Garrido, vocalista do Cidade Negra, e Tales de Polli, do Maneva, e também com artistas da nova geração, como Cynthia Luz e Orochi. "Acho que para mim foi muito feliz desenvolver ‘O Legado’ a partir dessa história de unir gerações. Fazer com que as pessoas não ouçam só o Marcelo Falcão, mas sim tudo aquilo que envolve o Marcelo Falcão", diz. A expansão do repertório passa por unir processos clássicos de composição e parceria a tecnologias como projeções em 3D e efeitos de laser utilizados durante a turnê para levar ao palco artistas que não puderam estar presentes. "Eu tenho os áudios e os visuais, é como se eles estivessem ali comigo", conta. Quanto ao uso de IA na música, porém, Falcão tem suas ressalvas. Ele conta que recebeu convite para realizar um projeto ligado à Copa do Mundo de 2026 feito com inteligência artificial. Ouviu o material, mas decidiu não participar. "Eu ouvi e não me emocionou", afirma. "A essência, que é a música, tem que prevalecer. Ter rapidez e agilizar as coisas não vai te dar aquilo que vai te completar, que vai te saciar", diz ele. "Eu acho que as pessoas deveriam aproveitar o tempo delas para usar mais o cérebro e depender menos do computador para fazer coisas que elas mesmas podem fazer", completa. Se as parcerias com artistas em ascensão são vistas como uma ponte para o futuro, uma possível volta d’O Rappa parece mais distante, embora Falcão não veja a banda como algo que ficou no passado. Ele diz que o grupo, que encerrou as atividades em 2018 em meio a divergências entre os integrantes, está em pausa, "guardado com carinho". Não há, segundo o músico, uma impossibilidade de voltar a tocar com os antigos companheiros. Pelo contrário: "Se a gente sentasse em qualquer lugar para voltar com Rappa, era dois palitos", afirma. Mas a volta não está nos planos imediatos. Falcão diz ter compromissos com as gravadoras que o mantêm dedicado à carreira solo até 2028, quando lançará o último dos três álbuns inicialmente combinados com a Virgin Music Brasil e a produtora 30e. "Eles [os outros integrantes] estão em pausa, em férias, e sabem que eu não poderia voltar agora", diz. Ele se compara a Liam Gallagher, vocalista do Oasis, que deixou a banda, lançou três discos em carreira solo e, posteriormente, retornou ao grupo. Para o artista, a resposta do público também funciona como confirmação de que a carreira solo é a escolha correta para o momento. Falcão diz perceber, nos shows, pessoas que talvez não tenham vivido a fase d’O Rappa e que agora compram ingresso para vê-lo por se identificarem com seus trabalhos atuais. O músico afirma que as desavenças familiares ficaram no passado. Em 2016, descobriu através de um exame de DNA ser pai de uma jovem de 17 anos, registrada e criada por outra pessoa. Em 2021, uma disputa sobre pensão alimentícia da filha levou a Justiça do Rio a decretar sua prisão domiciliar por 60 dias. Falcão alegou dificuldades financeiras e negou ter deixado de cumprir suas obrigações. A ordem de prisão foi revogada dias depois. O cantor diz que não teve a oportunidade de exercer a paternidade antes de saber da existência da filha, mas afirma ter assumido as responsabilidades financeiras, dando suporte a ela depois que ficou a par da situação. "Tudo que era para ser pago, tudo que era para ser feito, eu fiz. Dou suporte até hoje e vou continuar dando para o resto da minha vida", afirma. "É uma coisa resolvida entre eu e ela. Eu estou bem, ela também está bem. O importante é isso. A vida é assim mesmo, tem altos e baixos, mas é uma felicidade tremenda saber que, além do Tom, eu tenho uma menina." Marcelo Falcão se apresenta em São Paulo nesta sexta (18), no Espaço Unimed. A turnê "O Legado" também passará por Curitiba neste sábado (19) e retornará ao Rio de Janeiro para uma apresentação extra no dia 20 de novembro. com DIEGO ALEJANDRO, JULLIA GOUVEIA e KARINA MATIAS LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Marcelo Falc�o se inspira em Liam Gallagher na carreira solo e quer ser ponte entre gera��es
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