Marcas reagem � IA na Semana de Moda de Paris com roupas imperfeitas

Marcas reagem � IA na Semana de Moda de Paris com roupas imperfeitas

A roupa é um objeto. Imperfeito, um pouco amassado, levemente desgastado, vestígio das entranhas de seu criador. A resposta que a moda deu à busca pela perfeição, impulsionada pela inteligência artificial aos olhos de uma geração, é a vulnerabilidade do processo humano. Essa manifestação atravessa, afinal, a temporada dos desfiles mais importantes do mundo. Começou com os trench coats de aspecto pisoteado no desfile da Burberry, na Semana da Moda de Londres. Depois passou pela edição do evento em Milão, com as mais de sessenta saias da Prada e, agora, esteve na Semana da Moda de Paris, que terminou nesta terça-feira (6), em uma síntese agridoce. Se aproximar da essência da roupa significa se distanciar das narrativas forçadas para vender uma coleção. Mas esse afastamento pode tornar certas coleções femininas do Verão 2027 menos geniais. É uma faca de dois gumes. O designer Haider Ackermann sabe onde a fantasia sexual se torna carne nas roupas da Tom Ford, grife sob sua direção criativa. A sedução é um dos cânones da casa. O sangue está nos lábios das modelos, no batom vívido que desliza pelos dois vestidos longos rubros, e ressoa em cada entrada, das modelos que se olham pelo reflexo dos vidros esfumados até aquelas que encostam uma na outra. Para Ackermann, a sedução significa atitude. A provocação é absoluta: cetins escorregadios, transparências que não têm pudor de revelar, couro de tatilidade luxuosa, fendas que se constroem pelo simples fato de o fecho estar aberto, bodies fulgurantes que fazem morder os lábios. É a mesma vaidade que circulou pela Gucci esplendorosa nos anos 1990, muito graças ao próprio Tom Ford, que foi diretor criativo da grife italiana antes de fundar a própria marca. Agora, a evolução da sexualidade do estilista acontece pelas mãos de Ackermann. O vento levou toda roupa que encontrou no Jardin des Tuileries, onde acontece o evento. Foi assim com a Dior, que explorou diferentes formas de leveza e aliviou o peso do legado de uma maison octogenária. A sensação térmica prometida pelos próximos verões tórridos foi refrescada por linhas suaves, camadas e pétalas. Mas Jonathan Anderson, à frente da maison, manteve o corte circular que dispensa estruturas internas e, ainda assim, dá volume. Esse foi o vínculo principal com Christian Dior, que aparece nas saias godês e silhuetas cropped. O que torna a coleção mais pura e humana é, afinal, o que há de imperfeito. As barras desfiadas, os georgettes que parecem recém-saídos de seus rolos e transformados em tiras presas aos vestidos transparentes, as peças em pied-de-poule ou os paletós maleáveis que sobrepõem as camisas listradas. É a mesma assinatura já conhecida n vestuário masculino, agora adaptada para o feminino. Sempre palatável, mas ainda há chão para a Dior de Anderson ser brilhante. Por falar em brilhos, os rumores sobre a saída do diretor Anthony Vaccarello não conseguiram ofuscar o dourado que percorreu a Saint Laurent. O flerte perigoso com a Dolce & Gabbana, na verdade, é fruto da adoração pelo ouro amarelo que Yves Saint Laurent tinha. Na sequência de looks, o metal precioso se desdobrou em vestidos com rendas, brocados e jacquards, em trench coats de látex e jaquetas safari. A cor metalica foi aplicada como verniz em peças estampadas de leopardo e na silhueta preferida do estilista: ombros amplos e saia lápis, algumas delas com fendas e pareadas com saltos altíssimos. É o imaginário da Saint Laurent ao qual Vaccarello foi devoto na última década. Se as conversas de bastidores se confirmarem, sua contribuição para a etiqueta que jamais se distanciou de suas origens é indelével. Sua falta será sentida. Já Pierpaolo Piccioli, à frente da Balenciaga, deixou a sensação de que todo mundo esperava mais. A maison parece ainda estar em um período de reabilitação, e o público julgador não demonstra muita paciência. Piccioli partiu da espinha dorsal da alta-costura para executar um exercício de experimentação, em que as peças são trabalhadas com mãos humanas antes de chegar à produção industrial. É o que se vê nas camisas brancas e nas calças bem estruturadas, que se moldam ao corpo. Os volumes são reproduzidos em diferentes escalas: das mangas texturizadas que se transformam em longas franjas flutuantes. Apesar da maestria na construção da roupa, ainda não parece Balenciaga. A Valentino também segue pouco empolgante. Alessandro Michele, sempre sensível à intelectualidade, convocou seus convidados a doarem livros e entregá-los na entrada da Biblioteca de Sainte-Geneviève. A narrativa é boa e original, a roupa nem tanto. A coleção consolidou a ideia de que Michele funciona bem como criativo em marcas ligadas a produção luxuosa com couro, e não em casas fundadas por costureiros, com uma tradição profundamente enraizada na alta-costura. Por vezes, o estilista parece se perder no maximalismo descomedido. Misturar elementos esportivos com sofisticação é algo que sempre esteve presente no trabalho de Miuccia Prada, herdeira da maison italiana e sua atual designer chefe. "Mas nunca fui tão precisa, ou levei isso tão longe", diz ela. "A realidade do vestuário hoje é esse mix de sportswear, casual, normal. Mas como torná-lo mais interessante, mais rico? Eu queria encontrar maneiras de introduzir beleza nessas roupas reais." Na Miu Miu, marca da Prada comandada por Miuccia, peças de naturezas opostas se confrontam. Saias colegiais têm fechos cobertos por cadarços decorativos e funcionais, enquanto shorts esportivos ganham cristais e são usados com tops. A camurça tem rachaduras e um acabamento encerado, com vincos intencionalmente visíveis. A dúvida em relação aos códigos da boa vestimenta recai sobre os vestidos, que são amarrotados, com pregas desalinhadas e imperfeitas, como Miuccia gosta. O designer Matthieu Blazy celebrou seu primeiro aniversário na Chanel, uma semana após a quebra do silêncio de Virginie Viard. A ex- estilista da maison escreveu sobre as polêmicas envolvendo sua saída abrupta da grife no livro "Un Regard: Une Vie Chez Chanel", ainda sem publicação no Brasil. Blazy permanece preso à tradição dos cenários megalomaníacos e das narrativas poéticas. As roupas são bem feitas, mas pesadas e com construção confusa. A intenção era homenagear as múltiplas identidades da moda, que se deslocam e se transformam, e manter o diálogo com a criação de Gabrielle Chanel. Mas o diálogo entre as referências pareceu truncado, e tantas narrativas juntas atrapalharam as roupas.

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