Marcas de luxo perdem 250 bilh�es de euros em valor de mercado com queda na demanda chinesa

Marcas de luxo perdem 250 bilh�es de euros em valor de mercado com queda na demanda chinesa

Financial Times Os principais grupos europeus de luxo perderam cerca de 250 bilhões de euros (R$ 1,4 trilhão) em valor de mercado neste ano, em meio à queda dos gastos dos consumidores da China e às oscilações das bolsas provocadas pela inteligência artificial, que reduzem a demanda por calçados e bolsas de alto padrão. Os resultados divulgados neste mês por LVMH, Hermès e Kering, dona da Gucci, ficaram abaixo das expectativas do mercado, que já haviam sido reduzidas significativamente, confirmando os temores de que a indústria do luxo continue às voltas com uma retração que já dura vários anos. As seis maiores empresas de luxo de capital aberto da Europa —grupo que também inclui Richemont, Prada e Moncler— perderam, juntas, 251 bilhões de euros (R$ 1,4 trilhão) em valor de mercado neste ano. As quedas mais acentuadas ocorreram na LVMH e na Hermès, os dois maiores grupos do setor, cujos valores de mercado encolheram 131,6 bilhões e 93,3 bilhões de euros (R$ 742,3 bilhões e R$ 526,3 bilhões), respectivamente. Loja de artigos de luxo usados em Xangai, na China - Pedro Pardo - 13.out.26/AFP A demanda dos consumidores chineses foi o motor de crescimento do setor por mais de uma década, mas uma prolongada crise imobiliária e o fraco desempenho da bolsa de valores vêm prejudicando a demanda interna nos últimos anos. O crescimento mensal das vendas no varejo na segunda maior economia do mundo ficou, em média, abaixo de 0,5% nos últimos seis meses, uma forte desaceleração em relação ao ano anterior. "A recuperação do consumidor chinês de artigos de luxo que o setor esperava entrou em compasso de espera, causando um revés nos resultados, pressão baixista sobre as ações e muita reflexão", afirmou Luca Solca, analista da Bernstein. LVMH, Kering e Hermès destacaram uma deterioração acentuada na China no terceiro trimestre ao divulgarem seus resultados neste mês. As vendas para clientes chineses em todo o mundo na emblemática divisão de moda e artigos de couro da LVMH caíram em uma porcentagem na faixa intermediária dos 10%, segundo a diretora financeira Cécile Cabanis. "A desaceleração [na demanda por moda e artigos de couro] é, obviamente, em grande parte impulsionada pela clientela chinesa", disse Cabanis. "Esperamos que ela diminua. Não sabemos ao certo quando." C-Level Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisõesO quadro na Kering, que também controla Saint Laurent e Bottega Veneta, é ainda pior. As vendas para consumidores chineses caíram entre 15% e 20% em todo o grupo no terceiro trimestre, uma aceleração em relação às quedas na faixa intermediária dos 10% registradas pela Kering no trimestre anterior. O esfriamento da China começou a afetar até mesmo a Hermès, uma das maisons de luxo mais resilientes. As vendas totais da divisão de prêt-à-porter e acessórios do grupo recuaram 2% globalmente. O diretor financeiro Eric du Halgouët observou que uma queda recente na bolsa chinesa, somada a uma ofensiva contra patrimônios mantidos no exterior, tornou o cenário mais difícil. Nesta semana, entrou em vigor uma política segundo a qual as autoridades chinesas começarão a cobrar um imposto de 20% sobre dividendos e juros obtidos por meio de trusts no exterior. Enquanto isso, o índice CSI 300, que acompanha as 300 maiores empresas chinesas de capital aberto, caiu 19% nos últimos quatro meses —uma perda de mais de US$ 2 trilhões (R$ 10 trilhões) em valor—, em meio a temores sobre a fraqueza do consumo interno e uma bolha de inteligência artificial. Nick Anderson, analista do Berenberg, afirmou que a atualização desta semana da Hermès o deixou com "mais perguntas do que respostas". "Tememos que a exposição excessiva à China e uma dependência maior de consumidores aspiracionais do que pensávamos anteriormente continuem pesando sobre as receitas da Hermès", acrescentou. Nem tudo, porém, foi má notícia para as empresas de luxo nos últimos meses. As vendas de bolsas Birkin e de outros modelos do segmento mais sofisticado da Hermès cresceram 10,8%, enquanto marcas de joias como Tiffany, da LVMH, e Boucheron, da Kering, registraram forte demanda, ambas com crescimento de vendas de dois dígitos no trimestre. Mas até mesmo a demanda nos Estados Unidos, que vinha sustentando o setor no início deste ano, perdeu força nos últimos meses, à medida que as bolsas esfriaram e os preços da gasolina dispararam. Dados de cartões de crédito do Citi registraram quedas de pelo menos 4% nos gastos com artigos de luxo em julho, agosto e setembro. Algumas marcas sentiram a desaceleração de forma mais intensa do que outras. De um lado está a Hermès, que afirmou que seus clientes americanos continuavam gastando em níveis semelhantes; do outro, a Kering, mais exposta a consumidores aspiracionais da classe média. O grupo, listado em Paris, destacou a maior pressão sobre os consumidores dos Estados Unidos antes das eleições legislativas de meio de mandato de novembro. Com poucos sinais de recuperação nos mercados mais importantes para o setor de luxo, Solca, da Bernstein, afirmou que a maioria das empresas do segmento "não tem nada melhor a fazer" senão tentar se tornar mais eficiente enquanto espera o retorno dos consumidores.

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