Após meses de tensão com alguns líderes judeus de Nova York, o prefeito Zohran Mamdani divulgou nesta terça-feira (29) um relatório sobre antissemitismo na cidade, apresentando formas de combater crimes de ódio contra judeus, mas evitando qualquer discussão politicamente delicada sobre Israel. Ao longo das 35 páginas do relatório, a gestão de Mamdani detalha como pretende combater o antissemitismo, inclusive por meio de dezenas de milhões de dólares já destinados à prevenção de crimes de ódio, além de programas para continuar celebrando as tradições judaicas. Mamdani, crítico de longa data de Israel, tem falado menos sobre o tema nas últimas semanas, depois de reconhecer, em um vídeo amplamente assistido em julho, que não tinha autoridade para prender o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, como havia prometido fazer.Em agosto, um grupo de rabinos pediu ao prefeito que desse mais atenção aos efeitos que suas críticas poderiam ter sobre a cidade, que abriga a maior população judaica fora de Israel e onde a preocupação com o antissemitismo continua elevada. A ausência de qualquer discussão sobre o conflito israelense-palestino no relatório reflete a sensibilidade e a complexidade política em torno do tema. Líderes judeus proeminentes afirmam que a crescente oposição a Israel e à guerra em Gaza por vezes descambou para a retórica antissemita. Defensores da causa palestina, entre eles alguns grupos judaicos progressistas, dizem que devem ter liberdade para criticar a conduta de Israel sem serem acusados de antissemitismo. O relatório recomenda manter e ampliar várias políticas municipais já existentes, como ensinar sobre o Holocausto aos alunos das escolas públicas e oferecer aos funcionários municipais treinamento sobre a "compreensão das experiências judaicas". Há também ideias novas, ainda que modestas, como destacar as contribuições dos judeus nova-iorquinos nos milhares de quiosques LinkNYC que oferecem cobertura wifi nas ruas da cidade, além do compromisso de exigir mais apoio federal para centros educacionais e museus sobre o Holocausto na cidade. O relatório é divulgado em um momento de particular importância para os judeus de todo o mundo, que celebram as Grandes Festas em meio ao aumento do temor de violência antissemita. A prefeitura divulgou o relatório menos de uma semana depois de Netanyahu chamar Mamdani de antissemita em um discurso perante uma audiência global nas Nações Unidas. Mamdani afirmou que Netanyahu, que disputará a reeleição no mês que vem, havia "usado seu discurso para repetir mentiras infundadas destinadas a encobrir seu genocídio de palestinos". Uma comissão independente das Nações Unidas, assim como alguns grupos internacionais e israelenses de direitos humanos, também acusou Israel de cometer genocídio em Gaza. Netanyahu e seu governo rejeitam veementemente as acusações, assim como alguns acadêmicos independentes. Durante uma reunião realizada por videochamada na noite de segunda-feira (28), vários políticos questionaram funcionários do gabinete do prefeito para o Combate ao Antissemitismo, responsável pela elaboração do relatório, sobre a omissão da controvérsia em torno de Israel, mencionando a posição do prefeito sobre o tema. Michael Novakhov, deputado estadual republicano, disse a Phylisa Wisdom, que dirige o gabinete, que "a principal fonte de antissemitismo em nossa cidade neste momento é o prefeito Mamdani", segundo uma gravação da chamada obtida pelo The New York Times. Wisdom afirmou durante a reunião que todos os judeus nova-iorquinos mereciam proteção, inclusive aqueles "que discordam do prefeito em todo tipo de questão e dos quais o prefeito também pode discordar". Novakhov, cujo distrito inclui várias áreas de maioria judaica no Brooklyn, ressaltou que Mamdani havia chamado Netanyahu repetidas vezes de criminoso de guerra. O prefeito defendeu a prisão de Netanyahu; o primeiro-ministro foi acusado de crimes de guerra em 2024 pelo Tribunal Penal Internacional, que expediu um mandado de prisão contra ele. Netanyahu nega as acusações. Durante a chamada, Jeffrey Dinowitz, deputado estadual democrata do Bronx, chamou a atenção para o uso, pelo prefeito, do termo "genocídio" para se referir ao tratamento dado por Israel aos palestinos, afirmando que essa linguagem "de certa forma dá permissão para que algumas pessoas pratiquem atos antissemitas". O termo não é usado no relatório, mas é empregado com frequência pelo prefeito. O relatório destaca o aumento dos recursos que Mamdani destinou à prevenção de crimes de ódio —US$ 29 milhões (cerca de R$ 151 milhões) por ano, ante US$ 3 milhões (R$ 15 milhões)— e a relançamento, por sua gestão, de um grupo de trabalho para reforçar a segurança de sinagogas e outros centros culturais judaicos. "Há gerações os judeus nova-iorquinos sustentam nossa cidade", disse Mamdani em um vídeo de dois minutos e meio que acompanha o relatório. Ele enumerou realizações de judeus famosos e de instituições judaicas, como o compositor Leonard Bernstein e o Katz’s Delicatessen, em Manhattan. "Hoje, temos a responsabilidade de amparar e proteger nossos vizinhos judeus", afirmou, "uma responsabilidade que cabe a cada um de nós". Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Amy Spitalnick, diretora-executiva do Jewish Council for Public Affairs, elogiou o relatório por apresentar políticas que envolvem diversos órgãos governamentais, mas questionou o que considerou uma descrição limitada do antissemitismo. A introdução de uma seção intitulada "Estatísticas e pesquisas sobre o antissemitismo" observa que judeus americanos relataram um aumento acentuado do antissemitismo na última década, citando a marcha de nacionalistas brancos realizada em 2017 em Charlottesville, na Virgínia, e o massacre de 2018 na sinagoga Tree of Life, em Pittsburgh, cometido por um homem ativo em comunidades de extrema direita na internet. O texto também observa que o antissemitismo e os atos de violência antissemita só cresceram nos últimos anos. Não há menção a atos motivados por sentimentos anti-Israel desde o início da guerra em Gaza. "Obviamente, existe uma ameaça muito real de antissemitismo de direita", disse Spitalnick. "O relatório também deveria reconhecer que, nos últimos anos, temos visto um aumento da violência contra judeus sob o pretexto de protestar contra Israel." Os crimes de ódio contra judeus e muçulmanos aumentaram na cidade de Nova York após o ataque mortal contra Israel liderado pelo grupo terrorista Hamas em 7 de outubro de 2023. Israel respondeu com uma campanha de bombardeios na Faixa de Gaza que causou mais de 70 mil mortes de palestinos, segundo o Ministério da Saúde de Gaza —uma contagem que não distingue entre civis e combatentes, mas inclui milhares de crianças. Nos primeiros oito meses deste ano, os crimes de ódio confirmados na cidade aumentaram 16% no total, e os incidentes antissemitas, 9%, anunciou no início deste mês a comissária de Polícia Jessica S. Tisch. Embora os judeus representem apenas 12% da população da cidade de Nova York, eles correspondem a cerca de metade de todas as vítimas de crimes de ódio denunciados, segundo o relatório do prefeito.Vários políticos celebraram o relatório. Liz Krueger, senadora estadual por Manhattan, agradeceu à prefeitura por apresentar "estratégias concretas que a cidade pretende adotar para enfrentar o crescimento do antissemitismo". "É fundamental que nosso prefeito, como líder de nosso governo, continue deixando claro, por meio de palavras e ações, que os judeus de Nova York podem expressar com segurança suas crenças religiosas e políticas, inclusive aqueles que manifestam apoio ao sionismo, sem medo de ameaças, assédio ou violência", prosseguiu. Mamdani decidiu manter o gabinete para o Combate ao Antissemitismo, criado no fim do mandato de seu antecessor, Eric Adams, ao mesmo tempo que revogou uma ordem executiva assinada por Adams que classificava determinadas críticas a Israel como antissemitas. As críticas a Israel e a defesa dos direitos dos palestinos têm sido elementos centrais da identidade política de Mamdani. Como estudante do Bowdoin College, ele fundou um núcleo da organização do Students for Justice in Palestine. Como deputado estadual, apresentou um projeto de lei que retiraria a isenção tributária de entidades beneficentes com vínculos com grupos de colonos na Cisjordânia ocupada. O relatório divulgado nesta terça-feira evita deliberadamente definir o antissemitismo. "A cidade de Nova York pode e irá mobilizar todas as ferramentas à sua disposição para combater o antissemitismo de maneira eficaz, sem precisar adotar uma definição para essa forma específica de ódio", diz o relatório. Mas o documento descreve como "um referencial útil" uma definição contida na Estratégia Nacional dos Estados Unidos para Combater o Antissemitismo, divulgada em maio de 2023 pelo ex-presidente Joe Biden. O texto descreve o antissemitismo como "uma percepção estereotipada e negativa dos judeus, que pode ser expressa como ódio aos judeus. É preconceito, parcialidade, hostilidade, discriminação ou violência contra judeus por serem judeus, ou contra instituições ou propriedades judaicas por serem ou serem percebidas como judaicas". Acrescenta que o antissemitismo pode assumir a forma de discriminação baseada em raça, religião, origem nacional ou identidade étnica. "No entanto, o antissemitismo não é simplesmente uma forma de preconceito ou ódio", afirma o documento. "É também uma perniciosa teoria da conspiração que frequentemente se apoia em mitos sobre o poder e o controle dos judeus."
Mamdani anuncia plano de combate ao antissemitismo e evita discutir Israel
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