Madrugadas insones

Madrugadas insones

Em Sorocaba, na última quarta-feira, o tratador Sérgio Domingues chorou ao se despedir de Sandro, um elefante idoso. O Sandro precisou ser transferido do Zoológico Quinzinho de Barros para o Santuário dos Elefantes do Brasil, em Mato Grosso. Moradores locais foram se despedir do animal (gritavam: "Adeus, divo"!) e acabaram também consolando o Sérgio. O vídeo, a que assisti em uma das minhas infinitas madrugas insones (pensando o que vai ser de nós e do nosso país se o coisa ruim voltar na versão mais jovem, porém igualmente fascista e miliciano), me levou às lagrimas. Se existem tratadores que amam elefantes idosos, se existem pessoas que se despedem de elefantes idosos gritando "adeus, divo", se existem insones pela madrugada que choram com esses vídeos, deve haver esperança para todos os brasileiros. Até agosto deste ano, o Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro resgatou mais de 18 mil animais, entre eles cachorros, gatos, baleias, golfinhos e pinguins. A história do cãozinho apelidado de Rapel apareceu para mim, mais uma vez, em uma das minhas madrugadas insones. Rapel caiu em uma encosta de difícil acesso, na comunidade de Pavão Pavãozinho. Os bombeiros precisaram descer cerca de 70 metros de rapel para resgatá-lo e, até onde apurei, o animal passa bem, já tendo um lar para viver. Se militares pararam seu dia para salvar um vira-lata e a internet foi à loucura com infinitos corações, este país não vai nos decepcionar jamais. Diretamente da zona norte, João Cesso Nogueira, um menino de dez anos, criou sua própria "cabine fotográfica" de papelão. Funciona assim: a pessoa fica esperando do lado de fora e, ao final, o garotinho lhe entrega um desenho feito de canetinha mesmo. Por causa de João eu pude voltar a dormir na última terça-feira. Se existe esse menino, se existe sua mãe, se existem as pessoas que topam se sentar ali do lado de fora dessa cabine, existe esperança para este país. Em minhas madrugadas insones, descubro que a minha amiga Roberta Martinelli está feliz. Claro que a rádio Eldorado voltaria. Vejo João Gomes transformando passagem de som em show para a galera que estava trabalhando no Rock in Rio. Assisto à Flávia Oliveira e à Natuza Nery deixando bem claro, em rede social, que estão do lado da democracia. Ouço Liniker cantando "Quando Você Passa" junto com a Sandy. Turu-turu-turu aqui dentro. Boto pra tocar mais uma vez a Gloria Groove cantando samba. Em minhas madrugadas insones, leio que Edir Macedo e Record vão pagar R$ 1,5 milhão por fala homofóbica. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Me arrepio com a voz pujante de Céline Dion, mesmo depois de falarem que por causa da sua doença (síndrome da pessoa rígida) ela jamais conseguiria atingir notas altas novamente. "Se eu não puder correr, vou andar. Se não puder andar, vou rastejar. Mas jamais vou parar". Eu sei que uma gringa não tem nada a ver com o Brasil, mas, poxa, o ser humano é mesmo maravilhoso. E eu estou cheia de esperança. Você já viu a Leandra Leal falando sobre letramento antirracista? Sobre criar meninas que se amam pois isso é o mais revolucionário que podemos ser? Que energia de gostosa não vende em caneta emagrecedora? Em minhas noites insones, eu só volto a dormir porque meu algoritmo, estranhamente apiedado da situação atual dos meus nervos, me entrega o melhor da humanidade. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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