Em uma das primeiras apresentações da adaptação de "Rei Lear", de William Shakespeare (1564-1616), com um elenco formado por drag queens, as artistas ouviram no palco uma reclamação desbocada. "Que peça de drag é essa que não tem um bate-cabelo?", gritou um espectador inconformado. "Macbeth", a segunda montagem do projeto Shakespeare in Drag, da Cia. Extemporânea, preenche essa lacuna. Uma das cenas mais aplaudidas do espetáculo em cartaz no Sesc Pompeia, em São Paulo, reproduz o movimento famoso nos shows em boates. Como em "Rei Lear", a peça é uma versão do clássico com linguagem e elenco drag. Também a exemplo da primeira experiência, a adaptação não abandona a grandeza literária do dramaturgo britânico e o que o público vê em cena é a tragédia sangrenta no reino da Escócia, com algumas pitadas do humor típico das transformistas. Além do bate-cabelo, a linguagem drag queen aparece no uso de "lip sync" —a sincronização labial comum nos shows noturnos—, nos improvisos cômicos, na trilha sonora e em espadas que se transformam em leques nas batalhas. A reflexão sobre a ambição, o poder e a moralidade humana está na tragédia escrita entre 1606 e 1607 e ressoa atualmente. Na trama, o general Macbeth encontra bruxas que profetizam seu futuro como rei da Escócia, o que o leva, ao lado de Lady Macbeth, a um enredo de assassinatos, usurpação e culpa. "Fazer uma comédia seria legal, mas muito fácil. E eu queria o grande desafio de fazer uma tragédia", diz a diretora Ines Bushatsky. O espetáculo contraria a expectativa de quem imagina encontrar uma versão debochada de "Macbeth". A adaptação assinada por João Mostazo não deixa de lado a profundidade e a força da tragédia. "As duas linguagens, a de Shakespeare e a das drag queens, são populares", diz o poeta e dramaturgo. "É interessante a rapidez que elas têm de ir do trágico para o cômico." O cuidado adotado, ele explica, é o de não banalizar a violência presente na obra original, ou seja, os conflitos, as dores e as mortes não viram motivos para piadas. As brincadeiras têm hora para acontecer: até os improvisos foram testados nos ensaios e discutidos com a direção. O cenário da montagem é básico e foi pensado para ser útil, ou seja, está a serviço da movimentação das artistas e das necessidades da encenação. A intenção é evitar a competição com os figurinos, as maquiagens e as perucas das nove drags. As peças de Shakespeare estão no horizonte de Alexia Twister, a intérprete de Macbeth, desde a infância em Taubaté, no interior de São Paulo. Ela assistia a teatro pela TV Cultura e ficou encantada com uma versão de "Macbeth" protagonizada por Antonio Fagundes e Vera Fischer, na década de 1990. Vencedora do Prêmio Shell no ano passado pelo trabalho em "Rei Lear", Twister sonhava em interpretar Lady Macbeth. Esse era, na verdade, um desejo coletivo. "Todas queriam ser a Lady Macbeth", diz. O papel da mulher ambiciosa foi entregue à atriz e diretora Thelores. Para DaCota Monteiro, intérprete de As Três Bruxas na peça, Shakespeare foi apresentado como um autor quase inacessível, distante, reservado para poucos. "Não é para você. É alta cultura. Fica aí na sua", ela diz em uma recordação sobre a barreira superada. "Eu sempre me destaquei no humor, então nunca me deram muita chance de explorar as tragédias, os dramas." Isso mudou a partir de uma parceria com a diretora e professora Bolinha Monteiro, de Ribeirão Preto, a primeira a olhar para a drag e dizer: "Você sabe atuar, vou colocar você para fazer Nelson Rodrigues, Plínio Marcos". Em uma homenagem, DaCota adotou o sobrenome da mestra. Indicada ao Prêmio Prio de Humor pela performance em "Rei Lear", com a interpretação do Conde de Gloucester, ela define como um "jogo de truco" a relação com a diretora da montagem atual em torno do que pode ou não ser engraçado. "Verdade seja dita. A DaCota foi a primeira que ousou trazer a drag para a leitura. [No início] estava todo mundo muito respeitoso com o texto. Ela começou a brincar e vimos que havia essa possibilidade", afirma Twister. Ao explorar os talentos múltiplos e diversos do elenco, o espetáculo não encaixa as drags em personagens apenas engraçados e não transforma o palco em uma plataforma de ativismo para denunciar o persistente preconceito contra a população LGBTQIA+. "Acham que tudo o que o gay pode fazer é ser engraçado ou sofrer homofobia", diz Twister sobre produções tradicionais, principalmente no audiovisual. "Acredito que está todo mundo cansado de ocupar esse lugar de coitadinho, de sofredor." Ela cita uma frase da atriz e vedete Rogéria para ressaltar sua posição: "Eu não tenho a história de um gayzinho triste para contar". Twister afirma ainda que a militância está no seu cotidiano, quando sai de casa montada para pegar um carro de aplicativo e fazer shows em boates. O Prêmio Shell, em 2025, é interpretado como um dos sinais de que uma artista drag não entra em cena apenas para enfeitar ou descontrair o público. Twister dedicou o reconhecimento às pioneiras e também viu a consagração como uma preparação de terreno para as que estão chegando. "Elas vão saber que esse lugar é possível. Elas podem ocupar esse espaço."
'Macbeth', texto cl�ssico de William Shakespeare, ganha montagem com drag queens
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.