A LVMH, referência do setor de luxo, perdeu quase todos os ganhos acumulados por suas ações durante o boom da indústria na era da pandemia, que levou a companhia a se tornar a primeira empresa europeia a atingir US$ 500 bilhões em valor de mercado. O movimento ocorre em meio às turbulências geopolíticas, que vêm afetando a "sensação de bem-estar" da qual dependem as marcas de alto padrão. A capitalização de mercado do grupo, listado em Paris e dono de marcas como Dior, Louis Vuitton e Veuve Clicquot, caiu mais da metade desde o pico de 2023, para 213 bilhões de euros. A queda deixou a LVMH próxima da avaliação registrada em janeiro de 2020, pouco antes do início da pandemia de Covid-19, que desencadeou uma disparada histórica nos gastos com artigos de luxo. A desvalorização das ações ocorreu apesar de a companhia ter registrado, no ano passado, lucro de 17,8 bilhões de euros —mais de 50% acima do nível de 2019. A retração do setor de luxo começou há cerca de três anos, quando a inflação reduziu o poder de compra dos consumidores de classe média, conhecidos como consumidores "aspiracionais" de luxo. O movimento foi agravado pelas disputas comerciais dos Estados Unidos e pela guerra no Oriente Médio. Flavio Cereda, gestor de fundos da GAM, afirmou que o problema para a LVMH é que a empresa se tornou uma forma de os investidores apostarem no comportamento dos consumidores "aspiracionais". "Eles têm muitos clientes da faixa mais alta que estão indo bem, mas esse não é o grosso de seus negócios", disse Cereda. Outros dois investidores do setor de luxo também observaram que fundos hedge usam as ações da LVMH para apostar no sentimento mais amplo em relação ao setor, ampliando as oscilações dos papéis tanto para cima quanto para baixo. O planejamento sucessório na LVMH tornou-se cada vez mais importante para os investidores, segundo Christopher Rossbach, diretor de investimentos da J Stern & Co., acionista da companhia. "O fato de a empresa ser comandada por seu fundador e maior acionista [Bernard Arnault] tem sido uma vantagem [até agora]", afirmou, acrescentando que "a propriedade das ações e a sucessão são duas das questões mais importantes para a LVMH". Arnault, de 77 anos, prepara seus cinco filhos para sucedê-lo. Em abril, porém, o patriarca da família desconversou sobre a sucessão ao dizer aos acionistas: "Voltaremos a falar de tudo isso daqui a sete ou oito anos". A Bain estima que 60 milhões de consumidores, em sua maioria "aspiracionais" —cerca de 15% da base total de clientes do setor de luxo—, deixaram de comprar produtos do segmento nos últimos três anos. Segundo a consultoria, as próprias marcas de luxo podem ter contribuído para afastá-los ao elevar os preços de muitos produtos entre 50% e 70% em relação aos níveis de 2019. Cereda afirmou que esses consumidores normalmente voltariam às compras quando houvesse uma "sensação de bem-estar", mas que a classe média não atravessa um bom momento financeiro. "Estamos esperando que isso mude, [mas], até agora, houve apenas falsas arrancadas", disse. O setor de luxo também tem sido prejudicado pela demanda fraca na China, que impulsionou seu crescimento na última década. Os consumidores chineses ficaram mais relutantes em gastar diante da queda dos preços dos imóveis e do desempenho abaixo do esperado do mercado acionário. O impacto não foi distribuído igualmente pelo setor. Marcas como Hermès e Brunello Cucinelli, cuja clientela pertence a uma faixa mais elevada do mercado, tiveram desempenho superior, enquanto grifes que já precisavam de uma reviravolta, como a Kering, proprietária da Gucci, e a Burberry, ficaram entre as que mais perderam valor. O grande destaque do setor durante a retração foi o grupo suíço de joalheria Richemont. Uma alta de 28% em suas ações nos últimos seis meses elevou para mais de 100 bilhões de euros o valor de mercado do grupo, proprietário da Cartier e da Van Cleef & Arpels. A demanda também tem sido forte nas marcas de joias da LVMH, Tiffany e Bvlgari. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. Federico Marchetti, veterano executivo do setor, afirmou que os fortes aumentos nos preços das bolsas levaram os consumidores a direcionar seus gastos para pulseiras e colares. "Considerando os preços atuais, acho que o cliente prefere comprar uma joia de 10 mil euros em vez de uma bolsa de 7 mil euros", disse. Embora a recuperação do setor esteja demorando mais do que o esperado, dados recentes dos Estados Unidos e da Coreia, onde os gastos com luxo se recuperaram após uma disparada dos mercados acionários locais, reforçaram a percepção de que a retração é cíclica. "Assim que as pessoas sentem que têm dinheiro... elas gastam", disse Cereda.
LVMH perde ganhos da pandemia com enfraquecimento do mercado de luxo
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