Luta de Milei para manter peso valorizado pressiona economia da Argentina

Luta de Milei para manter peso valorizado pressiona economia da Argentina

Os esforços do presidente da Argentina, Javier Milei, para domar a inflação com uma moeda forte estão cobrando um preço cada vez maior da economia nacional. O peso se desvalorizou 3,7% em relação ao dólar, enquanto os preços ao consumidor subiram 21,3% no acumulado deste ano até agosto. Nas últimas semanas, essa valorização real tem sido sustentada cada vez mais pela intervenção oficial nos mercados de títulos e futuros, enquanto os controles cambiais sobre as empresas continuam em vigor. A agência de estatísticas Indec divulgará na tarde de quinta-feira (17) os dados do PIB (Produto Interno Bruto) do segundo trimestre, e analistas preveem que a economia tenha encolhido 0,9% em relação ao trimestre anterior. Para muitos, a política cambial de Milei é um dos principais fatores que dificultam o crescimento da Argentina. "A esta altura, já está bem estabelecido que a atividade econômica não primária da Argentina apresenta um desempenho fraco, o que representa riscos para a continuidade das políticas", afirmou Ivan Stambulsky, analista do Barclays, em relatório a investidores na semana passada. "Em nossa avaliação, a principal explicação é simplesmente que a taxa de câmbio real efetiva está valorizada demais para a atual combinação de políticas". O libertário conteve os aumentos de preços durante boa parte de sua gestão, em parte por manter um controle rígido sobre o peso, fazendo com que a moeda se valorizasse em termos ajustados pela inflação. No primeiro semestre, houve uma entrada de dólares proveniente da safra de soja, em meio a um grande volume de emissões de dívida no exterior por empresas argentinas. Isso garantiu ampla oferta de moeda estrangeira e ajudou o banco central a recompor suas reservas sem exercer muita pressão sobre o peso. Esse cenário começou a mudar no segundo semestre. A entrada de dólares das exportações agrícolas diminuiu após o pico da safra, enquanto os recursos obtidos com empréstimos corporativos também recuaram. Com a escassez de dólares, o banco central passou a recorrer cada vez mais à venda de títulos vinculados ao câmbio e contratos futuros para atender à demanda por proteção cambial e aliviar a pressão sobre o peso, sem deixar de tentar acumular reservas. Como resultado, o estoque de instrumentos de proteção vinculados à taxa de câmbio mais que dobrou em apenas cinco meses, segundo estimativas da corretora Facimex. No total, as posições do setor privado em contratos futuros, títulos duais e papéis conhecidos localmente como "dollar-linked" subiram de US$ 5,2 bilhões (R$ 26,79 bilhões) no fim de março para cerca de US$ 12 bilhões (R$ 61,82 bilhões) no fim de agosto. "Há um elevado grau de intervenção do BCRA", afirmou Stambulsky, referindo-se ao banco central pela sigla em espanhol. Quando o mercado começou a desfazer operações de carry trade após o pico da safra, a autoridade monetária "intensificou a intervenção com a venda de instrumentos de proteção, reduziu o ritmo das compras no mercado à vista e permitiu que os juros subissem". Agosto, setembro e outubro costumam ser meses em que o banco central vende dólares diretamente no mercado à vista. Neste ano, porém, o governo mudou de estratégia, vendendo fora desse mercado instrumentos vinculados ao dólar. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. A estratégia ajudou a manter a taxa de câmbio próxima de 1.500 pesos por dólar, um nível muito mais forte do que os economistas previam. Há um ano, analistas consultados pelo banco central esperavam que o peso se desvalorizasse para 1.811 por dólar até dezembro de 2026. No mês passado, eles revisaram essa projeção para 1.629. Em uma economia já sobrecarregada por impostos altos e custos elevados, um peso valorizado reduz a competitividade dos produtores nacionais e barateia as importações, pressionando a indústria local. Essa dinâmica pesa sobre uma economia que já perde fôlego. Economistas reduziram a previsão de crescimento para todo o ano de 2026 de 3,5%, há alguns meses, para 2,1%. As políticas de Milei desaceleraram fortemente a inflação mensal, de 25,5% em seu primeiro mês no cargo para 1,7% em agosto. Mas os avanços se tornaram mais difíceis desde o início da guerra no Irã. A inflação, que Milei esperava que já tivesse caído para menos de 1%, permanece persistentemente mais próxima de 2%. "O que o governo quer, e rápido, é que a inflação desacelere", afirmou Osvaldo Giordano, presidente do Ieral, centro de estudos econômicos da Fundación Mediterránea. Segundo ele, o peso forte reflete tanto a determinação do governo em alcançar esse objetivo quanto a expectativa do mercado de que dispõe das ferramentas necessárias para continuar fazendo isso. As mesmas políticas que sustentam a moeda estão exercendo pressão em outras áreas. Os juros mais altos pesam sobre o crédito, que havia se tornado um importante motor da recuperação depois que anos de inflação elevada praticamente excluíram famílias e empresas do acesso a financiamento. Ainda assim, desde as eleições legislativas de outubro do ano passado, a inadimplência das famílias vem batendo recordes mês após mês. A pressão é particularmente visível na indústria, no varejo e na construção —setores que empregam grande número de argentinos e ficaram para trás em relação à expansão de áreas como energia, mineração e agricultura. A construção encolheu 4,5% em agosto na comparação anual, enquanto a indústria de transformação recuou 4,9%. Isso cria um dilema político cada vez maior para Milei, que se prepara para buscar a reeleição no próximo ano. "Talvez fosse menos arriscado se preocupar menos com a velocidade da queda da inflação e, em vez disso, oferecer algum alívio a setores urbanos como indústria, comércio e construção", afirmou Giordano. "São esses os setores dos quais vive a maioria dos argentinos e também aqueles em que os dados mostram a maior destruição da atividade econômica e de empregos."

Original Source

Read the full article at Www1 →

KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.