Depois de fazer da defesa da soberania brasileira uma das bandeiras de sua campanha, Lula (PT) iniciará seu quarto mandato com um desafio central na política externa: administrar a relação com Donald Trump nos dois anos restantes do governo americano. Durante a disputa eleitoral, o petista elevou o tom contra a política dos Estados Unidos para a América Latina. Integrantes do governo avaliam que a reeleição não eliminará pressões de Washington nem a atuação de aliados do bolsonarismo junto a Trump. A estratégia seguirá combinando defesa da soberania e diálogo, apesar das divergências. Até a publicação desta reportagem, a Casa Branca não havia se manifestado sobre o resultado eleitoral brasileiro. Lula terá pela frente um presidente americano que já lhe enviou sinais contraditórios. Trump passou de elogios ao petista, a quem recebeu na Casa Branca e chamou de "dinâmico", a declarações de que o brasileiro é "volátil" e de que "não poderia se importar menos" com o petista. Apesar da relação conturbada, o republicano também deu sinais de disposição para manter o diálogo. Em agosto, durante encontro com o banqueiro André Esteves, Trump demonstrou respeito por Lula, segundo relatos da conversa, como mostrou a coluna da Mônica Bergamo. A postura contrasta com a resistência de integrantes de seu governo, especialmente no Departamento de Estado, comandado por Marco Rubio, que já elevou o tom nas críticas ao petista e cuja pasta impôs sanções a diversos membros do governo brasileiro. Um ex-integrante do primeiro governo Trump avalia que as críticas de Lula e de seus principais assessores à política americana aprofundaram a resistência dos americanos. O problema, segundo ele, é agravado pela ausência de interlocutores na atual administração capazes de compreender as particularidades da política brasileira e explicar os interesses do país em Washington. Sem essa ponte, a desconfiança tende a se transformar em hostilidade. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Ele diz, porém, que essa resistência não é uniforme. Enquanto setores do Departamento de Estado demonstram animosidade em relação a Lula, boa parte da administração Trump tem pouco interesse pelo Brasil e prioriza a disposição de outros governos em atender às demandas americanas. Superada a eleição, Lula terá de decidir sobre o agrément de Daniel Perez, indicado para a embaixada dos EUA no Brasil e que depende de autorização do governo brasileiro para assumir o posto em Brasília. A expectativa é que o aval seja concedido até o fim do ano, em um possível gesto de distensão nas relações entre os dois países. Também terá o desafio de traduzir o discurso de soberania em resultados concretos, a começar pelas tarifas americanas de 37,5%. Segundo interlocutores do governo brasileiro, Washington sinalizou que as negociações do tarifaço devem ser destravadas após as eleições. Outros pontos de atenção são o interesse americano pelas terras raras e o combate ao crime organizado, que levou o governo republicano a designar as facções PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas. Na campanha e na Assembleia Geral da ONU, em setembro, Lula criticou a interferência americana na região e a submissão latino-americana a potências estrangeiras. O primeiro teste após a eleição, porém, será a reação de Trump ao resultado. Em carta a congressistas democratas, o Departamento de Estado evitou se comprometer expressamente a reconhecer o vencedor, mas manifestou apoio a eleições livres e justas no Brasil. Paulo Abrão, ex-secretário Nacional de Justiça do governo Dilma e diretor do Washington Brazil Office, considera que a vitória de Lula pode distender a relação ao retirar a disputa brasileira do horizonte imediato de Washington, desde que os EUA aceitem o resultado. "Se Washington concluir que terá de negociar com Lula, pode haver incentivo para substituir parte dessa disputa eleitoral por uma negociação entre governos", afirma. Para Abrão, Lula terá de mostrar que a defesa da soberania pode se traduzir em redução de barreiras comerciais, investimentos e acordos vantajosos para o Brasil. Lucas de Souza Martins, pesquisador e professor da Universidade Temple, nos EUA, também espera uma relação mais pragmática e lembra que Lula dialogou com presidentes de diferentes orientações políticas, incluindo o republicano George W. Bush. O comércio deve ser a principal frente de aproximação. Outro foco de atrito será a estratégia de Trump para a América Latina, centrada no combate ao crime organizado, na cooperação militar e na tentativa de restringir a influência de potências concorrentes. Uma de suas principais iniciativas é o Escudo das Américas, coalizão regional que reúne governos alinhados a Washington e estabelece compromissos nas áreas de segurança e economia. Nos bastidores, o governo Lula rejeita a possibilidade de adesão ao grupo. A avaliação é que a iniciativa foi desenhada unilateralmente pelos Estados Unidos, sem que os demais países participassem da definição de suas prioridades, contrariando a tradição brasileira de negociação multilateral. Abrão, porém, não descarta que as circunstâncias levem o Brasil a negociar algum tipo de participação condicionada, especialmente se a iniciativa passar a concentrar mecanismos relevantes de cooperação contra o crime organizado. Nesse cenário, Lula poderia buscar acesso a inteligência e tecnologia sem aceitar a presença de forças americanas em operações no território nacional. Steven Dudley, diretor do InSight Crime, think tank de crime e segurança da América Latina, afirma que o intercâmbio de informações entre autoridades dos dois países existe há anos e resiste a tensões políticas, embora possa perder intensidade. Para ele, problemas estruturais de segurança pública não se resolvem apenas com mais forças, e a descentralização policial brasileira dificulta a implementação de políticas nacionais. A disputa entre Washington e Pequim também desafiará Lula. O Brasil pretende preservar os laços com a China, seu principal parceiro comercial, enquanto os EUA buscam reduzir a dependência chinesa em setores estratégicos. Minerais críticos devem ganhar espaço na agenda bilateral. O governo brasileiro defende acordos que ampliem o processamento desses recursos e a produção industrial no país, em vez de limitar a parceria à exportação de matérias-primas. A atuação de Eduardo Bolsonaro, Paulo Figueiredo e outros aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro seguirá no radar. Interlocutores de Lula avaliam que os canais políticos mantidos pelo grupo em Washington persistirão mesmo após a derrota eleitoral. Assim, embora a reeleição possa reduzir parte da tensão associada à disputa presidencial brasileira, Lula continuará diante de uma administração americana cuja estratégia para o hemisfério envolve interesses que vão além do resultado das urnas. O desafio será preservar a autonomia reivindicada durante a campanha sem fechar as portas para negociações com Washington —e atravessar os dois anos restantes de Trump sem permitir que a disputa política comprometa os interesses econômicos e diplomáticos brasileiros.
Lula ter� Trump como principal desafio externo e apostar� em di�logo ap�s embates na elei��o
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